O amor entra pelos poros, sem bater
a casa cede milímetros, cada elo é belo,
a dobradiça aprende, no silêncio,
só vence em seu ofício de ceder.
A água cai, o corpo leve:
recua ou acolhe. O desejo é lâmpada
corredor em que o escuro morava só.
A luz demora entre os dedos,
Aceso, consinto. Ergo muros,
na certeza do dia irão cair.
O teto a telha racha, a luz entra,
Há o cupim que mora na viga.
Há chuva que encontra a fresta.
Ainda assim, levanto com o vento.
Abro o vão em direção ao céu.
A poeira e o pasto são memórias.
Amar é escutar a própria fome
sem calá-la, até que aprenda a dizer
O nome daquilo que o corpo precisa.
ou perece. Depois, é estranho:
Aprende-se a morar em ruína
como quem insiste em chamar de lar.
A louça suja, a roupa puída,
A comida fria e a geladeira vazia.
O telhado ausente. Os lençóis
desarrumados. Começar outra vez, afinal,
não é bravura — é exaustão
que não sabe mais desistir.
O lugar ao meu lado conserva, ainda,
a forma de quem não volta.
Abro portas. Que o vento entre
e ordene o que de mim escapou.
Souza Cruz