Noite de sábado
Era sempre reconfortante e inspirador reler Faulkner – “Santuario” ou “Enquanto agonizo” – a sua vontade era escrever como o mestre, mas era muito pífio nesse sentido – tinha que fazer o que sempre faz, escrever seus diários com seus personagens, consultar Hall(IA), mas não aceitar o bedelho nos seus textos, mania de ser correto, todo cartesiano – tirando isso se davam muito bem, apesar de umas esparrelas, como os endereços errados das editoras – ok! Os algoritmos também falham, ninguém é perfeito.
- E o diretor gosta de quê? Perguntas sem nexos do genro querendo ser engraçado gosta de fazer para perturbar a sogra.
Dimanche matin, 21 – começo da tarde.
Encerrou o livro de Poe, que morreu novo, aos quarenta anos e a sua jovem esposa aos 24 anos -Quando casaram-se e ela tinha quatorze anos.
Sr. Com cumpriu a sua tarefa predeterminada desde quarta passada. Acordou no exato momento que começava “Nas Cordas da Viola” na radio Senado. Sete horas da manhã ensolarada. Abluir-se e fora apanhar os pães na padaria Renascer – os amanhecidos em varias mesas espalhadas sobre os canteiros. Mama Telma varria sozinha o terreiro. A farda domingueira - a bermuda preta e a camisa do moto, fones no ouvido e os seus trecos. Pegou um Piancó-via jambeiro direto pra o Terminal da Praia Grande, relendo “O Mundo do sr. Com” que presentearia ao velho amigo. De lá entrou no Cidade Olimpica-Ipase e desceu na primeira parada da Cidade Operaria e fez o reconhecimento da Medical, onde quarta-feira fará a tomografia com contraste. Comprou pães doces na padaria da esquina e os saboreou-os na casa de Tio Willi – quase um ano sem se verem, foram bastante efusivos e colocaram as novidades em dias. Conversa de velho rola somente doenças – ele contou seus dramas e suas consultas e exames e o velho Tio Willi revelou-lhe que está com diabete tipo 2 – nossa mãe. Autografou “O Mundo do Sr. Com” para o amigo e irmão de longas datas, mais de cinquenta anos de estrada e de loucuras – muito analgésicos (Fiorinal e Optalidon), boas ervas surrupiadas e fumadas no castelo de Glasgow. São os únicos de sua geração. Ficou felicíssimo, o amigo devolveu-lhe o livro de Jô Soares “O Homem que matou Getúlio Vargas” – que já dava como perdido assim como muitos outros, como “Risíveis Amores” do tcheco Milan Kundera, na época frequentavam o curso de russo na UEMA em 1986 e estavam apaixonados pela mesma bela colega. Mas o que vale era o respeito, Pan com ele chamava era seus critico, lia seus poemas e fazia ácidos elogios como “O homem gordo relembra a sua magra juventude”.
As onze se despediram na parada. O poeta pegou o ônibus errado. Consertou o curso como num piloto automático e uma hora depois descia no terminal da Praia Grande -onde os pixixitinhos ainda dormiam nas plataformas.
O almoço dominical farto – arroz, feijão, macarrão, feijão, mocotó,carne assada na grelha e uma saborosa torta de camarão seco e um bom copo de um genérico de coca da River para um arroto. Ainda arrependido por não ter surrupiado o livro de bolso de Jane Austen da biblioteca.