Poemas, frases e mensagens de Henrique Mendes

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Henrique Mendes

QUANDO HOUVER COMO

 
Quando houver como,
vou escrever um poema de amor
que seja da cor da noite.
Onde não apareçam as palavras alvas
dos entendidos e dos cantadores,
para ninguém o eternize naquelas purezas
em que ninguém mais crê.
Onde não haja tampouco
aquela sapiência juanesca
gritada em ecos nos palácios,
nem desesperos de virtudes arrebatadas,
imoladas nos altares
de solidões inconfessáveis.
E que o meu poema não tenha
nenhuns desses heróis antigos,
incansáveis dueladores
estafados em justas inúteis,
defendendo honras ténues,
que eles mesmos perdiam...
Quero-o escuro,
cor da noite cúmplice,
onde uma pitada de medo
possa acrescentar gostosos perigos
áqueles longínquos passos inocentes,
que ninguém mais cogitou escutar.
E quero-o sujo do barro dos caminhos,
e impregnado dos segredos das sombras
de todas essas esquinas
onde esperas intermináveis
temperaram sentimentos fortes,
com maravilhosos devaneios.
E espero que tenha todos os ruídos
do papel dobrado, amarrado com fitas,
onde vagos vestígios de cheiros
ainda evoquem o perfume e os anseios
de esborratadas e sempre eternas juras.
Que meu poema
contenha o sonho e a vertigem,
o sobressalto e a insônia,
as memórias de lábios e de mel,
os brilhos de todas as intenções,
e a cumplicidade dos deuses,
para que nunca seja definitivo,
e eternamente se renove em fervor...
 
QUANDO HOUVER COMO

PERCURSO

 
Corro junto com as águas vindas lá de trás,
da lonjura dos tempos, não de outro lugar.
Com elas, canto canções peregrinas,
vozes borbulhantes de quotidiano comum
nas reviravoltas de um rio tão presente
como esquecido.
Corremos juntos, quando correr
supõe movimentos efervescentes,
espumas brancas
e rumores de seixos entrechocando-se.
E corremos juntos, também, quando somos
apenas uma lâmina verde, estática,
parada na passagem dos dias céleres.
Ou apenas um brilho de prata líquida,
estacionado em noites brilhantes de lua.
Juntos, deixamos para trás a indiferença do mundo,
prescindindo de tudo
o que não possa mudar...
Assim, corremos aliados
em perene testemunho de conciliação.
Elas, vindas de onde eu venho.
Eu, indo para onde elas vão.....

Itapecerica, maio 2007
 
PERCURSO

HAMADRÍADA

 
Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária
que um dia viste através do meu olhar.

Deitada na erva, da sombra olhavas o horizonte luminoso
e aquela colina distante, de onde a árvore te observava
como se fosse um espelho de ti, altaneira,
e tinhas os pensamentos simples que uma árvore tem,
quando quer apenas ser, apenas estar.
Da tua pele erguiam-se com simplicidade,
num coro alucinante aos sentidos,
as vozes das tuas raízes profundas
-que nenhuma casca continha,
nem roupa poderia disfarçar.
Era a linguagem antiga da terra quente
sob a erva molhada, repetindo histórias de seivas
por entre sorrisos de lábios férteis.
E os teus gestos eram levezas de vento
em carícias de folhas, como dedos.
roçando por um instante a minha face feliz.

Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária.
Enquanto me olha, protege em segredos de sombras
o que um dia viste, através do meu olhar.

Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária
que um dia viste através do meu olhar.

Deitada na erva, da sombra olhavas o horizonte luminoso
e aquela colina distante, de onde a árvore te observava
como se fosse um espelho de ti, altaneira,
e tinhas os pensamentos simples que uma árvore tem,
quando quer apenas ser, apenas estar.
Da tua pele erguiam-se com simplicidade,
num coro alucinante aos sentidos,
as vozes das tuas raízes profundas
-que nenhuma casca continha,
nem roupa poderia disfarçar.
Era a linguagem antiga da terra quente
sob a erva molhada, repetindo histórias de seivas
por entre sorrisos de lábios férteis.
E os teus gestos eram levezas de vento
em carícias de folhas, como dedos.
roçando por um instante a minha face feliz.

Ainda vejo ao longe aquela árvore solitária.
Enquanto me olha, protege em segredos de sombras
o que um dia viste, através do meu olhar.
 
HAMADRÍADA

A MISTICA DOS SONHOS

 
Por um breve momento,
senti como são alegres os sonhos.
São como aspirações simplificadas,
rebeldes na sua crueza e insistência.
Na alegria com que nos enchem as mentes,
levando-nos ao melhor de nós.
Sonhos, são escolhas individuais,
profundas, em estado original,
aspirando concretudes
com a alegria das coisas fáceis,
desconhecendo limites de tempo, e
de lugar. Imediatas!
Tristes, são os momentos mofados.
As certezas que nos impusemos pela vontade.
A obediência ao rigor necessário.
As concessões, em sorrisos brandos.
Os passos controlados, menores que os caminhos.
Os suspiros, quase silêncios, conformados.
As escolhas em que teimamos.
Tristes, são as noites vazias, automáticas,
sem contraponto, nos dias.
As linhas com que nos escrevemos,
com que erguemos nossas histórias,
desmentindo-se, noutros significados
das mesmas palavras.
Tristes, são os pés de barro, quebrados,
das estátuas que erigimos a deuses
que teimam em parecer indiferentes.
Contudo, nesse breve momento,
de sonhos alegres,
e de alegria nascida dos sonhos,
com tudo o mais banhado naquela luz dourada
nascida de dentro,
com todas as ânsias reticentes aplacadas,
sublimadas em projetos essenciais,
mesmo que vagos e indefinidos,
nesse momento senti que aprendia
a mais simples de todas as lições:
- que o mais importante, eu já sabia!
Que o sonho, era o caminho.
Que tudo o mais, vem depois.
Que quando o sonho já é tido,
O mais importante já está feito.
Que dar-lhe forma, ao sonho,
é só questão de jeito...
E que não se sonha pouco.
E que nunca, nunca, se sonha demais !

Setembro 2007
 
A MISTICA DOS SONHOS

NAVEGANDO

 
Hoje não, que o mundo é outro,
são outros os momentos,
e o chão, por baixo dos pés,
é firme como as rochas
que os barcos mais receiam,
nos baixios,
em atávicos temores...
Mas houve outros tempos,
em que caminhei sobre os mares,
e deixei pegadas de sal no convés,
em marcas que não eram caminhos.
Antes eram carinhos...
de outros amores,
feitos entre ondas e sentimentos
querendo despontar,
num tempo sem tempo,
por sobre o mar...,
enquanto sentia nas mãos o peso do vento,
caçado na vela,
e por cima do silêncio
um outro silêncio,
feito dos ruídos dela
gerando movimento...
(- gemidos em vozes de sisal,
mais altos, esticados,
e respostas mais graves da madeira,
vibrando, à sua maneira,
emoções em tom profundo,
falando o silêncio do mundo... )

Itapecerica, 16/6/2007
 
NAVEGANDO

MULTIPOLAR

 
São cheios de encantos, os meus dias.
Neles encontro
momentos mágicos,
em que me refaço de dores e canseiras
de que também gosto.
Neles escuto as vozes
que a vida sopra em sopro lento,
melodias, num espaço-tempo
criado equidistante.
Uma fala-me das coisas acontecendo
em quotidianos displicentes de mim,
onde só aconteço por puro acaso...
Outra, diz-me das vontades e dos sonhos,
em suaves palavras contidas
e formatos meigos
em róseos albores
- divinas cores
em telas de acalanto.
De mais uma
escuto vontades e lamentos,
esperanças e tormentos,
desejos trocados,
gemidos de amor, sussurrados,
carícias em gestos mansos,
olhares e meigos prantos...
E, de muitas outras,
de longe e perto,
me chegam recomendações
e cuidados,
murmúrios de paixões,
cheiros desmaiados
rosas-flores vagas,
erva-doce ao vento
em campo aberto...

De todas me componho.
Em todas me escuto,
como se num eco de vida.
E a todas transgrido
para me encontrar.
 
MULTIPOLAR

OS MESMOS PASSOS

 
Caminhei sempre perto
de outras verdades
tão fortes quanto a minha,
sem me ver nos seus espelhos,
nem escutar em seus conselhos
outras vozes,
insinuando-se na minha voz,
outras sombras na mesma luz,
recortando ao meu lado
os mesmos passos sós...

Caminhei altaneiro,
desatento
cavaleiro do vento,
romeiro
em graças de conquistas poucas,
amores raros em noites loucas,
borrões dourados
em verdes veredas
florindo acasos...

Itapecerica, Março 2007
 
OS MESMOS PASSOS

VOZES DO TEMPO

 
Perdemos a voz do mar,
em outras vozes mais urgentes.
São as vozes das gentes,
longe dos cais,
marulhando fainas em gestos antigos,
grandes redes tecidas em frágeis abrigos,
remos, mastros, cordames, brandais...
São as vozes dos anzóis adentrando carnes,
sangrando enganos,
iscas chamando morte.
São as vozes das redes mais ao norte,
mais distantes a cada dia,
as velhas proas em novas rotas,
os pés descalços nos conveses,
os mesmos gelados reveses
em dores de água fria,
sob gritos de gaivotas...

E perdemos a voz doce da Terra,
no meio de tantas outras, menos cantadas.
São as vozes feias, de motores tossindo
e máquinas indo e vindo,
aplanando terras rasgadas,
entranhas em riscas intermináveis
postas a nú, impensáveis,
e águas fundas, bombeadas,
não chuvas em milagres caindo,
não forças renovadas,
nem o futuro sorrindo...

( e talvez tenhamos já perdido
aquelas vozes cantando desafios
nos rítmicos gestos das ceifeiras
dobradas sob o calor,
lado a lado, nos trigais
onde o vento,
e talvez o tempo,
desenha ondas iguais
às do mar, em outra cor,
dizendo de mil outras maneiras,
em outras tramas, de outros fios,
que o presente é já corrido,
e, o futuro, apenas dor...)

7/5/2007
 
VOZES DO TEMPO

CHEGADA

 
Saio da escuridão para o jardim
aspirando ávidamente
a sabedoria do sol, lá fora.
Chego como se ambos me esperassem
de há muito tempo,
sentindo que o trio estava incompleto
e que, com a minha chegada,
chegaria a harmonia.
A cabeça, vazia,
sem pensar em nada.
O peito, repleto
de sentimento.
Chego como se ambos se completassem
ao ver-me,
plácidamente e apesar da demora,
chegar enfim...

21/3/2006
 
CHEGADA

SUBI A PÉ

 
Subi a pé,
desde lá, da velha escola, até casa,
relembrando passos de outros dias,
quando divagava e me perdia
tranquilamente, enquanto caminhava,
sobre estas mesmas pedras,
os passos protegidos da minha infância.
A subida, que um dia foi enorme,
acolheu-me suavemente,
questionando memórias
de implacáveis tardes de verão,
com cheiros de asfalto quente
e água morna num chafariz sem sombra,
que já ninguém usava...
Hoje, caminhando devagar,
divago mais ainda,
novamente abstraído,
deixando as velhas pedras
encaminharem os meus passos,
como sempre fiz.
Como sempre fizeram.
Como sempre faço...

Itapecerica,Minas Gerais, Brasil / Junho 2006
 
SUBI A PÉ

A TODOS OS MEUS AMIGOS

 
Conhecer-me através da minha poesia, é trilhar o caminho do tapete que eu quis vermelho, para recepcionar o mundo.

E, se ele for bonito, se-lo-á em atenção áqueles a quem quero acolher o melhor que me for possível - aqueles que resolvem, por minha mão, aceitar que as palavras se amassam com a alma e, juntas, formam o barro primário e especial que é a matéria-prima de artesanias muito superiores á da mera comunicação.

A esses, querendo conhecer-me dessa forma, em vez de um simples "obrigado", direi, á maneira da minha cidade natal, algo que considero muito mais expressivo: " bem hajam ! "

A todos, o meu abraço !
 
A TODOS OS MEUS AMIGOS

GRITO

 
Às vezes, apetece-me gritar ao espaço
um grito livre de todas as peias,
distante de todos os medos
e vazio de todas as angústias.
Um grito terrível, animal
e sem significado.
Um daqueles gritos
em que a alma se rasga ...
Um grito selvagem e livre,
como só um grito pode ser...

E no silêncio seguinte,
reconstruir as manhãs de sol
e os cheiros das coisas...
Tornar obrigatórios
os sabores pálidos das frutas raras,
e os perfumes das flores noturnas...
E descobrir em todos os dias seguintes
um amanhã diferente do meu amanhã de sempre...

( como se fosse o último grito,
o último amanhã,
ou a última vez ! )

Portugal, Sto Amaro de Oeiras/1987
 
GRITO

EM QUE FOLHAS ?

 
Já não sei em quais folhas escrevi
aqueles outros versos diferentes.
Aqueles que não falavam de amor,
nem de sentimentos,
mas de coisas em outros lugares,
de projetos e vontades
maiores que os meus dias,
e amanheceres em alegrias,
com cavalos correndo, sublimes,
de narinas fumegantes, cheirando a vida,
em pastos verdes, bufando liberdade...

Também já não sei em que folhas me dei conta
de como estavam diferentes,
os meus versos,
vazios do que eu queria,
cheios de outros significados,
como se me tivesse perdido
em caminhos que não eram meus,
onde as palavras me impusessem vontades
e formassem frases estranhas,
até um pouco indiferentes a mim,
como risos na alegria dos outros...

Mas sei em quais folhas deixei palavras
que testemunham o meu reencontro,
e leio-as numa quase-surpresa,
de todas as vezes que me leio,
como se encontrasse nelas, a cada nova vez,
numa quase simplicidade,
coisas que, somadas, são maiores que eu,
e que nem sequer me explicam,
apenas me complicam
em aparentes verdades,
que nem sei se o são...

Itapecerica, 11/6/2007
 
EM QUE FOLHAS ?

ÁS DEZ HORAS DA MANHÃ

 
Esta é a hora em que o sol escreve as sombras
que aumentam a nitidez das coisas,
e acresce contrastes e suaves relevos
ás planuras insidiosas da manhã.
Com isso, as flores destacam-se,
e crescem para um primeiro plano
como se fossem rostos nos jardins;
personalidades vincadas e exóticas
a desnudarem-se em verde-folha
nos deboches crus e exibicionistas
de um choque estético
inescapável.
É a hora dos grandes passeios lentos,
sem pressas, nem cuidados.
Dos passos erráticos sob a luz dourada
em divagações por praças e ruas,
e dos prazeres simples da memória
para quem se atreve a tê-la.
Nos prédios cheios de gravatas,
é a hora do banheiro redentor,
do cafezinho estratégico,
da olhada sob disfarce ao tirano opressor,
enfeitado de ponteiros gordos e lentos.
São dez horas da manhã.
E eu tentei, mas não pude,
ser poeta, ás dez horas da manhã.
Tentei, mas faltou-me ser possível escolher como destino,
tudo aquilo que apenas se cumpre pelo fado.
Faltou-me um confinamento que eu pudesse derrubar,
uma janela, por pequena que fosse, que pudesse abrir
com um gesto que ninguém soubesse que era segredo.
E um vento que viesse carregado de cheiros salgados,
e brilhos verdes que ondulassem prazeres ao meu olhar,
sempre tão carente de areias e grandes espaços.
Faltou um tempo, corrido entre quilômetros e cansaços,
que desse ao silêncio a oportunidade de ser voz.
Mesmo que baixinha, mesmo que fraquinha e nervosa,
mas que estivesse presente, que marcasse o dia,
que trouxesse, num contínuo sussurrar baixinho,
aquela pulsação primitiva, aos sentidos,
aquela energia vital e naïve com que, na vida,
se escreve em detalhes tudo o que a vida é.
Mas ás dez horas da manhã,
todos os dias, nessa hora perfeita
das dez horas da manhã,
num momento especial em que tudo pára,
eu quero ser poeta.
E, por um momento apenas,
nesse hiato fora do mundo,
só porque eu quero,
o poeta expõe-se e e vive,
tranqüiliza-me por estar ali,
e depois novamente se recolhe e adia,
e o momento passa,
e os ponteiros reiniciam o seu movimento,
e tudo fica como sempre, em espera.
Ás dez horas da manhã...
 
ÁS DEZ HORAS DA MANHÃ

ALMA

 
Encomendei á minha alma
um poema,
mas tudo o que me vai chegando
são apenas palavras-pássaros voando,
( planando em noções esparsas,
não em vôos de garças )
de uma poesia
menor que as sedes do meu dia,
remota e vaga,
( não fruto, mas apenas baga... )
e palavras fracas, confusas,
aspirações difusas
de sombras em becos
onde soam ecos
e vozes em suave agonia...
(não o poema que eu queria !)

Talvez o meu poema, afinal, não seja
essa coisa luminosa, benfazeja,
e chegue por entre as palavras e as vontades,
encolhido em vergonhas de novidades
e subtilezas de bodas só suas...
( como cânticos ao luar, de sereias nuas... )
 
ALMA

MULHER AMADA

 
Foram sonhos leves
que a medo ousei sonhar,
ao sonhar contigo.
Em ânsias de ternuras,
sonhei carícias maduras
de amor antigo,
quando te quis porto de abrigo
na inquietude do meu mar.
( quando te quis fogo, no meu lar,
e caminho do meu regresso,
- em beijos o sucesso
de cada olhar...)
E tudo o que esperei,
e mais do que ousei
esperar,
suavemente,
lentamente,
me deixaste ser,
ir ou ficar,
dia após dia,
e, em profunda bonomia,
sonhar novos lugares,
arfar em outros ares;
murmurar entredentes
o sentir de outras gentes,
e tocar bem fundo
esse outro mundo
que, por ser meu,
também é teu...
 
MULHER AMADA

TERNURA

 
Um dia, saí de casa pronto.
Caminhei mil dias, sem parar,
até que minhas roupas ficaram velhas,
e o meu corpo se cansou desse vagar.
Dos horizontes, trouxe memórias
que não posso dividir,
detalhes de passos cansados
em caminhos poeirentos,
onde amanheci em madrugadas frias,
com a esperança acrescentando
nuvens à minha respiração...
Usámo-nos mútuamente,
os dias e eu.
Eu, procurando neles o que queria,
essa ternura ausente do quotidiano comum,
essa doçura desnecessária,
sem a qual meramente se sobrevive.
E eles, os dias, encontrando em mim,
em brilhos escuros no olhar,
a centelha ingênua e brilhante da vontade,
a partícula única, doce, férrea,
capaz de os fazer mudar.
E mudaram, os dias.
Mudaram para melhor, suavizados.
Trouxeram-me pessoas boas,
com quem acertei minhas passadas
durante os trilhos que percorremos
buscando os mesmos nortes.
Algumas eram romeiras convictas,
já alimentando há muito tempo
o seu vício de caminhar,
já sem memórias das razões,
e das origens, dos primeiros passos.
Outros, como eu, mais fortes,
negociavam com os dias
as estratégias das suas passadas.
Mas os dias mudaram, sim,
E acabaram ficando mais doces.
E eu mudei, também.
Mas não regressei sobre os meus passos,
antes percorri sempre novos caminhos,
numa extremada curva, até chegar a mim.
Trouxe mãos calejadas, do meu cajado de peregrino,
e um jeito contido de estar inquieto.
Ganhei dureza,
nessa doçura que perdi para os dias,
e alguma habilidade para ver,
ainda antes de olhar.
Mas, todos os dias, quando acordo,
e espero que se cumpram suavemente
aqueles minutos que demoro até chegar a hoje,
sinto que valeu a pena
toda essa longa viagem,
todo esse tempo gasto,
procurando algo que não existe.
Que apenas se vai construindo...

Setembro 2007
 
TERNURA

PERCURSO

 
Corro junto com as águas vindas lá de trás,
da lonjura dos tempos, não de outro lugar.
Com elas, canto canções peregrinas,
vozes borbulhantes de quotidiano comum,
nas reviravoltas de um rio tão presente
como esquecido.
Corremos juntos, quando correr
supõe movimentos efervescentes,
espumas brancas
e rumores de seixos entrechocando-se.
E corremos juntos, também, quando somos
apenas uma lâmina verde, estática,
parada na passagem dos dias céleres.
Ou apenas um brilho de prata líquida,
estacionado em noites brilhantes de lua.
Juntos, deixamos para trás a indiferença do mundo,
prescindindo de tudo
o que não possa mudar...
Assim, corremos aliados
em perene testemunho de conciliação.
Elas, vindas de onde eu venho.
Eu, indo para onde elas vão.....

5/5/2007
 
PERCURSO

FIM DE DIA

 
Chego sem saber que aqui estavas,
cansado do meu dia,
sabendo-me descrente de tudo
o que não seja dormir.
Quando entro no quarto,
e um resto de sol coado em cortina
te revela derramada sobre a cama,
avermelhada, dourada,
renasço em outros humores,
mas com a certeza de estares dormindo.
Dou por mim imaginando banhos,
agitando martinis, acendendo velas
para um jantar de vinho e queijos,
à média luz.
Dou por mim pensando no que fazer,
enquanto me vou despindo
para te surpreender,
e te dar o despertar sacana, memorável,
que adormeceste esperando...
E tu ali, nua sobre a cama,
em total ignorância de mim
e do agito que matou o meu cansaço,
pareces-me subitamente frágil,
pequenina, mais garota travessa
que mulher ladina...
- quase inocente !
De seios esmagados contra o colchão,
ganhas novas curvas e relevos,
e as tuas nádegas, nessa posição,
sobre o lençol escuro e brilhante,
eternizam-se como numa pintura antiga,
e gritam-me aos sentidos.
Chego perto, ainda sacudindo um resto de roupa,
para um beijo quase casto, sobre os cabelos,
numa quase-esperança de que despertes,
e me poupes o remorso de te acordar.
Beijo-te suavemente, cheirando-te,
enquanto te viras e me olhas
por um momento, sem me veres,
já de regresso ao teu soninho gostoso.
E nesse olhar, que foi tão rápido,
brilharam estrelas escuras, só para mim,
prometendo prazeres e loucuras
que, o sono, apenas adiou.
No teu sono, ainda me aguardas
-sem saberes que já cheguei.
E que te amo, pelas promessas
que fizeste, sem saberes que fazias...

Itapecerica, Maio 2007
 
FIM DE DIA

HOJE MORO NA SAUDADE

 
Hoje, moro na saudade.
Naquela saudade especial,
com que os dias se tingem de dourado,
deixando para trás todas as dores
das horas tristes.
Moro na luz, por cima das colinas,
onde castelos contam histórias
de um outro momento,
em sussurros de ferro trazidos no vento,
de batalhas e sitiadas ameias...
Moro nos altos invernosos,
entre granitos escarpados e verdes esporádicos,
lá, onde os raios assinam nos paredões de pedra
as vontades de deuses mais antigos,
que alguém nos ensinou a ignorar,
mas que nunca aprendemos a esquecer.
Moro no calçamento dos caminhos,
onde resquícios matinais de neve suja
revelam pegadas de lobos
que emprestam perigos ao mundo,
como uma chaga que não fecha,
feita da memória de atávicos temores.
Moro nos sabores fortes das comidas,
E no calor que vem ás mesas,em garrafas rubis,
saídas dos fundos dos quintais,
que, em linguagens próprias de abastanças,
lá, onde misérias passadas já perderam os sinais,
enchem travessas de amor, tradição e esperanças...
Moro nas histórias intermináveis das minhas gentes,
contadas como se conversa fossem,
à volta das braseiras de carvão,
nas noites longas dessas pequenas casas de pedra,
testemunhas arcaicas de rudes traços
que a civilização não apaga, nem promove,
e nem consegue totalmente esquecer.
Moro no alto das falésias sobranceiras,
em vertigens nunca totalmente contidas,
sobre umas eternas águas esmeralda,
que nem o sangue dos que partiram,
em outros rumos consumidos,
deu conta de escurecer.
Hoje moro nas vozes dos poetas,
nos fados antigos das tão cantadas vielas,
e nos trinados doces das guitarras,
enquanto choram acordes de vãs eternidades,
em carinhos de voz aguda, cantando saudades
por entre os beijos surdos de uma viola,
que alguém dedilha em alguma janela...
Hoje, moro nessas vozes perpetuadas em atos de descoberta,
e escuto-me nos amores sempre tão cantados, de Pedro por Inês.
Perco-me, enquanto escrevo os caminhos da minha vez,
tendo nos lábios a poesia doce do que a vida me oferta,
e na alma, um ressoar baixo, de amor profundo,
que, em voz rouca, de vez em quando me diz
que Portugal ainda é o meu país,
e que tudo o mais, é só o mundo...

OUTUBRO, 2007
 
HOJE MORO NA SAUDADE