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O grande caderno azul - XXX

 


XXX

Segunda-feira, 03 de fevereiro de 2014

Bonjour, ma vie! Comment ça va?

O velho Vecchio apressado do outro lado da estreita avenida com seu passo capenga e meio desconfiado. Jack esperava o coletivo na esquina da Rua 19 com avenida, com uma mochila nas costas. Parei um pouco e conversamos um pouco sobre literatura. Perguntei-lhe se já havia iniciado a viagem ao maravilhoso mundo balzaquiano, respondeu-me meio sem graça que não. Acordei com minha cunhada chamado Larissa para passar o café. Levantei-me ainda enroscado no fenda lençol rasgado e abri uma banda da janela. Uma das gatas de minha cunhada em observava deitada do mureta do terraço. Apanhei a toalha e dirigi-me para a casa de banhos. Deu uma boa "barricada",abri a torneira do chuveiro e um jorro de agua fria cobriu-me de frio, ensaboei-me com um sabonete Phebo (o meu preferido). Minutos depois de enxaguar-me voltei para os meus aposentos para enxugar-me e vesti a minha farda de trabalho. Abri a porta do terraço com cuidado, do outro lado em frente a casa do Policia Militara alguns funcionários da escolinha da esposa dele abrigavam-se da garoa que caia poeticamente na rua lembrando-me da neve dos livros de Miller, de Tolstói e Parmuk. Mas era apenas uns orvalhos matinais. As mães levando os seus pequenos filhos para as escolas apressadas , as pessoas ainda sonolentas nas paradas de ônibus impacientes com o atraso dos mesmos. Tenho que buscar meu próprio estilo; Henry Miller é meu orientador, assim como os outros Cervantes, Balzac e Dostoiévski - cada um no seu modo peculiar de narrar uma boa historia. A loura da Farmácia circunspecta e seria com o celular no ouvido. O sapateiro Oswaldo vindo da casa da namorada, o folclórico vendedor de manga, filho do município de São João Batista, contador de causos com seus pequenos cofos cheios de mangas no pau de carga no ombro esquerdo e um facão patacho na mão direita, desta vez não parou para um dedo de prosa. Lembrei-me de Guimarães Rosas "Sagarana" que desapareceu da estante, que de vez enquanto relia alguns de seus belos contos. Mozaniel, meu vizinho e colega da rua 23 apressado como de habito trouxe-me café au lait e um litro pet cheio de agua gelada e disse-me que queria para mim fazer uma solda numa barraca que ele negociara ontem e esta na calçada em frente ao terreno de Seu Carrinho Cotia. Mas fui enfático e ríspido respondi-lhe que não havia condição de faze-lo..
08:45 - Soldei o suporte de uma carro de mão para o Sr. Rubão, gerente aposentado do Armazém Paraíba e ganhei meus primeiro dez reais. Um bom começo de semana. O sol apareceu meio tímido enchendo de luz a avenida . Um ventinho fresco, o canto canoro dos passarinhos. Um ônibus lotado. Uma moto. Uma senhora de bermuda falando ao celular. A irmãzinha baixinha oferecendo os tabloides poupares de 50 cents. Um funcionário da Caema com uma prancheta não mão procurando por Dona Maria das Graças, meu coração gela. Um rapaz moreno em pé ma porta da Loja de Fragrâncias. Pensando em algumas cenas de "Crazy Cock", quando Toni e suas companheiras vão passar o dia de natal na casa dos pais dele no Brooklyn. O pai de Henry era alfaiate, o meu era ferreiro depois comerciante e por fim aposentado. Nunca tivemos luxo, o nosso foyer atrás do grande comercio de material de construção era bem simples. Na sala de visita apenas uma tv daquelas gigantescas de madeira com os pés rosqueados e a válvula, o móvel da radiola, de um lado a eletrola e do outro o rádio também a válvula. Uma cadeira de balanço,um sofá de duas peças, um corredor que levava direto a pequena cozinha que dava acesso a sala de jantar. O quarto das Velhas onde dormiam as minhas duas avós. - a estreita escada do sótão onde dormíamos,o quarto de do casal e suas redes. O sótão assoalhado era outro mundo a parte. Na frente em cima do comercio servia deposito para as caixas vazias e para algumas mercadorias. Na outra extremidade que dava para o quintal sobre o quarto do casal era os aposentos de professor e de minha cunhada.. Em cima do comercio ao lado das caixas ficava o quarto do meu irmão Roberto,onde nas madrugadas de sábados ao som dos rocks psicodélicos de Pink Floyd e Led Zeppelin fumávamos uns baseados e cheirávamos cola de sapateiro que surrupiávamos do comercio. E no meio ficava a terra de ninguém com suas janelas gradeadas de madeira da época da oficina que davam para o corredor e o pátio de estacionamento da Cibrazem, onde ficava o meu canto, a cama de armação de ferro que eu mesmo fiz, meu armário dos livros e cadernos e o sofá cor jerimum onde eu passava as noites lendo os romances, as redes dos convidados..
Uma senhora bem simpática,inquilina ads quitinetes do Condomínio de Seu Alcides vem falar para mim fazer e soldar um ferrolho no portão do quarto dela que quebrou. Infelizmente disse-lhe que não e indiquei-lhe outro colega profissional da Praça das Sete Palmeiras, o mestre dos mestre Preguinho que me chamou de preguiçoso. Senti muito, mas as minhas forças estão exauridas para realizar essas proezas, já as executei muito e me degasta muito fisicamente.
10:30 - Os pixixitinhos contentes e estressados vem do jardim de infância. Seu Toinho,um piauiense de Campo Maior,um pouco ébrio e conversador conta-me as suas aventuras, é proprietário de um prédio em frente ao mercado, onde o comandante La Sierra tem seu estabelecimento comercial. Nazario, o empresario civil veio-me chamara para acompanha-lo até a sua residência na rua 23 para ver um trabalho, adaptar uns portões.Examinei-os e dei o meu preço. Janaína, a bela passa para ir apanhar o seu filhote na escola. Um rapazote fogoió de bicicleta veio encomendar uma caixa adaptada para soldara no guidon de sua bike, interrompendo a minha agradavel leitura de Miller. Mandei as favas.

Começo da tarde
13:30 - A barriga cheia - linguiça, arroz, feijão uma diminuta porção de torta de frango de ontem, Como diria minha querida Mama Grande "Estou cansada de não fazer nada" - A rapaziada do álcool estava na praça e quiseram me ferrar um real para inteirar uma garrafa, que neguei, não tinha trocado. Depois me arrependi , mas era tarde demais, Vou deitar no sofá.

Noite
19:15 - feliz como pinto na bosta leio os dois capítulos que mandei imprimir para me sentir um escritor. Amanhã talvez eu termine de digitar o sonhado romance.
21:10 - Acho que estou diabético, é uma fome constante por mais que eu me alimente, há sempre uma fomizinha chata corroendo. O grande Miller escreveu "Tropico de Câncer" aos 45 anos - Cervantes escreveu "Dom Quixote" aos 50 e pouco - estou na luta, apesar que escrevi esse romance que em 95,mas publicarei este ano com ajuda de Deus e de mim mesmo. Fico contente ao ver a capa da revista Veja que meu irmão é assinante com a seguinte manchete "O Homem que venceu a Maquina" - "Como o diretor José Padilha de "Tropa de Elite" dobrou Hollywood e fez de RoboCop um "filme brasileiro" - de 140 milhões de dólares - bacana. - Sintonizo num canal de musica clássica - acredito que seja Chopin por Arthur Moreira Lima, grande pianista chopiniano.
22:30 - O ronco de Professor ecoa por toda a casa, assim com os latidos dos cães que vem da rua, o fedor de urina que exala do meu calção assim como da merda de um gato. Larissa apaga a lâmpada da sala do computador. As muriçocas não me deixam em paz. Confesso que feliz ao ver as folhas impressas, saírem da impressora, deu-me mais incentivo para continuar, vou imprimi-lo aos poucos. Manuseie as dez folhas impressas e maravilhada. Deus há de me ajudar a realizar esse sonho basta ficar longe da maldita bebida.O exemplo, posso afirmar que hoje foi uma segunda-feira positiva. assistindo "Bonie Y Cleide".
23:15 - Desliguei a televisão, urinei, coloquei o plástico sobre o sofá onde deito para ler e assistir tv, para os gatos não urinarem nele. Os bichanos perambulam pela casa aprontando as suas estripulias.
- Eu vou te dar Chambinho. Quero que tu derrube isso ai - Esbraveja a minha iracunda cunhada deitada para sua atentada cadela que dorme perto dela debaixo da cama.
Obrigado Senhor por esse dia maravilhoso. Je vais coucher.

 
Autor
r.n.rodrigues
 
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Enviado por Tópico
samisee
Publicado: 30/03/2016 00:21  Atualizado: 30/03/2016 00:22
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 Re: O grande caderno azul - XXX
Suas descritivas das horas que passam são enternecedoras... Lembra minha vida tão cheia de lutas, solidões,aqui e ali uma pequena alegria, como o privilégio de ler e escrever poesias e o que mais saltar no coração e rolar pelos dedos.

Agradeço Raimundo, ler seus escritos é um aprendizado e uma constante surpresa.