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Tuberculose -IV

 
XXIV

Eu custei a acordar, dormi pesado despertando quase as sete horas - uns sonhos surreais, misturados ao livro que atualmente leio. O cheiro forte das fezes dos gatos - a cunhada passando o pano na cozinha. Seu Pietro contente aprontando-se para mais ujm dia de trabalho no comitê eleitoral do Governador. Sonolento, levantei-me e mecanicamente abri as folhas da janela, depois apanhei meus utensílios e os levei para escalda-los no quintal, porém ao coloca-los sobre o fogão, a minha cunhada fez uma cena, enquanto eu abria a porta do fundo:
- Não coloca isso ai. - Gritou com o esfregão na mão. Imediatamente peguei-os e os levei para o quintal. Passei por baixo da caixa d'agua, onde um dos pés foi carcomido pelos cupins e os deixei sobre a antiga pedra de lavar, voltei - os cães estavam em cima de uma mesa encostada na parede - enchi o papeiro com a agua da torneira da pia e acendi o fogo no fogão e o coloquei em cima. Depois do banho e de se espremer os músculos anais doeu, tomei um café simples com pão sem manteiga, mas antes botei a caixa de areia numa sacola e o depositei na calçada encostada no muro do terraço. Botei outra menor no lugar próximo a cama.

Amanhã caminhava lentamente, a sombra cobria a parte da frente da fachada. A leitura prazerosa do que achava tediosa sobre a historia de filosofia. Na cozinha, a voz metálica da Tia Fleur contando as novidades, enaltecendo as qualidades do filho. Ela se despediu e tia Redonda chegou. Uma pausa na leitura para respirar um pouco, refletir também e adaptar-se a minha caótica situação... Minha cunhada entra no quarto e vai em direção aos baldes cheios de roupas lavadas e começa escolhe-las e leva-las para tia Redonda engoma-las na sala de jantar onde a tábua de engomar fica permanentemente armada junto a parede, próxima a porta da Sala do Computador. Uma fomizinha enjoada, a pobreza ronda o ambiente. Bebi um gole d'agua na boca do meu litro pet que estava em cima da escrivaninha . Olhei pela janela de soslaio para rua ao ouvir o barulho peculiar do motor a diesel da Toyota Bandeirante do Deposito Bastos que passou bem devagar sobre o quebra-molas e na carroceria materiais para entrega. Olhei para os cadernos grandes, onde realmente comecei a escrever uns rascunhos, que no momento não queria vê-los ou relê-los. O Patriarca chega do trabalho, a cadela Chambinha presa no quarto late efusivamente para saudá-lo.
Com a aproximação do crepúsculo, aumentava minha depressão. Olhei para todos os cantos semi-escurecidos do quarto e buscava entender empiricamente o que me aconteceu. Tentando pensar racionalmente, queria entender o mal pela raiz. Basta as minhas doenças, agora uma prisão de ventre inexplicável, mais uma para a minha coleção. Como se não valesse tudo aquilo que venho passando durante toda a minha existência, onde nada vingou, tudo evaporou-se como num passe de mágica - Pago pelos meus pecados e desvarios que cometi involuntariamente. Mas nada de lamentos - há vida lá fora, assim como aqui também, só de maneira diferente. As lâmpadas das luminárias dos postes da praça acendem, o latido agudo da cadela contente com a chegada da matriarca da feira. Antenor conversa com uma amiga do Salão no terraço. A Matriarca conta uma historia de um pequenino que se trancou num banheiro. Os passarinhos acomodam-se nos seus ninhos e eu também.

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Autor
r.n.rodrigues
 
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