Sou passado,
sou futuro,
sou provérbio, sou aforismo,
sou generoso egoísmo.
Sou espaçado,
sou muro,
sou sem portas nem janelas,
sou naturezas mortas em telas.
Sou espera,
sou parado,
sou momento vazio,
sou sem quente nem frio.
Sou parte nada,
sou parte tudo,
sou parte que não se reparte,
sou o que falta, sem arte.
Sou o já caminhado
que não volta a acontecer,
um agora equivocado
que não chega a ser.
Sou um.
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.