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Poemas : 

coisas de cais e outros quintais

 
coisas de cais e outros quintais
 
um corte no coração solta ancora esquecida
resistente na ferrugem
e na esperança engatada
a argola de ligação nos quilômetros
do tempo foi rompida

todas as margens que
acolheram tiveram braços de partidas
de sentir água nos pés,
e o coração, a maresia
maré baixa maré cheia
o peito sempre molhado como tábua
de convés
sem nunca fazer parte
do veleiro assoprado
nos olhos a tela do cais
traços tem borrados

porto que é porto vive de agitação
inconsciente de que tábua à tábua
imprime-se solidão
se no ar um vento chora
com o alto balanço da mão





 
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Amanayara
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Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 27/08/2016 09:44  Atualizado: 27/08/2016 09:44
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 309
 Re: coisas de cais e outros quintais
“um corte no coração solta a âncora” que nos ampara das quedas… uma âncora “resistente” à “ferrugem” que se encontra abraçada/engatada à “esperança”.
Solta-se a âncora e, com ela, a esperança e a nossa ligação com o tempo:

“a argola de ligação nos quilómetros
do tempo foi rompida”


“todas as margens que/acolheram” as âncoras assistiram a estes “braços de partidas”
Primeiro, sente-se a “água nos pés”, “a maresia” e os movimentos constantes (“maré baixa maré cheia”) e depois o “peito” fica “molhado como tábua/de convés” - assim permanecendo.
Com tanta onda e movimento, “a tela do cais/tem traços borrados”… talvez da espuma das ondas, talvez do incógnito que sempre traz uma partida, talvez do céu enevoado.
Mas “porto que é porto vive de agitação”, sem que tenha consciência que “tábua à tábua” “imprime-se solidão”… porque os barcos que partem perdem os seus braços e tudo treme e balança enquanto o “corte no coração” não sara e o tempo não for, por fim, refeito.

Um poema-paisagem. Uma paisagem-metáfora.
Gosto.