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Conclusão de solidão

 
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Enquanto dormia a frase não mais se repetiu,
Tudo era longo,
A possibilidade de um delito de opinião mantinha-se,
Já que as pessoas não eram livres,
E por mais que circulassem livros,
E no piano se ouvisse qualquer coisa parecida com a felicidade eterna,
Não era a mesma coisa,...

Ao acordar era velho,
As posições dos equívocos tinham mudado,
Não havia mais professores,
Nem lições de frontalidade,
Por muito que não lhe agradasse,
Tinha de prosseguir,...


O mundo ia acabar sem alusão à
Felicidade

 
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pleonasmo
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 02/11/2019 08:06  Atualizado: 04/05/2020 06:06
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Usuário desde: 06/11/2007
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Mensagens: 2117
 Re: Conclusão de solidão
Longo.
Há um apelo no breve, até no curto que me tem visitado.
Podemos constatar a contragosto que nada dura. Nada é, certamente, eterno e esse mesmo nada é efémero.
A paixão é efémera, o sorriso e o seu comparsa riso são breves.
Na sua grandeza o espanto tem um tempo tão pequeno. Com sorte podemos registá-lo.

Livros e livres.
Um jogo simples e inteligente de palavras que será um tipo de aliteração quase extrema. O por E.
O quinto e sexto versos colocam o leitor numa condição. O que faremos com livros se não formos livres? Não é fácil a pergunta seguinte: Se não houverem livros seremos mesmo livres?
Ainda que não devamos desvalorizar a tradição oral, o saber cairia apenas nos de boa memória.
É verdade que há muito sítio sem livros. Nos desertos não há árvores de fruto, menos ainda papel.
Os regimes ditatoriais são pródigos em fazer fogueiras com eles. Queimarão a liberdade também?
De livros e livres tanto há a dizer. Embora o movimento seja circular nesses versos. Há tanto de infinito num círculo. Ilusório, é claro.
A frase por dizer durante o sono do sujeito poético coloca-o com um protagonismo acentuado. O detentor da frase. Será uma que só ele a sabe, ou será que é o único com coragem ou lembrança para o fazer.

Esse sono com que começa o poema é um indicador que pode ser auto-imposto ou uma imposição. Para mim não é perfeitamente claro. A ausência dessa frase nesse período é que não é coincidência.
Tenho uma repulsa intensa pela perfeição.
A ideia de felicidade, para mim, assim como deus ou futuro, é fruto da abstração, um desaire da nossa mente (mais ou menos) cognitiva, coisas do pensamento.
A felicidade perfeita entra então em conflito com as minhas ideologias e em consonância com o tom sarcástico e pouco cómico da primeira estrofe.
O sujeito poético é também uma parábola em tudo semelhante ao da Bela Adormecida que espera o beijo do príncipe.
Não posso deixar de referir que toda a atmosfera desta primeira estrofe me reporta ao 1984 de George Orwell. A ideia de condicionamento das acções por limitação vocabular deixou-me rendido a essa obra prima. A ideia do consagrado, nesse livro, é tão simples como difícil de construir. Valha-nos o Gin. Porque a opinião não deve ser um delito.

Curioso que colocas o acordar como começo da segunda estrofe. Dividindo a acção, além do poema.
A nível estrutural houve esse cuidado.
O acordar velho coloca o leitor perante a metáfora de distanciação temporal (Para a Aurora foi cem anos) mas também o velho como os trapos, estragado, inútil, destroçado, o-fendido. A maturidade, na maioria dos sobreviventes, traz o cinismo, a cautela, a subserviência, a corrupção…
“…não havia mais professores
nem lições de frontalidade…”
O papel que temos todos na vida uns dos outros, com aprendizagens geralmente duras, e a frontalidade exige coragem para dar e receber, mexe muito comigo.
Quando o aluno está pronto o mestre aparece. Este talvez seja um ditado chinês. O que o poema nos transmite se já não houverem mestres (ou professores)?
Será porque nunca mais estaremos prontos?
Há também algo de Maquiavel nesta estrofe.
É espectável que aquilo que não é feito pela frente, é por trás.
As notas no piano têm números. A música toda ela é matemática. Calculável, calculista. Além do lado mágico que emociona.
Todo o desalento em crescendo e decrescendo, em ondas, circunda um poema que senti uma necessidade visceral de comentar.
A começar pelo Longo, que quero que seja o meu viver, mas que espero que seja pela soma de vários momentos breves.
Um poema muito só.

Obrigado
Abraço.

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