Poemas, frases e mensagens de Norberto Lopes

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Norberto Lopes

A POETISA

 
Poetisa é aquela que entende
uma história por contar;
E vê na coisa acabada,
mil coisas a começar.

Constrói o mundo, de nada
quando se quer entregar.
Poetisa é aquela que rende
tributo à causa perdida;

É outro sonho, outra vida;
É outra forma de estar.
E nem sequer se arrepende
do espanto que anda a causar!
 
A POETISA

SILÊNCIOS

 
SILÊNCIOS
 
Quando no olhar da gente, a gente sente
que vislumbra a eternidade num segundo
é que a gente se dá conta, de repente,
dos assombrosos silêncios deste mundo

E quando, no silêncio, um som estridente
e atroz, que tergiversa sim o não rotundo,
Melhor fora que desejasse estar ausente,
ou num buraco negro, bem profundo.

Fora só a voz da pele, a que pressente
que o instante é um ventre infindo e fundo...!
Fora só sereno e longo, e toda a gente

calaria a voz própria, pois mais fecundo
é o pulsar mudo do grito, na mão-semente
que o rasgar fácil da terra, no roubo imundo.

Sterea/sfich
 
SILÊNCIOS

Cai o Carmo e aTrindade

 
Pergunto ao povo que passa
como passa o meu país...
Passa triste e quando passa
passa calando a desgraça
e Alegre, nada me diz

De voz grave e colocada
passa em revista o país
Não percebi quase nada!...
E a vós, o que é que ele diz?

- Cai o Carmo, a Trindade,
o cravo e a baioneta;
Já caiu a liberdade
por não haver igualdade
no socialismo da treta -

Mas há sempre uma luzinha
no túnel (quanto a mim)
e uma esperança teimosinha
e nem sequer levezinha...
Há sempre alguém que diz sim

sfich
 
Cai o Carmo e aTrindade

Deslumbre

 
Deslumbro-me num acorde em cada dia,
como se soubesse o deslumbre da loucura;
E quando o próprio verso me procura,
vem em tons matizados de alegria.

Mas logo, em seguida, água fria;
debalde procurado; e, em tortura,
ouvir a negação, com voz segura,
em vez d'afirmação que pretendia.

E sigo, como quem escolhe o mal menor,
na cumplicidade musical dos meus ouvidos
ensaiando harpejos em Mi(m) bemol maior

Num suave tom de beijos sustenidos;
No tanger da alma, o som do ardor,
como se me pisasse nos sentidos...
 
Deslumbre

EQUINÓCIO

 
EQUINÓCIO
 
Por me saber imperfeito,
trato de me preservar;
Contrário à Natureza,
na missão de sublimar.
Rebelo-me de tal jeito
na arte de respirar,
que até no ar rarefeito,
nunca sinto falta de ar...
Fascina-me a subtileza
na arte de respirar!...
 
EQUINÓCIO

Carta de Lisboa

 
Carta de Lisboa
 
Chegou carta muito bela
que me fala de Lisboa
e traz impressos em tela
uma flor de Florbela
e um girassol de Pessoa

De flor vermelha ao peito
a ternura de quem sente
que há sempre um verso perfeito
num sorriso atraente

Anda cá poeta Ary
anda, anda lá daí
que a tua voz ainda ecoa
navegando por Abril,
nas tertúlias, com O'Neill
e Carlos do Carmo em canoa

Anda cá poeta Ary
vem de cravo na lapela
volta, passa por aqui,
canta de novo Lisboa
sorri outra vez p'ra ela

que Lisboa em verso e prosa
ou numa tela qualquer
tem o «candor duma rosa»
e o encanto de mulher!
 
Carta de Lisboa

Poetisa lusa

 
Tem na voz o travo de poeta...
Que não levanta o tom para se ouvir;
Ajusta quase sempre a frase certa
À frequência certa e pura do sentir;
Às vezes, vence a inacção e fica alerta
Descobrindo na textura que há-de vir,
O âmago que a impele à descoberta...
Se é Cristal, vislumbra-o em parte incerta, sem partir
 
Poetisa lusa

Flor-de-lis

 
Flor-de-lis
 
És a minha Flor-de-lis
Nos poemas que eu componho
Estás nos acordes subtis
Da melodia de sonho

Por cada palavra escrita
A fragrância que a consome
é a tua alma que grita...
e logo, a minha aflita,
Chama por mim em teu nome.

Desejos, lábios, pintura...
Amora brava de um dia;
grato gesto de ternura
doce de amora-madura
Beijos que a boca pedia.

Se por vezes acontece
A dor que às vezes esmorece
A brandura dum olhar
A tarefa de seguida
(na neblina da vida)
É um acto de sublimar

Como se fosse esquecida
a dor que às vezes esmorece
a brandura dum olhar
 
Flor-de-lis

«Entrelaçamento colonial à distância»

 
O som do Atlântico Norte!..Mesmo enquanto adolescente aldeão, tive sempre a noção de que o Mundo deveria ser maior do que aquele que me era dado ver. Sabia, dos meus parcos conhecimentos e por intuição, que «para lá de Vila Nova de Foz Côa, ainda havia casas» Das gentes, sabia que eram amarelas, vermelhas, negras e caucasianas; adivinhava-lhes posturas diversas, como diversos seriam os seus costumes; Mas cheguei a pensar, que grande parte dessa gente estaria desprovida de sentido musical; pois fui levado a crer que esse sentido era apenas pertença de ingleses e norte-americanos; tal era a dose de Cliff Richard, de Paul Anka, de Nat King Cole, de The Beatles & cia. Mais tarde concluí que se tratava tão só de exportar a indústria que tinham à mão, a juntar (no caso US) a indústria de Hollywood, indústria essa, que, não raras vezes, fazia alarde da crueldade, com o mesmo afã com que os filósofos e humanistas clássicos faziam dos bons costumes. Assim, com a subtileza que sempre os caracterizou, uns iam mantendo o seu império balofo e outros a sua hegemonia belicista; enquanto não vieram as calças levi's e os caças F16...

sfich
 
«Entrelaçamento colonial à distância»

A CASTA

 
A quem toda a avareza lhe convém;
Social democracia é como é:
Surfa a onda mais alta da maré
E olha todo mundo com desdém

Quem toma conhecimento do que tem,
Mas não tem consciência de quem é;
Há-de um dia concluir que a sua fé
já não tolda o juízo de ninguém.

A esperança faz a gente paciente;
E é por isso que a gente não desiste;
Ninguém espere um gesto indulgente

Sequer contentamento de estar triste
Há-de chegar a hora, e, de repente,
A Justiça vencerá de espada em riste
 
A CASTA

o teu mar

 
Mar adentro mar adentro
Adoro o teu «mar adentro»
de marés-vivas, que eu vi...
Pois, por esse mar adentro,
há mar a bramir por dentro
doutro mar, dentro de ti.
 
o teu mar

CORTE EM BISEL

 
Se escrevo me sinto mal;
se não escrevo, impaciente;
falta-me um ponto final
naquela história ancestral,
que me tornou reticente...
 
CORTE EM BISEL

fragmentos de Pessoa

 
A gente lê Pessoa
e pensa em descrevê-lo:
pegar na meada e no novelo
e, se não encontra pontas, retorcê-lo;
ousar até pensar esquecê-lo
ou desfazê-lo em pedaços por Lisboa…
mas não resulta coisa boa
por se tratar de Pessoa.
A gente, por ser pessoa,
nunca pensa em como sê-lo,
julga sempre percebê-lo,
por papel, destino e selo:
mas quer eu, tu ou Pessoa,
quer no Porto ou em Lisboa...
somos só
as pontinhas do novelo.
tripeiras e alfacinhas
bem atadinhas com zelo
vai de juntar as pontinhas
para enredar mais o novelo

Sterea/Sfich
 
fragmentos de Pessoa

DIZER À PESSO(A)INHA

 
DIZER À PESSO(A)INHA
 
É no acto de te ler,
que sinto quanto me falta
se te quisesse escrever!...

Pois quando a gente lê
quem escreve
o que fica entre a alma de quem sente
e o sentido de quem lê,
é que vê, claramente,
pelo bater do coração,
qual é a gente que sente...
Quem é profundo ou quem não.

E, assim, é evidente,
a gente vê quem é gente
pelo bater do coração!
 
DIZER À PESSO(A)INHA

O Larápio

 
Aquele que diz ter comprado
o que adquiriu roubando
adora parecer honrado
para iludir o desgraçado
mas já foi chefe de bando

Anda de dorso curvado
a roubar o sol ao chão
num gesto há muito estudado
para esconder o mau olhado
dos seus olhos de ladrão

-Tu não sabes mas eu digo-
Diz ele, com seu ar matreiro...
Aleivoso, trapaceiro,
mais sinistro do que o perigo,
sempre a fazer-se de amigo,
no seu jeito traiçoeiro.

Quando for a enterrar
irá de algibeira lisa;
Os sinos a repicar
é que nos irão dizer
que o gusano não precisa
de ser pago p'ra comer
 
O Larápio

mediania

 
Eu não sou aristocrata;
também não sou plebeu;
trato bem quem me bem trata
e nunca fui mais do que eu.

Dizem que tenho na voz,
um travo que tem nobreza;
Mas, aqui só entre nós,
não tenho tanta certeza

Mesmo assim, se me envaideço,
o que de resto me espanta!
penso nisso e reconheço,
que afinal, é só garganta...

Pois este travo consiste
num ar sério, que me faz sentir
pessoa que sabe sorrir,
sem ser alegre nem triste

Post Scriptum: Estava escrito e aconteceu; «perdi-me num poema que ninguém leu»
 
mediania

Rio Douro

 
(à flor das águas)

Sou um rabelo sem leme
nas águas à flor do Tejo,
um coração que não teme
o naufrágio dum desejo

Mas é no Douro
que eu sinto um tesouro
da coisa sentida!
Socalcos vinhedos
suportam segredos
esteios da vida

E amendoeiras
das flores primeiras
quando acaba o frio...
Depois o zumbido
do néctar colhido
da abelha e do rio.

A gente pressente
quem segue a corrente
pelo tom de voz
quando o olhar da gente
é caudal bastante
da nascente à foz
 
Rio Douro

versos

 
Por cada verso que rime
nasce outro que nos deprime
se não diz nada a ninguém;
mas se num verso sublime,
cabe todo o sentimento,
mesmo em forma de lamento,
é o verso que convém.
 
versos

Momentos cruciais

 
Momentos cruciais
 
Há um momento em que o egoísmo se desvanece
e dá lugar ao altruísmo;
Essa mutação acontece quando de repente desejamos
que o próximo tenha muito mais êxito do que nós,
se dele depende a nossa vida num momento crucial
 
Momentos cruciais

PARTICULARIDADES QUÂNTICAS

 
PARTICULARIDADES QUÂNTICAS
 
A mim, o que me vale, é a brandura dos olhares para seguir olhando... O que me assusta, é a certeza da clausura universal e saber que, à luz das partículas subatómicas, jamais deixarei de ser quem sou
 
PARTICULARIDADES QUÂNTICAS