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Sem um Único Orgasmo

 
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Sem um Único Orgasmo

A vida passa na velocidade do vento,
quando menos eu olho, menos eu espero.
Contorno tudo quase sem olhar —
talvez um dia a tristeza me espante,
talvez seja tarde para voltar.

Os dias são ocos e sem vida,
um trem sem passageiros, sem volta, sem ida;
uma alma crua, sem feridas,
que vai por aí sem nada a importar,
como se nada houvesse a avaliar.

Escrevo poesias como uma saída,
saída de um “H” miserável,
para viver vidas que nunca serão vividas,
para poder morrer mil vezes,
sem uma única partida.

Perco-me — e também a cadência do meu andar;
balanço como folhas ao vento.
É o mesmo vento que corta ondas,
que me faz tremular.

A morte segue inane e sem rota,
e eu vou com ela,
pois ante a um último espasmo,
uma faca que penetra e corta.

Sou o último grito,
sem um único orgasmo.

Alexandre Montalvan

 
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montalvan
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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 10/01/2026 11:58  Atualizado: 10/01/2026 11:58
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Mensagens: 3913
 Re: Sem um Único Orgasmo p/ montalvan
A coragem de escrever orgasmo, termo para alguns ofensivo e sem espaço poético nesta casa, eleva o poema ao mais alto patamar da literatura, o de escrever sem medo. Neste caso o termo assenta como uma luva no propósito da imagem transcrita, a dissonância entre a vida e a morte (o grito e o silêncio) ecoa nas asas do vento silvado na espuma das ondas do mar e depois temos também a imagem de um Homem miserável e quimérico. Lê-se muito bem ao som do violinista do diabo, Paganini (https://www.youtube.com/watch?v=aNZR04 ... ist=RDeOeYjxIo1bM&index=6).

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