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Textos : 

Vivendo & Escrevendo - XV

 
MINHAS CUNHADAS tecem comentários sobre nós, sempre assim falando mal de seus companheiros e por tabela entro no meio da historia; - São tudo safado e tarado, Pastor, Padre tudo da mesma laia - explode minha cunhada. No terraço para tomar u banho de sol e refrescar-me depois de hesitar um pouco se saia ou não.. Retorno ao meu aconchegante aposento frio e lúgubre que outrora dividia com Mama Grande nos seus últimos dias. Depois de uma hora de banho de sol recolhi-me para deitar e repousar um pouco. Continuamos sem sinal da Internet, continuou sem vontade de digitar alguma coisa, numa luta intestina contra os meus desejos - o lamento de ser prisioneiro sem cela nesse mesmo cotidiano enjoado e repetitivo. Seu Pietro deitado tranquilamente na cama do casal sem nenhum constrangimento, pois os mesmos gostam muito dele. Vou ler uma revista Tex do italiano G.L. Bonneli. que fez parte da minha adolescência tardia - aos dezoito anos ainda estudava na oitava serie, quando a maioria da minha idade já faziam vestibular, apesar de não ser retardado. Para aumentar a autoestima, leio "O Grande Caderno Azul" eu penso em digita-lo brevemente. Mas como me conheço e sei que depois posso ter um ataque e abandona-lo no meio. Por que matar a cabeça quando tudo esta escrito bem ou mal estão escrito prontos para serem transformados em livros. - "Daniel com esse abuso de lavar o carro dele, acabou com o meu sabão - reclama minha cunhada na beira da pia. Se eu digitar todo o caderno, dará quase umas duzentas paginas, um bom exemplar. Professor chega do colégio, os cães ladram em sua honra. Seu Pietro, o factótum deitado na cama se levanta. Vendo um documentário "Os Homens da Montanha" interessante ver o dia-a-dia desses homens isolados na vida selvagem . Uma canção do final dos anos 70. Lendo Rushdie no terraço, amenidade de um final de tarde. O odor forte das urinas dos gatos. A busca da perfeição, há momento que quero digitar o Grande Caderno Azul deixando de lado "Eu, tuberculoso" assim com fiz com "Notas de uma Prisão Federal de Segurança Máxima. Muito complicado desde o começo da minha existência, tinha tudo para dar certo, mas a partir daquela idiota decisão de não ir mais a escola aos doze anos, mudou todo o meu destino, naquele momento não dei a mínima atenção - realmente hoje aos cinquenta e três anos não consigo entender qual foi o motivo que levou-me a fazer aquela estupidez e carrego até hoje. Talvez se não esse episódio, não estava escrevendo e nem sentado vivendo essa insignificante vida e sendo alvo das zombarias - não pensei nas consequências futuras que me arrastaria para a vida toda. Arrependo-me tarde demais e agora é seguir em frente sem olhar para trás. Os Correias, vizinhos tradicionais da baixada de São João batista e do mercado discutem entre si sobre futebol. Seu Pietro com seu quase um metro e oitenta e quase noventa quilos sai para namorar.

O PROBLEMA AGORA é a garganta ou alguma complicação referente a minha doença. Sinto o corpo febril. Volto a escarrar - ontem foi o enterro de Betinho, um senhor de estrutura franzina que morou num tempo na esquina do beco do Portinho com a travessa da Lapa, onde tinha um comercio misto que negociava camarão fresco. Karl o chamava Beto Douglas, meio careca, com o rosto chupado e sempre irônico. A viúva ainda nova e bela, passei algumas tardes proseando com a mesma na ausência dele, enquanto bebia cerveja fiada que nunca paguei. Naquela época, oficina era no Beco das Picas, debaixo do prédio de Dona Minaidi, irmã do grande Pai Felipe, o proprietário da famosa Vacaria antro de ladrões, traficantes e viciados que teve sua fase áurea nos anos 70. Compre muita diamba nas mãos de seus filhos adotivos Isaías e Luis Adauto, ambos com passagem pela Penitenciaria de Pedrinha. Lá também ocorreu por volta de 1975 um homicídio que chocou a sociedade, a morte trágica do advogado Belo de família tradicional de causídicos vitima de uma certeira facada no coração desferida pelo batedor de carteira Felisberto por ciúme de sua jovem amante Rosinha, que estuda num colégio tradicional e morava no conjunto Maranhão Novo recém-construído. Comparava mestre Felipe com o judeu Fange do romance de Dickens "Oliver Twist" - segundo diziam era pederasta que adotava os moleques em troca de favores sexuais. O corpo febril e dolorido. Uma volta no mercado, deixei a revista "mundo estranho" no Seu Raposo para seu filhote. Os papudinhos bebendo a cachacinha deles, uma panela enegrecida pela fumaça da madeira borbulhava com um caldo amarelado. Sr. K estava sentado na calçada defronte a sua lojinha, no meio das tralhas de Seu Manoel do Fogão. A garganta e o pigarro chato, assim com sentia desde o começo do ano e nem desconfiava que estava com tuberculoso. O nariz entupido, as vezes espirro e escarro. Terminei de ler o romance de Rushdie e retorno a leitura de Vonnegut. Enfim encerro este e repenso no que sou e para onde vou. Apesar das circunstâncias atuais serem desfavoráveis aos meus intentos, presumo que devo me resguardar até realizar um de meus sonhos. E um deles é tão simples, apenas comprar os exemplares dos meus quatro livros publicados; "Além das Névoas Azuis", "Enquanto escrevo", "Crônica de uma Tuberculose Anunciada" e "Antologia Poética" que tenho a honra de vê-los na tela do computador exposto no site da editora - ao contrario de "Le Cahier Rouge du Pere Joseph" publicado ano passado no outro lado do Atlântico no país base da literatura, a sublime França vendido em euros, com um exemplar na majestosa Bibliotheque Nationale Françaises, que a muito custo comprei em duas prestações pelo vale postal ao preço exorbitante de quase cento e oitenta reais. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Encerro pela terceira vez a releitura de "Ilusões Perdidas" do mestre Balzac. O meu nariz esquerdo entupido.



 
Autor
r.n.rodrigues
 
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