Poemas, frases e mensagens de nataliarcorrea

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de nataliarcorrea

Tormenta

 
Lágrimas caem feito pétalas no outono
Meus olhos desbotam, com o monótono gotejar
Triste canção que me afasta o sono
- ao invés de acalentar

Olho a janela, as luzes se movem
As nuvens do céu se dissolvem no mar
Sonho acordada que sou tempestade
Mas nunca aprendi a trovejar

Cravo as unhas sobre a face
Meu disfarce já vai se desmanchar
Mancho os lençóis com meu sangue vermelho
Vejo o espelho me denunciar

O arco que atravessa a íris
Um raio me rouba o ar
Arrepios febris sacodem meu corpo
Que parece evaporar

Minha alma se transmuta
Mas o penar nunca se esgota
Sou tempestade em conta-gotas
Trovão de uma garganta muda
 
Tormenta

Fobias

 
Eu sempre tive medo de ficar preso no elevador, mas esse medo se intensificou quando eu descobri que aquele botão de “alarme” é meramente ilustrativo. Eu descobri isso por acaso, em um dia que estava com vontade de perturbar os vizinhos e passei quase 5 minutos apertando aquele botão. Saí do elevador com um ar de malandro, jurando que havia acordado todos no prédio, mas o porteiro me disse que só dava para ouvir dentro do elevador mesmo, que era uma forma de diminuir o pânico em quem estivesse preso. Falando isso, ele aumentou o meu pânico. E se eu ficasse preso no elevador? Os celulares costumam ficar fora de área lá dentro.
Passei então a fazer experimentos. Pedi pra minha irmã mais nova ficar no térreo, enquanto eu fingia que estava preso no elevador. Bati na porta um milhão de vezes e gritei com tanto força que fiquei com falta de ar – sou asmático – e tive que fazer nebulização. Mas sabe o que é pior? Minha irmã não ouviu nada. E se fosse real? Eu ficaria preso no elevador até alguém ter a idéia de usá-lo? Se bem conheço as pessoas no meu prédio, quando elas vissem o elevador parado em um só andar, pegariam o outro elevador – o de serviço. Eu podia passar D-I-A-S preso no elevador, sem comida, sem água, e SEM AR! Depois desse dia, eu decidi que nunca mais andaria de elevador.
Passei a subir e descer os oito andares de escada, e confesso que meu condicionamento físico aumentou um pouco. Mas um dia eu subi correndo (estava apertado para ir ao banheiro) e tive crise de asma no meio da subida. Comecei a ficar tonto, minha vista embaçou e eu pensei que fosse morrer SEM AR – e mijado. Tentei gritar, mas ninguém ouviu porque as escadas são muito isoladas do resto do prédio. Eu fui encontrado desmaiado, pelo porteiro, quando ele estava recolhendo o lixo dos apartamentos, e fui levado ao hospital em estado crítico.
Depois do acontecido eu me mudei para uma casa - onde não precisava subir escadas ou elevadores - e passei a levar na bolsa o meu kit de nebulização, apitos de socorro e mantimentos como água e cereais, para o caso de eu ficar preso em algum elevador empresarial. Mas morar em casa tem seus problemas. Como ninguém entendia o meu medo de elevadores, eu tive que me mudar sozinho. Não havia porteiros, portanto, a segurança era pouca. Eu ouvia os barulhos na rua e ficava sempre tenso, pensando que a qualquer momento minha residência poderia ser invadida, saqueada e usada de cativeiro para mim, até que algum familiar meu pagasse um resgate.
Resolvi tomar uma providência preventiva. Liguei para os meus pais, passei a senha da minha poupança pessoal e autorizei no banco uma transação sem cartão; disse que eles poderiam limpar a conta em caso de seqüestro. Mandei construir um muro em volta da casa e coloquei meio metro de cerca elétrica acima dele. Troquei meu Honda Cívic por um Celtinha vermelho (para não chamar à atenção dos assaltantes) e cancelei as linhas telefônicas para que ninguém grampeasse minhas ligações e descobrisse todos os meus passos. Coloquei alarme no portão da frente e uma grade na porta de dentro, além de ter instalado janelas - que não abrem - feitas de vidro blindado, também adquiri porte de arma. Comecei a me sentir realmente seguro na minha casa, tanto que me demiti do meu emprego e passei a trabalhar em casa, escrevendo crônicas e enviando para jornais – pela internet.
Um dia o alarme tocou no meio da noite. Eu fiquei afobado na mesma hora, liguei para a polícia e eles chegaram quinze minutos depois. Quando abri a porta, não eram policiais, ou eram policiais usando mascaras de meia com furo nos olhos, mas eram três e eles invadiram minha casa, saquearam tudo e me fizeram de refém. Meus pais estavam viajando e minha irmã pensou que fosse brincadeira quando eu liguei do meu celular – cuja bateria acabou quinze minutos depois do incidente me impedindo de fazer qualquer outra ligação. No final, os não-policiais/policiais bandidos desistiram do resgate, me trancaram dentro da minha própria casa e fugiram com tudo que eu tinha de valor (inclusive o celular descarregado). Por sorte deixaram meu nebulizador, porque todo aquele estresse me fez entrar em crise asmática.
Fui encontrado pelos vizinhos uma semana depois, eletrocutado nas cercas acima do muro. É que minha casa andava cheia de baratas, e eu fiquei com medo que elas se unissem para me atacar e entrassem em todos os meus orifícios. Uma delas estava se aproximando, quando eu decidi que nós não podíamos permanecer no mesmo ambiente. Pensei em matá-la, mas ela tinha asas e eu estava em desvantagem. Saí correndo e pulei o muro, mas na agonia esqueci de desligar a eletricidade.
Mas agora está tudo bem, estou morando em uma clínica, meu quarto tem paredes de plástico e eu posso ver qualquer um que se aproxima por uma câmera escondida na porta. Não uso objetos cortantes e não como coisas redondas que possam me engasgar, nem coisas pontudas que possuam perfurar minha garganta. Na verdade, eu só tomo líquidos...
 
Fobias

Eutanásia

 
Todo mundo sabia: ele estava morrendo. Mesmo antes de ser diagnosticado, ele já estava morrendo. Eu sei pelo sorriso, que já não tinha tanta cor, e pela voz, que era fraca e quase ninguém ouvia. Ele passava despercebido pelas pessoas, e isso, antes, nunca havia acontecido. Aonde ia, carregava consigo olhares de admiração. É claro, havia também olhares de despeito, mas esses sempre foram ignorados.

Ele era forte, não se deixava abalar por bobagens, e quando brigava, fazia logo as pazes porque achava um saco dormir sozinho. Ele era bom. Bom não, ele era ótimo, e sabia disso, mas não era prepotente. Sabia rir de si mesmo, sabia assumir os próprios erros, e sabia a melhor forma de consertá-los. Eu não conseguia ficar longe dele muito tempo, e quando não tinha jeito, era a saudade que me consolava. A saudade dele, digo. A garantia de que ele me aceitaria de volta.

Depois de um tempo, entretanto, ele não tinha mais energia pra sentir saudade. Eu precisava estar sempre lá, cuidando dele, fazendo carinho, afagando-lhe o ego. É que ele já não confiava na própria força, e estava sempre pensando em desistir. Eu dizia que não – ainda é cedo – nós vamos viver muitas coisas juntos ainda! Ele estava cansado, mas forçava um sorriso assim mesmo. Não queria me magoar.

Quando me disseram o que estava acontecendo (porque são sempre os outros que enxergam melhor), eu chorei. Não que não tivesse chorado antes, eu chorava todos os dias. Mas nesse dia meu choro foi consciente. Lembrei-me daquelas pessoas nos hospitais, com aqueles tubos saindo pela garganta, entrando pelo nariz, agulhas enfiadas nas veias. E só então compreendi: eu era a máquina que o mantinha vivo. Mas a que custo? Ele já não era saudável, o nosso amor, e sofria por ter falhado na missão de ser eterno. Você já havia desistido dele fazia tempo, enquanto eu o mantive comigo por egoísmo, sem perceber como era desgastante aquela luta.

No fim, deixei que ele partisse. E restou apenas a lembrança de quando o amor era vivo e nós tão felizes.
 
Eutanásia

Pintura íntima II

 
Pintura íntima II
 
Bebi do seu vinho tinta
E pintei meu coração com seu corante
Entreguei-me a sua boca faminta
Fotografei nosso melhor instante

Fui tela branca pro seu pincel
Deslizando sobre mim como se eu fosse um papel
Apaguei-me do jeito antigo
Pra me desenhar de um jeito novo contigo

Joguei fora todo o solvente do seu ateliê
Rasguei as telas do seu estoque
Pra que ninguém me apague de você
Pra que você nunca me troque

Pendurei meu quadro em seu pescoço
Nossa foto em seu mural
Faça do meu corpo o seu esboço
Da minha pele, seu avental.
 
Pintura íntima II

Prima Vera

 
Teu sorriso é tão bonito
Tuas cores, tão vibrantes
Tuas pétalas, como dançam!
Ao som dos ventos uivantes

Sei que tens dentro de si
Um terrível medo do inverno
Como se o gelo fosse pra ti
Como o fogo que arde no inferno

O outono, teu vil amante
Sem pudor se insinua
Derruba tua pobre folha restante
Apenas para ver-te nua

Mas há também o amor covarde
Cujo sol cega e o calor seduz
Então deixa o verão pra mais tarde
Pois tudo que incendeia

reduz-se a pó.

Primavera - Los hermanos
Deixa o verão - Los hermanos
 
Prima Vera

Melancolia

 
Se eu fosse noite
Hoje eu estaria nua
Sem lua, sem estrelas

As estradas estariam sem carros
As praças sem amantes
O horizonte sem cor

Meu céu estaria nublado
E minhas nuvens carregadas
Choveriam o meu lamento

O vento estaria parado
Os mares estariam opacos
Sem luz pra refletir

As ruas estariam sem postes
As mariposas estariam sem asas
E as casas, sem janelas

As donzelas estariam cansadas
De esperar, de sorrir
As crianças com medo de dormir

Se eu fosse noite
A escuridão seria tanta, mas tanta
Que os olhos deixariam de brilhar

O mundo inteiro seria um poço profundo
Toda dor fecunda
Toda alma imunda

Eu seria noite e o amor (em mim) se extinguiria
Amordaçado & sufocado
Nesta melancolia amarga .
 
Melancolia

Síndrome de Raul

 
Sou a mosca na sua sopa
Sou a roupa daquela moça
Que você sempre quis ver nua

Sou a mosca no seu ouvido
Sou o zumbido insuportável
Que o impede de dormir

Sou a mosca na sua merda
Que pousa na sua comida
E lhe provoca indigestão

Sou a mosca morta
Parada na sua porta
Implorando por seus restos

Mas você nunca me nota.
 
Síndrome de Raul

Objeto de estudo

 
Você faz meiose dentro de mim
Se multiplica em progressão geométrica
Você me ensina seu latim
Me comove com mentiras patéticas

Conhece o relevo do meu corpo
Mas desconhece a depressão na minha alma
Sua dedicação é mero engodo
Enquanto minha gratidão te exalta

Você confunde minha sintaxe
Distorce toda minha anatomia
De biologia, como é de praxe
Só entende de putaria.
 
Objeto de estudo

Otário

 
Homem direito e de bom coração
Não trai a esposa nem abusa dos filhos
Levanta a tampa da privada
Empresta dinheiro aos amigos

Paga as contas no prazo
Vai à missa nos domingos
Deixa o filho sair do armário
Visita velhinhos no asilo

Não sonega imposto de renda
Anota os compromissos na agenda
Sempre atende o celular
Leva a sogra pra viajar

Não fala palavrão no trânsito
Não bebe, não fuma e não ronca
Não troca a mulher por futebol
Goza fora do lençol

Morreu pobre, corno e solitário
Otário.
 
Otário

Um trago de amor

 
A mesa estava posta. A sala, vazia. Exceto pela mulher que, com um cigarro preso entre os dedos, observava a lenha crepitando na lareira. Travavam uma guerra silenciosa, o cigarro e a madeira, para ver quem primeiro viraria cinzas. Mas ela própria já havia vencido aquela disputa.

O cenário era melancólico. As chamas projetavam na parede a sombra daquele fantasma amargo, que parecia aguardar resignadamente o dia do juízo final. E aguardava mesmo, embora esse dia estivesse distante.

Aquela noite ela esperava seu futuro marido. Ela não o conhecia ainda, mas estava escrito que seria assim. Ao contrário de sua irmã mais jovem, que deveria ser feliz apenas ao lado de um homem que de fato a merecesse, ela precisava zelar pela família.

Tentava consolar-se. Afinal de contas, o homem era rico. Poderia cobrir-se de joias e perfumes caros. Mandaria coser vestidos de seda pura e moraria em uma verdadeira mansão, repleta de criados que fariam todas as suas vontades.

Um arremedo de sorriso surgia em sua face. Amargo também. Parecia que adivinhava que não seria esse seu destino, e, ainda que fosse, talvez ela não fosse tão superficial quanto julgavam.

Voltou o olhar a porta. Um tiquetaquear incômodo a inquietava, parecia avisar a todo momento que ninguém viria. E se viesse e não gostasse dela? Se não viesse, era sinal que sua reputação fora suficiente para assustá-lo. De todo modo, ela saía perdendo.

Levantou-se do sofá, impaciente. Foi olhar-se num espelho. Havia duas dela. Uma tão imóvel quanto uma fotografia, presa dentro do espelho na mais completa resignação; e outra tão agitada quanto as sombras nervosas que dançavam contra a luz. Apesar disso, achou-se bonita. Apesar dos cabelos pretos e dos olhos também pretos. Apesar de não parecer, em nada, com aquela que parecia ser a personificação da beleza.

Do lado de fora da casa, o assoalho rangeu. Alguém vinha, pensou, e batidas na porta confirmaram suas suspeitas. O coração falhou uma batida. As mãos nos cabelos repararam o penteado sofisticado.

Abriu a porta com o sorriso que havia ensaiado. Entretanto, ele logo esmaeceu.

— Ah, é você.

O desprezo em sua voz, ao reconhecer o rapaz parado à soleira. Deu-lhe as costas, retornando à sala, mas a porta permaneceu aberta em um convite silencioso.

Parecia que não, mas suas pupilas enigmáticas vigiavam-no pelo reflexo do espelho. Costumava fingir que não sabia seu nome e frequentemente se referia a ele como “garoto estranho”. Tinha que admitir, contudo, que há algum tempo sua impressão sobre ele havia mudado.

Ele já não era o moleque pálido e magro, meio desconjuntado, do qual se recordava. Tornara-se um rapaz atraente, de ombros largos e traços marcantes – exceto, talvez, por aqueles cabelos terrivelmente desalinhados. Naturalmente, deveria amadurecer ainda antes de tornar-se um homem de fato. Ganharia alguns centímetros, engrossaria os pelos do rosto. Entretanto, já naquela época seus olhos detinham um brilho trágico, que sugeria um peso maior do que alguém tão jovem deveria carregar. Eles não eram tão diferentes afinal.

— O que faz aqui?

Aproximou-se, muito mais do que era necessário, apenas para soprar a fumaça em seu rosto.

— Vim pedir que fuja comigo.
— Fugir? – ela pareceu se divertir – Não seja tolo garoto.
— Eu posso cuidar de você.
— Oh, cuidar da sua mãe o tornou perito em mulheres?
— Eu sei tratar uma mulher.
— Eu não sou uma mulher qualquer.

Por um instante, a observação provocou um pesado silêncio, mas o garoto não desistiria tão fácil.

— Deixe que eu prove o meu amor e verá.
— Amor? É com isso que pretende me conquistar? Seu amor não é mais real que qualquer outro sonho, garoto. Acorde enquanto há tempo.
— Não. É você quem está sonhando. Está presa em um pesadelo, não vê? Deixe-me acordá-la...
— Com um beijo de amor eterno? Ora, não me faça rir.
— Ria se é o que deseja.

Ela tentou escapar da onda de excitação que envolveu seu corpo naquele momento, porém um pulso sólido a susteve. Como um pássaro indefeso que se choca acidentalmente contra uma janela, ela se chocou contra o peito forte do jovem, mas suas asas há muito haviam se partido.

Permaneceu sem reação, com a cabeça inclinada sob a pressão do beijo inesperado, até que o calor daquela boca penetrou-a, provocando um súbito estremecimento. Ela sentiu-lhe os lábios, macios, frescos na cálida aspereza de uma barba recente, tomando os seus. Então suas mãos se crisparam sobre os ombros do homem. Sim, deu-se conta de que ele já era um homem, afinal, e amava com uma paixão arrebatadora, a qual ela se entregou febril.

— Vá.

Disse quando ele se afastou.

— Mas...
— Vá.

Quando a porta se fechou, um riso espontâneo e estranhamente sensual escapou de sua garganta, como se tivesse, de repente, recuperado a juventude perdida em anos de amargura. Havia provado do fruto proibido, polpa saborosa oferecida à fome, pelo qual seria um milhão de vezes expulsa do paraíso (a cada despudorada lembrança), e agora estava pronta para enfrentar seu destino.
 
Um trago de amor

Homem fiel

 
Ele estava completamente concentrado em seus relatórios diários quando bateram à porta. Parou por um instante, elevando um pouco o queixo, e voltou a escrever.
Novamente, bateram à porta.
– Senhor, posso entrar?
Era uma voz feminina, quase sensual. Melíflua, parecia que deslizava nos ouvidos dele. A famosa voz de travesseiro, que, como se feita de pluma, se abraça com o vento e fica dando voltas e voltas até finalmente cair (ou sumir – como um sussurro).
Mesmo sentindo-se tentado, ele se limitou a um “uhum”. Não tinha tempo para comportamentos adolescentes, apesar de sentir-se altamente excitado com a idéia de ter um caso com sua belíssima secretária. Além do mais, era um homem casado, não deveria prestar-se àqueles pensamentos infames.
Ela entrou na sala. Usava uma saia justa – na altura do joelho – e um suéter carmesim. Tinha os cabelos presos, mas alguns fios escapavam ao penteado, emoldurando-lhe o bonito rosto, contemplado com um par de belos olhos verdes. Um semblante impecável, não fossem as olheiras escuras abaixo dos olhos e o nariz levemente corado, como de quem andou chorando.
Entretanto, apesar da aparência estonteante da mulher e do impulso devastador de oferecer-lhe algum consolo, ele continuou concentrado na papelada sobre a escrivaninha... Precisava se controlar.
– Senhor, é a terceira vez que sua esposa liga. Ela parecia angustiada... Você não deveria atender a ligação?
– Não. Ela sabe que não deve me incomodar durante o trabalho.
– Mas senhor, parece ser muito importante.
– Pois diga a ela que resolveremos tudo quando eu chegar em casa.
– Mas o senhor sempre chega muito cansado em casa, e acaba dormindo durante as discussões.
– Isso não é de todo verdade. – ele disse, sem desviar a atenção dos papeis, resistindo à atração quase magnética que o decote dela exercia sobre seus olhos. – Me sirva um pouco de café, por favor.
– Realmente, é uma verdade incompleta. O Senhor dorme durante o sexo também! – ela acusou, enquanto enchia um copo na máquina de café expresso.
– Mas isso é um absurdo! Não vou discutir minha vida sexual com minha secretária.
– E sua esposa.
– O que disse?
– Sua secretária e esposa.
Ele olhou-a por cima do copo, com uma sobrancelha arqueada. Parecia furioso.
– Onde você quer chegar? Nós já combinamos que aqui eu sou apenas o seu patrão, e como tal, mereço seu respeito integral. Não posso tolerar esse tipo de comportamento, entendeu?
– Pois eu me demito!
– Está bem. Esse é seu aviso prévio? Quando pretende deixar a empresa?
– Você não entendeu, eu me demito como sua esposa!
O homem pareceu chocado ao ouvi-la, e suas feições passaram por uma seqüência de cores e expressões, entre vermelho-raiva, roxo-indignação e cinza-tristeza.
– Se é o que você quer... Mande seu advogado falar comigo mais tarde para resolvermos a questão do divorcio. Pode ir.
Ela sentiu um aperto na garganta, os olhos ficaram embaçados; a voz saiu embargada de um choro iminente, contido pelo orgulho.
– Sim senhor. Eu... – como não pudesse completar, ela simplesmente deu-lhe as costas para se retirar, mas ele a impediu.
– Espere! - chamou. - Eu e a minha esposa, nós já estamos tecnicamente separados, não é?
– Sim. Você está completamente livre, se é isso que quer saber.
E então um braço forte a envolveu de repente, e seu corpo chocou-se com o corpo másculo do homem, agora de pé à sua frente. Ele ofegava, e ela sentiu uma onda de calor subir por seu corpo quando as mãos dele pousaram-se bruscamente sobre suas pernas, e suas bocas encaixaram-se num beijo faminto, cheio de desejo.
 
Homem fiel

Meus versos tristes deixo-os na gaveta (a história de uma tristeza que passou)

 
Parecia que seria pra sempre, antes o amor
Depois a tristeza
Mas pra sempre é tempo que a gente inventa
Pra enfrentar nossa falha evolutiva
Em lidar com as incertezas

Havia um culpado e uma vítima
Um processo e uma indenização
Onde todas as promessas deveriam ser pagas
Com juros
Ao moribundo coração

Mas juros não são juras
E a insegurança perdura na dúvida de ser real ou não
Não basta uma peneira pra tampar o sol
É preciso um anzol pra pescar estrelas
Pois é melhor um amor disperso - brilhando
Que um amor morto em nossas mãos.

E tu que agora sofres por teu amor perdido
E mesmo tu cujo sentimento jamais foi correspondido
Descobrirás cedo ou tarde que
As pontadas em teu peito
Eram agulhas suturando o ferimento.
 
Meus versos tristes deixo-os na gaveta (a história de uma tristeza que passou)

Vampira

 
Não há verdade em teus olhos, eu sei
que tu destilas falsidade a cada instante
mas eu sorvo teu veneno alucinante, e declino
em teus braços finos
como um feto me alimento do teu ventre
me embriago com tua boca cor-de-vinho
tanto envergo meu olhar pra ti
que fico cego
pego teus cabelos em minhas mãos e tu vens
como um verme rastejando sobre mim
finda o gozo em minha língua
e tinge as unhas com meu sangue
carmim
 
Vampira

Pintura Íntima

 
Pintura Íntima
 
Uma boca mais vermelha
Jogo de sombra no olhar
Um retoque na orelha
Efeito-sol pra bronzear

Apagou o sorriso sofrido
Deixou o nariz mais estreito
Preencheu o decote do vestido
Com um pouco mais de peito

Afinou a cintura
Escureceu o cabelo na raiz
A mais bela criatura
Pincelada com verniz

Mas depois que chuva a veio
Todo trabalho foi perdido
O bonito voltou a ser feio:
Era tinta pra tecido.
 
Pintura Íntima

Efêmera

 
Sou Madalena arrependida
Apedrejada em praça pública
Joana D’arc na fogueira
Impudica feiticeira, eu sou
Salomé de João Batista
Com uma cabeça na bandeja
Cleópatra dividida
Entre os homens de Roma e o império do Egito
Sou o grito da donzela
O gozo da prostituta
Minha conduta é suspeita
Sou puta mas sou de virgem
Afrodite, Deusa do amor
Sou as mulheres de Atenas
Sou centenas em uma só
Brigitte Bardot, Marilyn Monroe
Sou a esperança que não voltou da guerra
O holocausto dos Judeus
O ceticismo dos ateus
O adeus que precede a morte, eu sou
Bailarina na caixa de Pandora
A senhora de José de Alencar
Carlota Joaquina, Iemanjá
Ana Bolena e sua irmã traída
Sou as Marias dos Joaquins
As dançarinas dos botequins
Sou Colombina sem Arlequim
A tristeza que inspira
O suspiro que arrebata
O frenesi que arrepia
Sou apenas mais um verso
Em uma poesia que acabou.
 
Efêmera

Estrelas são amores que morrem

 
Sabe, eu descobri que esse brilho que te enfeita o olhar quando tu me olhas é estrela. Estrela verde, ainda no pé. Olhos são ninhos de amor e pomares de estrelas.
Outro dia, caminhando na rua e olhando pro céu, encontrei uma estrela da cor dos teus olhos. Primeiro sorri - senti o vento me envolver e pensei no teu abraço -, mas depois senti uma estranha tristeza nascer em meu peito e crescer, como fosse me engolir por dentro. Fiquei sem entender o porquê daquela angústia, a razão daquela súbita vontade de chorar, até que olhei novamente a estrela cor-de-teus-olhos e reconheci o teu olhar manhoso; aquele de quando tu queres colo, de quanto tu estás carente.
Naquele momento eu soube que aquela estrela era tua. Ela brilhou nos teus olhos como esse brilho que te enfeita o olhar quando tu me olhas hoje, mas por outra pessoa. Estrelas são amores que morrem. E meu medo é deixar de ser brilho nos teus olhos pra ser estrela no teu céu.
 
Estrelas são amores que morrem

O início

 
Lugares muito cheios de gente me dão ataques de solidão. Eu só precisava encontrar um olhar pra fixar o meu, mas ele percebeu e sorriu pra mim. “Música alta né?” Perguntou se aproximando. “O quê?” Descobri que é mais fácil vencer o barulho sussurrando bem próximo do ouvido do que gritando. Tão próximo que dá até pra sentir um sopro quente afastando os cabelos do pescoço. Estremeci. Aquele frio na barriga. É isso que chamam de borboletas no estômago? Uma cruzada de pernas, outra de olhares. “Quer dançar mais essa?” E de repente a música agitada fica lenta. Hálito de trident, toques casuais. Lá fora, um canto escuro. A música já não estava tão alta, mas a respiração era ofegante, as palavras saiam atropeladas entre um estalo e outro. “Acho que te amo”, falei sem pensar. “Como?” “Eu disse que está frio aqui”. Levei pra casa um casaco perfumado e uma rosa roubada de um jardim. O suspiro reprimido finalmente se libertou, as lembranças esparramadas no sofá. Tudo aconteceu tão rápido... será que ele já me esqueceu? Por não saber o nome dele, resolvi chamá-lo de meu.
 
O início

Um trago de amor

 
A mesa estava posta. A sala, vazia. Exceto pela mulher que, com um cigarro preso entre os dedos, observava a lenha crepitando na lareira. Travavam uma guerra silenciosa, o cigarro e a madeira, para ver quem primeiro viraria cinzas. Mas ela própria já havia vencido aquela disputa.
O cenário era melancólico. As chamas projetavam na parede a sombra daquele fantasma amargo, que parecia aguardar resignadamente o dia do juízo final. E aguardava mesmo, embora esse dia estivesse distante.
Aquela noite ela esperava seu futuro marido. Ela não o conhecia ainda, mas estava escrito que seria assim. Ao contrário de sua irmã mais jovem, que deveria ser feliz apenas ao lado de um homem que de fato a merecesse, ela precisava zelar pela família.
Tentava consolar-se. Afinal de contas, o homem era rico. Poderia cobrir-se de joias e perfumes caros. Mandaria coser vestidos de seda pura e moraria em uma verdadeira mansão, repleta de criados que fariam todas as suas vontades.
Um arremedo de sorriso surgia em sua face. Amargo também. Parecia que adivinhava que não seria esse seu destino, e, ainda que fosse, talvez ela não fosse tão superficial quanto julgavam.
Voltou o olhar a porta. Um tiquetaquear incômodo a inquietava, parecia avisar a todo momento que ninguém viria. E se viesse e não gostasse dela? Se não viesse, era sinal que sua reputação fora suficiente para assustá-lo. De todo modo, ela saía perdendo.
Levantou-se do sofá, impaciente. Foi olhar-se num espelho. Havia duas dela. Uma tão imóvel quanto uma fotografia, presa dentro do espelho na mais completa resignação; e outra igualmente imóvel, mas tão agitada quanto as sombras nervosas que se levantavam contra a luz. Apesar disso, achou-se bonita. Apesar dos cabelos pretos e dos olhos também pretos. Apesar de não parecer, em nada, com aquela que parecia ser a personificação da beleza.
Do lado de fora da casa, o assoalho rangeu. Alguém vinha, pensou, e batidas na porta confirmaram suas suspeitas. O coração falhou uma batida. As mãos nos cabelos repararam o penteado sofisticado.
Abriu a porta com o sorriso que havia ensaiado. Entretanto, ele logo esmaeceu.
— Ah, é você.
O desprezo em sua voz, ao reconhecer o rapaz parado à soleira. Deu-lhe as costas, retornando à sala, mas a porta permaneceu aberta em um convite silencioso.
Parecia que não, mas suas pupilas enigmáticas vigiavam-no pelo reflexo do espelho. Costumava fingir que não sabia seu nome e frequentemente se referia a ele como “garoto estranho”. Tinha que admitir, contudo, que há algum tempo sua impressão sobre ele havia mudado.
Ele já não era o moleque pálido e magro, meio desconjuntado, do qual se recordava. Tornara-se um rapaz atraente, de ombros largos e traços marcantes – exceto, talvez, por aqueles cabelos terrivelmente desalinhados. Naturalmente, deveria amadurecer ainda antes de tornar-se um homem de fato. Ganharia alguns centímetros, engrossaria os pelos do rosto. Entretanto, já naquela época seus olhos detinham um brilho trágico, que sugeria um peso maior do que alguém tão jovem deveria carregar.
Eles não eram tão diferentes, afinal.
— O que faz aqui?
Aproximou-se, muito mais do que era necessário, apenas para soprar a fumaça em seu rosto.
— Vim pedir que fuja comigo.
— Fugir? – ela pareceu se divertir – Não seja tolo garoto. O que eu poderia querer com uma criança você?
— Eu posso cuidar de você.
— Oh, cuidar da sua mãe o tornou perito em mulheres?
— Eu sei tratar uma mulher.
— Eu não sou qualquer mulher.
Por um instante, a observação provocou um pesado silêncio, mas o garoto não desistiria tão fácil.
— Deixe que eu prove o meu amor e verá.
— Amor? É com isso que pretende me conquistar? Seu amor não é mais real que qualquer outro sonho, garoto. Acorde enquanto há tempo.
— Não. É você quem está sonhando. Está presa em um pesadelo, não vê? Deixe-me acordá-la...
— Com um beijo de amor eterno? Ora, não me faça rir.
— Ria se é o que deseja.
Ela tentou escapar da onda de excitação que envolveu seu corpo naquele momento, porém um pulso sólido a susteve. Como um pássaro indefeso que se choca acidentalmente contra uma janela, ela se chocou contra o peito forte do jovem, mas suas asas há muito haviam se partido.
Permaneceu sem reação, com a cabeça inclinada sob a pressão do beijo inesperado, até que o calor daquela boca penetrou-a, provocando um súbito estremecimento. Ela sentiu-lhe os lábios, macios, frescos na cálida aspereza de uma barba recente, tomando os seus. Então suas mãos se crisparam sobre os ombros do homem. Sim, deu-se conta de que ele já era um homem, afinal, e amava com uma paixão arrebatadora, a qual ela se entregou febril.
— Vá.
Disse quando ele se afastou.
— Mas...
— Vá.
Quando a porta se fechou, um riso espontâneo e estranhamente sensual escapou de sua garganta, como se tivesse, de repente, recuperado a juventude perdida em anos de amargura. Havia provado do fruto proibido, polpa saborosa oferecida à fome, pelo qual seria um milhão de vezes expulsa do paraíso (a cada despudorada lembrança).
Estava pronta para enfrentar seu destino.
 
Um trago de amor

Sossego

 
Não tenha pressa, querida
Eu não vou a lugar nenhum
Vou te esperar no fim do dia
Te preparar um café
Quando a noite estiver fria, vou te abraçar
E você pode se deitar no meu peito quando precisar chorar
Vou beijar seus olhos ao amanhecer
E sua boca, não importa o mau hálito
Vou emaranhar seus cabelos com meus dedos
Habitar seu ventre pálido (entre lençóis)
E deixar o sol arder em nós
Como um velho hábito.
 
Sossego

Coma

 
Parece estar dormindo
Mas os olhos permanecem abertos
Espectros de um sonho que morreu
E apodrece nesse corpo deserto
Árido e seco, onde nada germina
- nem mesmo a dor

Você ainda enxerga e escuta
Mas já não muda nada ao seu redor
Um mero fantasma que transita
Sem habitar nenhuma memória
De compaixão ou rancor

O sangue aguado que te rega
É veneno que carrega em suas veias
De que vale um coração que bombeia
Quando não se ama?
Você pensa que está vivo
Mas sua alma está em coma.
 
Coma