A fasciectomia palmar parcial
decorreu sem intercorrências,
disse o médico. Assinei a folha
com a mão que me restava. Soube:
remoção de tecido, cordão fibroso,
aderências desusadas. Abriram-me a palma,
cercearam as linhas, suturaram por fim.
Não toco piano desde então. O Claire de Lune
adormece as teclas junto à parede,
enquanto a ferida repousa sob tecidos
grossos. Talvez a mão esqueça
como se movem os dedos,
ou como se desenham carícias
na curva do teu rosto;
talvez aprenda uma gramática
paupérie
silente
insone.
Encosto a palma ao rosto
e sinto a pele estrangeira.
O dedo mindinho regressou do exílio
desconfiado dos mistérios da carne.
Há um tremor mínimo,
não sei se é dor ou apenas memória,
que se lamenta no clique
de cada tecla.