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Contos : 

João Barbudo - Caipirês -

 
Jão Barbudo... Sorterão. Miseráve feito ele só; Num rapava barba pa -num sê pricisivo infiá mão nu-borso. Viveu a vida toda suzin sem carquér burricimento tratano de porco no cocho e galinha no terrêro - inté cumpretá idade pa –incasalá; Quarenta e seis ano. Mais paricia ter sessenta; Munto acabado. Tarveiz pur carsa da barba qui tapava a cara. O qui tinha de tamãe tinha de bubiça tamém; Sujeitin sonso, mai –bão principarmente no trato - num vortava atrais fáci não; Veíaco iguale cuei num era de tomá manta ni –negoço - só levava vantage.
Um dia Jão resorveu casá. A pritindida pa- sê sua cumpanhêra, coitado - pur -azá buscô na rua, on-tinha mémo com fartura, mais tudo discabiciada. E num- é qui marrô a lata numa mucinha isprivitadinha! O qui feiz seu sonho de pissuí muié virá um pesadêlo doido. Muiezinha bunitinha... mais pa-frente e tagarela, do zói cumprido e miúdo com idade bem menas qui a dele; Num delatô isquentá suas -idéia. Gostava de orde não. Uma má vontade terríve e danada na priguiça; Ranhenta mémo e már criaaada. Boa no coice, na resposta - ah, si era... afiadinha inté vará lá na frente. Iguarzin uma cabritinha nova vivia sartano prus canto do terrêro, e se topasse tronquêra aberta rumava na dereção du camim dano pinoti pá -oiá usôtro passá na istrada.
Jão tentô adestrá essa bichinha ali mémo pru perto de casa, mai- sem custume cum muié num deu conta du recado. Cond’ela tava de régra antão, êquais murria.
Pra num judiá dela dimais e honrá o nome tamém, foi atrais de ajuda.
O premêro que vêio na mente foi o Santo Padre, e lá si foi.
Chegô na matriz na buquinha da noite, inhantis di cumessa a réza... mei-qui-acanhado tirô o chapéu e foi iscapulino dileve inté qui varô on –quiria - nu cunfissionaro. Dispois di pidi perdão pa -tudo inconto é santo, virô pru Padre e falô ansim: Na verdade sô Padre eu vim aqui cassá ajuda, um conseio, inhantis qu’eu cometo um pecado mais grande com a muié... um assassinato. Eu sei qui o sinhô tamém nunca mexeu com muié, mas já qui o sinhô é santo, aquirdito qui vai mi-dá uma mãozinha.
O Padre dispois de iscuitá carmamente sua luita, cumpadicido, mais sem munto ter o qui fazê, vai logo dano sua saída: Oia Jão, seu caso rearmente num é dus mais fáci e vai ixigi docê sacrifício. Minha receita aqui é pinitença! - Sê vai ter qui pagar pinitença Jão.
Ôooh meu deuso... mais sufrimento pra mim, sô Padre!?
Pode ir falano antão sô Padre, num remenda não - si é queu sô devedor dexa eu pagá.
- Cê vai rezá pra mim Jão durante 40 dia o terço e o padre nosso, e junto pa -acumpanhá canta a sarve rainha... isso de madrugada pa –valê; Faiz jijum d’água e cumida inhatis do mei-dia, e no finár dos 40 dia intrega a promessa no pé do cruzerô - lá no arto da Penha.
Jão barbudo garrô e saiu de finin da barra da batina do padre, bem disanimado... e prôpois ni -igreja ninhuma mais precurar ajuda - nem nas dus crente.
Imbrafustado, passo lairgo e balangano a cabeça foi ino rua afora... na mente acabô apelano pra tudo inconto é trem ruim e condo deu pur si tava dentro dum salão de pemba, diante dum pai de santo; Um antigo pembêro da rua do canto, medonha pra disatar nóle.
Chegô e topô o preto-véio sentado num tamburetin de cabeça baxa com um cigarrin na ponta do beice quais caino a borra da guimba no chão. Ficô mei qui-amendrontado de iniciá a prosa, antão o feiticêro já foi logo principiano: - É a sua dona qui te feiz vim aqui, né!?
Oia só... cumigo é nu dispaxo. Nóis pó dá jeito nela, sim! E te agaranto, ela num vai guentá a pressão - ela num reseste não meu fio.
Priciso de uma galinha prieta; Sete vela vremêia; Uma garrafa de cachaça, e um móizin pôco da mexa du cabelo dela; O resto é comigo. Com sete dia ninguém mais acha rasto dela, nem nutiça aparece. - Pó trazê os ricurso meufii... - e passa bem!
Cond’ele deu as costa este véio distampô numa risaiada dus inferno e num parava mais, balangano os braços e perna... coisa de bruxo mémo, de indemuniado.
Jão barbudo qui tava com vontade de tratá cum a muié, mai -num tinha o coração ruim, dusisperado ca- aquilo, cum a mardade incapetada que saínha du ventre du preto véio, saiu correno nem oiá pa-trais qui-oiava; Foi vará na casa dele ca- boca aberta e parmo de língua de fora. Condo bateu o zói na mueizinha qui nessas artura já drumia feito uma pombinha mansa abraçadinha com zói pelado, seu inseparáve cachurrin vira-lata - dispencô chorá com pena dela; Lembrano do preto-véio e do dispaxo. Cansado da labuita, foi ino, inté qui caiu numa madorna ali mémo inriba do banquin duro da sala.
Madrugada assombrosa de relampo cortano pa -toda banda. Jão Barbudo insonho recebe a visita dum troço amarrado num lençór branco qui num sabia se era gente, fantasma, ó carquér isprito... mai gente num paricia! - E nu princípi da prosa parecia inté qui inha ajudá.
Cumeça ca- orientação:
Veste ela dereitin Jão... dá pr’ela rôpa e carçado novo;
Dá salão de beleza duas veiz pru semana e prefume dus bão... pode sê avanço não!
Lev’ela pa – passiár inlugá deferente - viaja diveiz incondo quéla; Muié gosta munto de viajá.
Festa de aniversáro - convida os amigo dela tudo.
Num isquece qui inziste dia dus namorado e natale, páscoa, dia das muié... prestenção nas data Jão.
No dia das mãe dexa ela prisintiá a sogrinha... sê vai vê ela rino a toa.
O qui muié apreceia munto tamém é carro novo - compra um proce vê.
Abre uma conta nu banco pr’ela e pãe dinhêro - dêxa ela gastá a vontade... Muié gosta disso. E, isso num é barda não Jão, é coisa de muié. Ansim meu amigo, só ansim sê vai ter paiz quéla.
Jão Barbudo antão cumecô correr... Corre daqui, corre dali e o sujeito gritano arto ispichado atrais mandano ele parar; Conto mais ele curria mais o sujeito falava, e... oncê vai Jão? - vorta aqui Jão... Jão, Jão - Jão, esperaí Jão. Num faiz isso não Jão... num faiz não Jão... Num pula não Jão, num pula não. E Jão Barbudo pulô do dispenhandêro num pricipicio doido...af... e caiu lá imbaxo - ba-du-banquim - condo acordô moiadinzin pa -sua aligria, cum fragelo da porca e doze leitãozin roncano na porta da cuzinha quereno mio.
A muié, inha só isperá dá mei-dia pa-chamá, pa-acordá ela e devorvê pru seu pai.

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Autor
Mandruvachá
 
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