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Com o devido respeito

 
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Com o devido respeito
 
Faz agora este mês de Agosto, dezasseis anos que eu sofri o maior embate da minha vida, a morte da minha mãe, na altura com 59 anos e uma saúde de ferro, malgrado o infortúnio de, naquele fatídico dia 16 de Agosto de 1996, estar no sítio errado, à hora errada, ou não teria sido atropelada por um BMW, de alta cilindrada, de um emigrante francês que, de férias em Portugal, queria fazer juz aos muitos cavalos do motor do seu automóvel e não cumpriu o sinal de trânsito que proíbia a circulação a mais de 40KM/h, naquele pedaço de estrada apertado, sem berma e em curva acentuada, seguida de contracurva.
Estes pensamentos povoavam a minha mente , no preciso momento em que me dirigia para a mesma capela mortuária onde havia estado o corpo da minha mãe. Desta vez, a minha amiga passava pela mesma dor, a perda da mãe, flagelada pelo desgaste da doença de alzeihmer.
À entrada da capela, deparei-me com a berlinda estacionada e entrei ao portão, cumprimentando de imediato um rosto familiar, o sócio do marido da minha amiga. Cá fora, já se ouvia o padre a proferir as exéquias. Entrei e como que em êxtase pelas lembranças que aquele lugar me devolvia, fui caminhando até ao ajuntamento que seguia, com fé, a referida prática religiosa, no preciso momento em que o padre e os presentes faziam o sinal da cruz e era encomendada aquela precisa alma a Deus e à Santa Igreja.
Compenetrada e ausente da realidade, como é meu apanágio, fiquei naquele ambiente de dor e emoção, ao mesmo tempo que me começei, por fim, a aperceber que os rostos do velório não me eram familiares, ou melhor, um deles até era e curiosamente alguém cujo marido até era colega de profissão do meu marido e do marido da minha amiga. Mas dela, que era filha da defunta, nem sinal. Entretanto, o tal rosto familiar cumprimentou-me com o olhar, ao qual eu correspondi de igual forma e lá me deixei ficar a acompanhar as palavras do padre que me remetiam para a enorme crença que devoto à teoria da reencarnação. Mais uma vez envolta em fé e fantasia divaguei por instantes e dei comigo a imaginar por onde andaria o espírito da minha mãe, por certo rodeado de flores e recebendo os recém-chegados com a abnegação de uma enfermeira dedicada, vocação que não viu cumprida no plano terreno, mas quem sabe não é esse o papel de que foi acometida num outro plano, já que a sua grande vontade, sempre foi servir o próximo.
De repente, começo a apreceber-me que as pessoas se viravam, uma após a outra, para trás, como que a tentar perceber quem eu era e o que ali estaria a fazer, assim tão embrenhada em orações e com ar tão complacente. Senti-me observada e deslocada e para tirar as dúvidas também eu resolvi olhar para trás para comprovar se era para mim que toda a gente olhava. Nesse preciso momento, reparei que encostado ao meu braço esquerdo jazia um outro corpo, cuja foto colocada na parte traseira do caixão era efetivamente a da mãe da minha amiga. Bem atrás de mim, também, sem me ter ainda reconhecido, estava a minha amiga, lavada em lágrimas, junto da mãe.
Apressei-me a abraçá-la e a confortá-la, afinal fora para isso que lá fora. Ela perguntou-me se o corpo junto ao altar era de algum familiar meu e eu respondi-lhe que fora tudo um “mal entendido” e que eu estava ali, justamente, para lhe dar os meus sentimentos, pois era conhecedora como ninguém da dor que ela estava sentindo.
Mesmo nos piores momentos, vale-me a capacidade que tenho para rir de mim própria e da propensão que eu tenho para meter os pés pelas mãos. Não sei se é coisa de nativa de peixes ou de poeta.
Com o devido respeito pela dor alheia, que Deus me perdoe...



Maria Fernanda Reis Esteves
52 anos
natural: Setúbal
 
Autor
Nanda
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 04/08/2012 15:29  Atualizado: 04/08/2012 15:29
 Re: Com o devido respeito
o passamento abrupto de uma pessoa causado seja por qual meio for, choca-nos. junto vem a indignação pela impunidade e ou a pequena pena que o causador de tão grande perda terá. a distração relatada aqui nada mais é que o trauma que se tem de certas peças que o destino nos prega repentinamente. há casos que a lágrima e o pranto só vem tempos depois... neste sábado ensolarado de inverno me deu uma tristeza aqui.
bj mana e meu abraço bem caRIOca.
zésilveira

Enviado por Tópico
TRIGO
Publicado: 04/08/2012 16:44  Atualizado: 04/08/2012 16:44
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Usuário desde: 26/01/2009
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Mensagens: 2299
 Re: Com o devido respeito
...
Nanda

as flores saberão, como ninguém, olhar pela sua alma

um beijo para ti

Enviado por Tópico
(re)velata
Publicado: 04/08/2012 20:09  Atualizado: 04/08/2012 20:09
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Usuário desde: 23/02/2009
Localidade: Lagos
Mensagens: 2181
 Re: Com o devido respeito
Assim é quem tem a capacidade de ter tanta empatia com o outro que se funde nas mesmas emoções, na mesma dor. Decerto que Deus estará feliz com isso
Gostei muito de a ler, Nanda.
Beijinho, RE

Enviado por Tópico
gil de olive
Publicado: 04/08/2012 21:25  Atualizado: 04/08/2012 21:25
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Mensagens: 5046
 Re: Com o devido respeito
Um texto com um tema muito triste!POrem muito bem montado!Deve te custado lágrimas ao escrever...

Enviado por Tópico
Transversal
Publicado: 04/08/2012 22:05  Atualizado: 04/08/2012 22:05
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Usuário desde: 02/01/2011
Localidade: Fortaleza - Lisboa
Mensagens: 3687
 Re: Com o devido respeito
"Não sei se é coisa de nativa de peixes ou de poeta"

Como pertencente ao signo "Com o devido respeito pela dor alheia", digo-te, os deuses por vezes também se esquecem mas querem sempre os melhores por perto.

Parabéns Nanda. Obrigado.

Abraço-te

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 04/08/2012 23:50  Atualizado: 04/08/2012 23:50
 Re: Com o devido respeito
Um texto cheio de emoção Nanda do início ao fim.
Parabéns pelo forma como relataste os acontecimentos.
Abraços
Luzia

Enviado por Tópico
varenka
Publicado: 05/08/2012 00:26  Atualizado: 05/08/2012 00:26
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Usuário desde: 10/12/2009
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Mensagens: 4211
 Re: Com o devido respeito
Um texto repleto de dor e emoção.Bjs

Enviado por Tópico
carolcarolina
Publicado: 05/08/2012 21:06  Atualizado: 05/08/2012 21:06
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Usuário desde: 24/01/2010
Localidade: RS/Brasil
Mensagens: 9297
 Re: Com o devido respeito
Amiga Poetisa
Nanda

Um texto muito bem elaborado com certeza e que trouxe um pouco da sua vida ao relatar o acontecido com a sua mãezinha.
Quanto a meter os pés pelas mãos, eu acho que é característica de peixes,ao menos eu sou assim rsrsrs
Bjinhos
Carol

Enviado por Tópico
Vania Lopez
Publicado: 06/08/2012 03:52  Atualizado: 06/08/2012 03:52
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Usuário desde: 25/01/2009
Localidade: Pouso Alegre - MG
Mensagens: 17658
 Re: Com o devido respeito
É mal de nativa de peixes...
Querida, com o devido respeito esse texto
mexeu profundamente comigo, lembrei-me de quando
voltei do enterro de minha mãe, tão só e desolada.
Quase chegando à porta ouvi meu nome: Vania Maria,
na voz dela. Isso me salvou até hoje e me dá colo.
Ah, como dizer obrigada? bjs

Enviado por Tópico
FalcãoSR
Publicado: 07/08/2012 07:22  Atualizado: 07/08/2012 07:22
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Usuário desde: 30/06/2006
Localidade: Rio de Janeiro
Mensagens: 2785
 Re: Com o devido respeito
Maria,

Deus também levou minha saudosa mãe para ele habitar, resta-me o consolo de saber que só perdemos o que não sabemos onde está e sei que ela está ocupando no céu o lugar que sempre fez porf merecer.


Beijo solidário

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 17/08/2012 00:21  Atualizado: 17/08/2012 00:21
 Re: Com o devido respeito
Nanda, tens a capacidade de escrever bem sobre qualquer tema. Seu texto me faz lembrar de muitos velórios e suas histórias de dor, e até mesmo de comédia. É que a vida não pára, e tudo se mistura, dando a medida quase exata do que somos, tragicômicos.
Rituais de enterro também me remetem à força da vida espiritual, e na teoria da reencarnação. Uma vinda apenas é pouco para espíritos milenares que somos.
Adorei seu texto.

Bjs.

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 18/08/2012 05:00  Atualizado: 18/08/2012 05:00
 Re: Com o devido respeito
Meu pai também se foi no mês de agosto há quinze anos, e a saudade ainda machuca...
Creio que a emoção faz com que cometamos uma gafe ou outra, e nem precisa ser de peixes!
Gostei de ler tua crônica.