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Correr atrás do vento...

 
Correr atrás do vento...
 


Tem dias que acordo com a estranha sensação de que não sou deste lugar. A casa vazia, sem vida, evidencia objetos que me parecem tão fora do comum, que não os reconheço como meus. Os móveis se revelam gastos, sem brilho, as cortinas e estofados já não têm cheiro nem viço e os tapetes dão idéia de ocupar espaços e não de enfeitar o ambiente ou amortizar ruídos.

Nesses dias a paisagem que há muitos anos vislumbro do meu terraço, não a distingo mais exuberante como antes e, para dizer a verdade, não sei se a vejo porque os meus olhos podem enxergar ou se porque é impossível não divisar os edifícios que brotam como ervas daninhas bem adubadas, entre os antigos e ensolarados casarões, agora sombrios e desbotados, que eu, romanticamente, tanto gostava de admirar.

Até o ir e vir dos transeuntes, que me deixava curiosa tentando adivinhar o que lhes ia à alma, dá-me a impressão de pessoas apressadas, que andam de lá para cá, sem que eu consiga entender se conversam consigo mesmas ou se seus lábios se movimentam em rituais silenciosos, em preces, ou se dizem impropérios contra as calçadas mal conservadas e as ruas mal iluminadas.

Pior do que essa estranha sensação é a de me sentir invisível quando cumprimento alguém nos elevadores ou corredores do prédio onde moro. Respondem olhando o teto, o chão ou ajeitando-se ao espelho. Não se dão ao trabalho, sequer, de se voltarem para ver com quem falam. Só as crianças, meio tímidas, fazem perguntas. Há exceções, bom lembrar. Os porteiros e empregados, geralmente, sorriem com gentileza quando entro ou saio, mas sinto que não me vêem. Também não sei se os vejo, pois jamais sei se são novos ou antigos no emprego, posto que não consigo identificar o que os diferenciam, uma vez que todos têm o mesmo olhar entristecido e a velha desilusão no rosto marcado pelo cansaço.

Ponho-me a pensar por que tudo isso me causa desgosto se antes não me sentia assim e por que só agora o tempo se detém nos detalhes que eu não percebia. Por que, de repente, a vida perde o sentido da graça, dando-me a impressão de que tudo se repete com as horas, os dias e os anos.
Pergunto-me em quais momentos me perdi de mim ou será que são nesses estranhos momentos que me encontro?

Descartada a hipótese de alguma patologia, sobra certeza do vazio existencial, da intolerável rotina, a convicção de que mais da metade da vida é passado e que futuro é só uma esperança. Sobra a segurança plena que isto é envelhecer, ou seja, esse sentir-se estranho na própria casa e transparente para a família, vizinhos e muitos que se dizem amigos, como se fizéssemos parte da paisagem observada dia após dia.

Dizem que envelhecer é isso e que é melancólico porque, aos poucos, nos transformamos em alguém que muitos olham sem ver, que ouvem sem escutar, com quem conversam sem dialogar, que questionam sem querer respostas.

Envelhecer, então, é aceitar a rotina do tempo, o que os outros nos impõem, além do que já nos impõe a vida? E os sonhos que ainda sonhamos, onde os colocamos? Enterramos com os anos e as ilusões que já se foram? Ninguém deseja ser aquele “móvel velho” que é deixado para trás, colocado na porta como lixo, quando a família vai para novo endereço. Tampouco a “antiguidade” que é tratada com cuidado só pelo seu valor comercial. Figura de retórica à parte, importante é reagir, mudar, recomeçar! E não permitir, jamais, ser tratado como objeto fora de uso.

“O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos”, diz Airton Luiz Mendonça e continua “se repetirmos algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida”. Se ao envelhecermos a vida se transforma numa rotina sem fim e por isso perde a graça e os dias parecem menores, o segredo está em vivenciarmos coisas novas, aquelas que a mente vai parar e pensar. Os dias nos parecerão mais longos e cheios de novidades, a vida mais colorida e movimentada.

Salomão, do alto da sua sabedoria e filosofia de vida, nos dá explicações maravilhosas, claras e aceitáveis para esses questionamentos. Em seus livros de Provérbios e Eclesiastes, ele fala sobre a nossa finitude e sobre o tempo de todas as coisas: de nascer, de morrer, de rir, de chorar, de plantar, de colher, etc. e mesmo quando afirma que tudo é vaidade, é correr atrás do vento, ele não nos desencoraja, ao contrário, nos ensina a aproveitar as coisas boas da vida, mas aceitar a transitoriedade das mesmas.


por Elen de Moraes


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Enviado por Tópico
Sterea
Publicado: 20/09/2010 18:19  Atualizado: 20/09/2010 18:20
Colaborador
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 Re: Correr atrás do vento...
Minha querida Elen.
Eu poderia atravessar esta crónica-reflexão sem realmente a ver, poderia lê-la sem realmente lhe atravessar o sentido... mas não. Corri atrás dela, com a opacidade do vento e a transparência da matéria. Da minha matéria. É que o que você diz, das duas uma: ou é muito sábio, ou é primário reflexo de quem vive. Ou de quem é vivo já há anos bastantes para nos fazer sentir "desbotados". Sem cor, sem brilho, sem cheiro. É, deve ser isso envelhecer...
(mas...)

Bolas, nós não somos móveis, nem tapetes, nem vento sem fôlego! Somos gente, seres com uma capacidade incrível de reinvenção, de afeição! Sobram-nos sempre afectos, quer por pessoas, quer por coisas, tempos, causas! O importante é manter viva a chama dos afectos, do gosto pela vida! E enquanto ela gostar, nem que seja um pouquinho de nós, o suficiente para nos manter capazes de sorrir... ah, um viva! a nós!!!...


Muitos beijinhos para você...


Enviado por Tópico
Nanda
Publicado: 01/10/2010 21:56  Atualizado: 01/10/2010 21:56
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Localidade: Setúbal
Mensagens: 11186
 Re: Correr atrás do vento...
elen,
Gostei do que li, A nossa passagem por este mundo não é senão transitória e são muitas as vezes em que nos sentimos desajustados, como se tivessemos consciência de que este não é o nosso verdadeiro lar.
Beijinho
Nanda

Enviado por Tópico
NCosta
Publicado: 03/10/2010 23:42  Atualizado: 06/11/2010 14:32
Da casa!
Usuário desde: 17/05/2010
Localidade: Brasil
Mensagens: 232
 Re: Correr atrás do vento...
Envelhecer é tudo isso para alguns.Para outros ainda é pior!Falo daqueles que foram rejeitados pela própria família, que não contam com mais ninguém nesse mundo.A vida às vezes nos parece àspera e sem perfume,que nos incomoda com seus absurdos.As vezes, também, sinto-me assim, daí poder dizer que saber viver nunca deixou de ser uma arte.Parabens Elen, pela belíssima crônica.
beijos maninha!
Neila