https://www.poetris.com/
 
Crónicas : 

O ASSOBIO MISTERIOSO

 
Tags:  solidão    esperança    relacionamento    ecologia  
 
Uma pessoa me diz que São José dos Campos tem o maior índice per capta de cães no país. Ou seja, a cidade tem a maior taxa de cachorros por dono entre as demais cidades brasileiras. Diz que a sua afirmação é baseada em estatística séria.

-Sabe por que isto, meu caro?

-Segurança – presumo – os cães são vigias eficientes, não faltam ao trabalho, não reivindicam décimo terceiro, nem depósito no FGTS. Eles são mão de obra barata, ou melhor, pata de obra barata, é isto?

- Não, não é isto, meu amigo. O motivo é o fantasma da solidão! Os paulistas têm dificuldades de relacionamento. Em meu estado (Espírito Santo), as pessoas convivem com mais alegria e confiança entre si. Por isto, não têm neuroses, não frequentam consultórios psiquiátricos e nem transferem as suas carências para os animais.

E acrescenta aos seus argumentos:

- Os paulistas pensam demais em suas profissões. Esquecem do lazer e da vida pessoal.

Não tenho certeza sobre a opinião do amigo capixaba, mas uma coisa é certa e contribui para a sua tese: a quantidade de cachorros que existe em meu bairro. E apesar da amizade e simpatia que nutro por nossos irmãozinhos animais, não deixo de achá-los muito intolerantes!

E os inimigos deles são sempre os mesmos tradicionais inimigos: o gato, os serviços públicos (o carteiro, o caminhão de lixo) e algum semelhante que desfile pela rua, acompanhado do dono ou da dona que saem para passear no final da tarde.

A intolerância deles afeta a qualidade sonora do bairro. Quando o caminhão de lixo surge na rua entoando uma vinheta ecológica sobre o lixo reciclado, os cães disparam como uma orquestra sem ensaio, expressando o protesto deles e a hostilidade para com a utilidade pública. Eles nem levam em conta a importância da campanha ecológica promovida pela prefeitura.

Os solos caninos são diversificados. Um deles parece possuir um botão automático que quando é acionado, o latido sai contínuo, igual, incisivo e torturante. Outro cão uiva um blues lúgubre e agourento que até dá arrepios na alma.

Em meio a este caos sonoro, na pausa dos cachorros, ouço um assobio distinto e peculiar. O assobio entoa uma melodia que não é alegre nem triste como o poema da Cecília. Não é qualquer sucesso que a mídia nos bombardeia. É genuinamente original. É esperançoso como se alguém quisesse dizer que não perdeu a guerra, apesar de tudo que possa estar acontecendo.

O assobio não tem hora pra surgir. É no início da tarde ou no meio da noite quando já me deitei pra dormir.

Fiquei curioso. Quem é este ser que me lembra a lenda do flautista de Hamelin? Quem anda pelas ruas como um poeta, assobiando uma bela melodia?

Quem é esse louco, esse desocupado?

Numa tarde de sábado, o assovio soou pela rua. Corri até à varanda e vi um homem que vinha puxando um carrinho de feira. Uma mulher o seguia a alguns passos atrás e um cachorrinho também os acompanhava.

O homem ia verificando nas lixeiras das casas e dos prédios, algum material que poderia ser reciclado como papelão e vidros. Esse material iria vender com certeza em algum ponto de coleta. Era um concorrente do caminhão da prefeitura. Catava o que valia a pena nos lixos e empilhava sobre o carrinho.

Quando passou pela minha varanda, olhou para cima e percebeu que eu o observava. Tentei disfarçar, já era tarde, havia reparado a minha indiscrição.

Mas, logo retomou o assobio altivo, orgulhoso, com aquela melodia de quem não perdeu a dignidade. E seguiu o seu caminho com a mulher e o cachorrinho. O cachorrinho aumentou a velocidade, assumiu a frente, empinou o rabo e o pôs a balançar como uma bandeira em movimento.


Luiz Felipe Rezende


 
Autor
Luizfeliperezende
 
Texto
Data
Leituras
287
Favoritos
1
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
20 pontos
6
3
1
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
DianaBalis
Publicado: 25/04/2018 11:23  Atualizado: 25/04/2018 11:23
Colaborador
Usuário desde: 23/07/2006
Localidade: Rio de Janeiro
Mensagens: 660
 Re: O ASSOBIO MISTERIOSO
Muito interessante, aqui no Rio de Janeiro, até mendigos pegam cães e defilam com eles pelas ruas recebendo a guarida de pessoas que já desistiram de gente e estão agora torcendo pelos bichos. Parabéns, Felipe, você continua um excelente cronista.
Bom dia.


Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 26/04/2018 19:24  Atualizado: 26/04/2018 19:26
Luso de Ouro
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade: Macapá/Amapá - Brasil
Mensagens: 5282
 Re: O ASSOBIO MISTERIOSO
Texto aconchegante. Interessante que o parágrafo que fala sobre o dono do assobio, da mulher,
e do cãozinho impertigado, me repassou uma reflexão: a mensagem que o assobio trazia para a rua e que até os cães, com seus latidos descontrolados,
se calavam para ouvir o que era transmitido; conforto, tranquilidade, segurança, paz.
Quem faz seus cães nervosos, são seus donos.

Amei ler.

Bjos


Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 26/04/2018 21:49  Atualizado: 26/04/2018 21:49
Colaborador
Usuário desde: 10/10/2012
Localidade:
Mensagens: 12514
 Re: O ASSOBIO MISTERIOSO P/Luizfeliperezende
Achei extraordinária essa crónica tão bem observada e relatada, à graciosidade da frase "orquestra sem ensaio",
mas muito bem orquestrada por si, gostei imenso, um abraço Vólena