Toda Quinta-Feira, o Louco

 
Garrafa d'água na mão,
o vidro pesa menos que o tempo.
Deslizo entre os que sussurram ao nada,
os que lançam pedras às próprias sombras,
como quem joga migalhas ao destino.

Aquele que recita em calçadas vazias
carrega um sol gasto no bolso
e um poema no frio.
As mãos falam antes da boca,
os olhos viajam antes dos passos.
O louco—não, o poeta
lança palavras em poças d’água,
espera que virem estrelas antes de secarem.

Amo olhar,
olhar dentro do olhar que não ama,
nada amando tudo,
tudo despedaçado na borda do delírio.

Há beleza nos que não pertencem.
Na linha trêmula do queixo, um verso incompleto.
No descompasso do riso, um segredo inalcançável.
E eu, sempre ali,
toda quinta-feira,
sentada no vórtice entre o real e o impossível,
lucidez e vento,
deixando que me veja sem saber que é visto.

E se um dia ele parasse?
Se pousasse os olhos no vazio e nada dissesse?
Talvez o mundo inteiro desmoronasse
num silêncio maior que qualquer poema.
 
Toda Quinta-Feira, o Louco

É QUINTA-FEIRA....

 
Quinta-feira...
Aula de Esportes... Futebol na quadra.
Jovens maravilhosos, canalizando diversos sentimentos naquela atividade.
Cada um, trazendo sua dor... sua alegria...
Esse turbilhão de emoções que existe no coração dos jovens.
Um futebol maravilhoso!
Eram crianças grandes, correndo atrás da bola!!
E havia uma admirável criança... PEDRO.
Criança?
Sim... Um generoso coração de criança.
Nossa! Que coração!
Gosto muito de observá-los quando atuam...
Seus comportamentos, socialização, o “viver” em grupo.
Mas, devo confessar que adorava vê-lo jogar.
Havia sempre um carinho para mim, guardado em sua “manga”.
Não posso traduzir a generosidade desse garoto...
Não consigo traduzir o meu afeto por este garoto.
Mas posso traduzir a imensa gratidão a Deus...
Por ele ter passado em minha vida profissional...
E ter-me ensinado, tantas vezes, a ser uma pessoa melhor.
Exercitando minha paciência...
Ensinando-me que o carinho transpõe qualquer sentimento ruim.
Aliás... Nunca consegui ficar “brava” verdadeiramente com ele.
Nenhum de nós...
Porque ele sempre fazia uma excelente reflexão sobre seus atos.
E sempre os reconstruía... com muita humildade, decência, reconhecimento... Isto o traduz.
Muitas vezes, mais educador do que eu.
Sempre defendendo, intercedendo por seus amigos...
Eu costumava dizer pra ele que poderia ser um excelente advogado!!
E ele dizia: “Quem sabe, ‘né’, professora?!!”
Quinta-feira... Quadra... Futebol...
Ele fez um gol para mim...
E gritou meu nome, bem alto!!
Braços abertos... e presenteou-me.
Seu grito... ficará ecoando em meu coração.
Nas árvores, em volta daquele campo.
Nas gavetas de minha memória.
Tenho, hoje, mais um degrau abaixo de minha trajetória profissional.
Mais um aprendizado... e uma enorme perda.
Porque, PEDRO, você me foi um grande desafio...
Ensinou-me muito.
E, fundamentalmente, mostrou-me que vale a pena SIM...
Continuar acreditando no ser humano como protagonista de suas ações.
Porque você evoluiu muito enquanto ser humano, PEDRO.
Evoluiu, espalhou amor... e partiu.
Até um dia, filho.
Deus esteja contigo.
(HOMENAGEM PÓSTUMA A UM EDUCANDO QUE PERDÍ PARA A SOCIEDADE)

Karla Mello
Junho/2009
 
É QUINTA-FEIRA....

quinta-feira (continuação)

 
julgo ter sido feliz, agarrei na cabeça ao destino e espetei-a contra uma rocha, dessas tantas rochas por que passei hoje, enquanto tu escrevias uma carta ao teu ex amigo. as rochas falam de água e correm com ela rio abaixo, há uma ponte a cruzar o espaço, dois rostos conhecidos dentro dele. julgo ter sido feliz quando já dentro de água arrefeci a pele e a dor com ela. imaginei que estarias fechado num quarto, uma janela minúscula em frente a uma secretária onde ias agrafando palavras. gostava que estivesses dentro de água, esta doce, que visses como eu a cor das rochas, lá onde os pés não conseguiam chegar mesmo que impulsionasses o corpo. seria muito menos dolorosa esta passagem, do que essa onde ficas à espera das tuas gaivotas. tudo isto é breve como o vento e tu sabes que ventos me levam, mas tudo isto voltará como uma memória de um tempo onde julgo ter sido feliz.
 
quinta-feira (continuação)

O mundo do sr. Con - Quarta-feira a noite e quinta-feira, 13/08/2026

 
Quarta-feira – começo da noite
Mais um maravilhoso filme de superação e inspirativo para o poeta – “Antônia. Uma sinfonia” – a cinebiografia da primeira maestrina, a holandesa Antônia Brico na luta pelos seus sonhos, no começo dos anos 20 do século passado.
Quinta-feira, 23 de agosto de 2026
Um sonho encabuloso – a chegada de uma carta com um livro “Diarios” de capa verde e espiralado sem o nome do autor. Será que é devolução de uma das ‘bonecas’ do Mundo do Sr. Con das três editoras que receberam, das noves que foram enviadas.
- Quem seu cu aluga, só senta depois das onze murmurou baixinho Tia Neca com a sacola de pães.
No meio da Praça das Sete Palmeiras, o serralheiro Zé Filho ou Preguinha vestia a camiseta de manga e deu um alô para o poeta. As quatro da manhã um surto de tosse -kof-kof. A garganta comichando. O gás acabou no começo da noite de ontem, ainda bem que a sopa já estava cozida.
Nariz entupido e aquece-se ao sol morno antes das sete. Relia os seus diários datilografados de setembro de 93, quando o pequerrucho era um bebê de três meses. O litro de vinho seco na horizontal ao lado do poeta. Sentia-se como uma bateria sendo recarregada, não de eletricidade, mas de esperanças. Blindowski abstêmio a caminho do trabalho e contratando. O casal de perequitinhos até então calados, alvoraçam o ambiente com sua grave chalrearão. Um pardalzinho nervoso pousa a sombra com um pedacinho de pão duro, que debulha aos poucos para depois bica-los – ao perceber um pombo fulero se aproximando não perdeu tempo alçou voo com o resto no bico. Uma bela e elegante rolinha observava do canteiro.
- Vou esperar o patrão acordar – disse seu Milson, o pedreiro paraense fazendo um bico na 18.
Atelier – o surto gripal veio com a força total, cachimbando o poeta – nariz entupido e escorrendo, o pigarro na garganta, a sensação do corpo dolorido e levemente febril – para combate-la, pegou três Benegrip no Gordilho junto com o café.
Dezão fazendo um esforço hercúleo para entregar uns botijões de água na casa de Dona Edna no carro de mão fez três viagens – na última aproveitou e deu um pulo no Gordilho para se abastecer.
Juvan trouxe um exemplar das obras de Padre Vieira, o poeta o renegou. O poeta Janaike também e rolou uns papos políticos e para fechar Nozira ou o grande Careca, o homem do rap devolveu para Juvan, pasmem – o exemplar de “Crônica de uma Tuberculose Anunciada” – o poeta foi as alturas ao ver um de seus rebentos e o ligou ao sonho – capa verde e não titubeou pedindo-lhe emprestado. Os bons filhos a casa do pai retornam. Seu primeiro livro publicado pelo Clube de Autores em 2015 escrito em 2014, quando começou a sentir os primeiros sintomas da doença. Vendeu quatro exemplares – dois para Juvan, um para seu Lasierra e outro para Gordilho. Depois que todos arribaram o poeta concentrou-se em si mesmo – uma sensação que somente os que escrevem sentem ao se lerem. O menu do Popular foi empanado de pescada e galinha assada, quase o poeta ia, mas preferiu o rango caseiro – um bom escabeche de troira com o caldo bem grosso,feijão e pirão de farinha d’agua. – E tome o poeta de volta a 2014 – ano da copa no Brasil e da derrota de sete a um para Alemanha e no outro dia o poeta foi consultar-se no centro médico do igreja de Nossa Senhora dos Pobres, o Posto Medico estava em reforma. Dai recebeu o encaminhamento para os exames – escarro e um raio X para os pulmões e o veredicto dias depois ou melhor semana – Estava com principio de tuberculose – Então escreveu “Tuberculose” publicado também no Clube de Autores.
Amanhã se Deus quiser dar entrada no processo do BPC-Loas no DPU e ver no que vai dar. Deus é bom! E seja lá o que ele quiser!.
 
O mundo do sr. Con - Quarta-feira a noite e quinta-feira, 13/08/2026

Quarta-feira a noite e Quinta-feira, 03/08/2026

 
Quarta-feira a noite,02/09/2026
- Vê se tu acha o meu cipó, quero dar uma lapada nessa gata safada – esbravejou a irritadiça sra. Vince para uma de suas felinas que se aninhava no sofá para urinar – Bicha danada, chispa!
Quinta-feira, 03/09/2026
O canto sofrido e solitário de uma fogo-pagou em algum canto do largo. Na rua 16, um caminhãozinho frigorifico descarregava uns quartos de boi para o frigorífico Lucio e na calçada do mercado em frente ao portão único da avenida Sarney Filho – o dos frangos vivos nos seus engradados e Zeca arrumando os legumes, Val e o ajudante abrindo o comercio.
O poeta tranquilo depois da euforia ansiolítica causado com o desbloqueio do seu e;mail, depois de quase uns anos sem usa-lo, graças a persistência do genial Guy. Acessou da pensão e foi as alturas, lendo as notificações da Kindle/Amazon a respeito do dinheiro retido devido uma falha no cadastro bancário, que não foi nem ele que abriu ou fez – sim uma amiga escritora paulista que fez todos os tramites. Enviou um e;mail explicando. Viaja a saber que em algum lugar alguém comprou o seu trabalho. Quantos livros foram vendidos? Pergunta para si mesmo. Maravilha poeta, pelo menos mais de dez – ótimo me sinto um best seller. E o melhor saber que tenho uma pontinha a receber – lembrei-me quando vendi um exemplar de “Itinerário Poético & Espiritual do Desterro” na livraria Nobel no Shopping Tropical no Renascença. Foi apoeteotico, saber quem alguém pagou meu livro. Guardei a cédula por muito tempo – era como se fosse hoje uns dez reais.
Respiro e aspiro tranquilo ao sol morno antes das sete, na Praça das Sete Palmeiras – cenário do livro com direito a foto. “Vila Embratel/Praça das Sete Palmeiras” com a foto de Juvan Senior, ele também digitou, eu o escrevi manualmente e depois o datilografei – é o resto será historia. E eu que pensava que não tinha vendido nada – o Clube de Autores nunca prestou conta dos meus oito livros – deixa prá lá. Agora posso dizer que sou um escritor, já recebo os royalties das vendas -pode ser pouco, mas para mim é o universo. Falarei com meu agente cultural, o mestre Cadete para desatar o esse nó górdio, afinal foi ele que abriu e gerenciou a conta do bônus. – Tenho uma conta, mas não sei de nada – nunca me entregaram o cartão. Graças a Deus, os pixixitinhos cães de caça de gravata poderia bisbilhotar, ai mesmo que nunca me darão o meu BPC.
Seu Marçal, capitão reformado do exercito brasileiro, alimentador dos pombos. Vive num cárcere quase privado com a irmã que recebe seu soldo e não lhe dar nada, a mãos esquerda inchada de uma paulada dela – e de vez enquanto empreende uma fuga e vem refugiar-se na praça com os pombos – foi uma empatia a primeira vista, abraçamo-nos como velhos parceiros de caserna com direito até continência e ordem unida.
INT. ATELIER DE LA VIE – MANHÃ
Seu Hudson apressado com a mochila na costa, convidei-o para sentar: - O home não tem cachaça! Não posso, tenho que tomar uma para calibrar os nervos.
A morena baixa das ancas largas fez o poeta lembrar-se da sua primeira companheira com quem dividiu um quarto no Condominio do Caos – um prédio colonial na rua da Palma, próximo ao largo do Desterro, prima legitima materna, foi busca-la em Pinheiro para depois em menos de um ano receber um belo para de chifres – mas cortou antes que crescesse, voltou a casa paterna onde nasceu e morou por vinte e oito anos.
- É muita coisa para uma coisa só – filosofou Seu Hudson injuriado por não ter encontrado nenhuma ‘farmácia’ aberta. O patrão passou e o rebocou para os confins do Iguaiba.
Dezão recuperado vai ao dr. Gordilho se medicar – Bonjour dessa vez vou dar um tempo bacana – disse esparramando-se na cadeira e os pés desinflamaram.
Então chegou Seu Antonio, marinheiro de convés aposentado a espera de seu Costa o barbeiro do lado – Um conversa bem salutar sobre um assunto que o poeta gosta – trabalhava num rebocador de balsas no porto do Itaqui.
- Fala,meu ermão – saudou-me o baizinho, l’homme des plantes empurrando seu carro com seus produtos na direção do mercado. E relendo “Sexta-feira Negra” – um alerta que o deixou triste não achou o “Terceiro Tira” de um escritor irlandês muito conceituado pelo seu conterrâneo James Joyce. O odor de um cozido de maxixe.
Dona Duda, a morena do Ed Paul recorre ao Gordilho, uma coroa bem feita de corpo de selfide.
Um bom mel puro depois de três copos de agua no Gordilho – a garganta coçou para contar-lhe a novidade dos direitos retidos, ele é muito irônico. Não falarei nada nem para Juvan ou Lasierra – reportarei a apenas ao meu agente e colaborador. Tenho que aprender a ficar de bico calado.
A esposa do mestre Newton em sexto mês de gestação, mais uma pixitinha. A carroça atulhada de capim fresco colhido nas baixa da vale e o indolente carroceiro despreocupado sentado no varal, os pequeninos na sua inocência e o canto triste e lamurioso do galo solitário e engaiolado do Pet Shop mais abaixo. O velho malandro velho Eskel entendeu que o crime não compensa, faz seus bicos como ajudante de pedreiro, mas já mandou muito marmanjo para mesa de cirurgia jogou duas moedas de um real sobre a mesinha improvisada para inteirar uma gorotinha – negociei com Gordilho. Seu Rozi trouxe a sobremesa do Popular, uma laranja para mim. O Lasierra fechado queria pegar umas pilhas. Um bom guisado com verdura deliciou a minha alma acompanhada com arroz e feijão mulata gorda. Acabei “Sexta-feira Negra” e reiniciei “Os Artamonov” do mestre maior Maximo Gorki, amigo do escritor Ivan Bunin, o primeiro autor russo a ser laureado com o Premio Nobel de Literatura no começo dos anos 30 do século passado.
Harmonizando-se com o cara que escrachou com o premio nobel, não comparecendo ao solene evento que tanto sonho – Bob Dilan – Lady, lady
 
Quarta-feira a noite e Quinta-feira, 03/08/2026

quinta-feira.

 
queria construir uma balança onde equilibrar o afecto. estou terrível, não sei onde parar a solidão, deixar morrer. falo para o vento, espero que te encontre hoje sentado em frente ao mar, talvez te leve as gaivotas um pouco para mais longe ou um pouco para mais perto, não sei já o peso do coração. tenho nos olhos a crescer sargaço, na pele das mãos urtigas. não sei como dar as mãos ao corpo, não sei como dar o corpo ao mar. hoje queria despedir-me de ti com um beijo, trago nos dentes um feriado por dizer, é quinta-feira e estou ainda em pânico. se me deixares talvez te constrúa um lugar novo, que não caiba no destino, onde acordar seja como abrir os braços ao vento e voar alto, sobre os penhascos, na copa das árvores em círculos, passar pelo tempo sem ele passar por mim. o resto, que não te disse hoje por não saber o que fazer, é esta vontade de te trazer para mais perto.
 
quinta-feira.

O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026

 
Quinta-feira, 30 de julho de 2026
Quase três horas da madrugada e não tenho sono – deitei-me as dez e meia, depois de ler “Fogo-fatuo” do mestre Lins do Rego e seus personagens tipicamente regionais – o ronco do sr. Vince, a tosse seca da companheira, a monofonia dos grilos entorpecendo o tempo, o zumbido dos chatos mosquitos nos meus ouvidos, o cheiro azedo das urinas dos gatos pairando abafadamente sobre o cubículo as escuras – tomo a metade de uma Alprozelam, o disparo dos compressores da câmara fria do Frigo Lucio – depois desses indeferimentos do BPC, todos meus sonhos foram por agua baixo e as esperanças ceifadas abruptamente – Tinha tantos planos – um deles era me mudar para o centro, alugar um quarto ou até mesmo uma casa e retornar para onde nasci e me criei – assim como fazem os salmões no fim da vida – enfrentar as correntezas, desovar e subi aos céus. A lembrança do mestre Valois, o Quinca berro D’agua ludovicense, abandonou a família e foi morar num quartinho no Desterro, perto da putaria que tanto amava. O pai dele era francês Monsieur Valois.
Jumar, filho de tia Elza, o doidão que banha nu na frente da casa solta bombinhas na madrugada. Os cães ladram distante, um jumento também zorrilha, o calção fede a urina. Bebo agua na boca do litrão de Pet que tenho aqui nos aposentos, me abstenho de beber agua gelada – bebo normal e de torneira. Os dedos dos pés vitimados pelas micoses das frieiras incharam e assemelham-se aquelas salsichas enlatadas da swift.
A consulta será remarcada e os exames expiram. Jumar não regula bem, as pedras e as diambas dilapidaram o seu inócuo cérebro. O primeiro bocejo, bom sinal. Acho que Mano Vince tem razão a respeito dos indeferimentos do BPC tem relação com o auxilio. Mas vamos esperar e ver o que os brancos de gravatas do DPU vão fazer. Triste, não encontrei “Ilhas das Correntes” do mestre Hemingway. Tudo bem Sartre fechou comigo é parceiro e mestre e vou para Bouville acompanhar o monsieur Roquentin.
No meio da manhã.
Pasmem! Acordei quase nove horas e o sol alto batia na janela fechada e ainda groque da Alprozelam. Constato que realmente perdi “A Ilha das Correntes” – forço-me para lembrar se o levei ou não no sábado – Porra, que droga! All right -Uma amiga de Xenor, o genro da sra. Vince deu-lhe um teclado usado, mas bom e usava quando sai da pensão e no terraço me cruzo com o sério Sr. Castro, o factótum entrando como um relâmpago. Perder um Hemingway, é perder um pedaço da minha alma. Frank Puro espirra e está na dele. Ontem a noite a lua maravilhosa inundava o quintal com sua luminosidade de prata e eu nu banhava-me e depois encarei o seleiro e mestre José Amaro nas suas andanças na noite de lua.
Janoca, a graúda exalava concupiscência de seus enormes atributos físicos dentro de uma colada e justa lycra.
Encontrei com Juvan Senior no Popular, ficamos frente a frente e deu-me uma boa noticia – tinha um livro no Lasierra de capa dura vermelha. Aleluia! Aleluia! – Então cai de boca na suculenta dobradinha com linguiça, dois pratos como ontem – dois reais. Mas uma galera esperava impaciente o frango assado. Subi a ladeira pesado como o Berg Stahl a caminho de Roterdam.
Resgatei Hemingway no Lasierra, o abracei e o beijei – que alegria! E o trouxe de volta ao seu aprisco
“Há de ter cuidado com a literatura. É preciso escrever ao correr da pena sem escolher as palavras” – ensina-me Roquentin/Sartre. Levo-o para o banheiro, enquanto deliciou-me com sua sabedoria filosófica, descarrego maciamente o barro, fruto da feijoada de ontem e logico das laranjas. Um banho no quintal. As frieiras comicham e eu as coço selvagemente até sangrarem e depois passo pomada.
A goiabeira desnuda de folhas como as arvores do Central Park de New York no outono, falta somente os esquilinhos travessos. A laranjeira carregada. Benza a Deus, depois do rango vou apanha-las. Miles Davis azuleja a abafada tarde cinzenta com seu maravilhoso trompete. Bouville existe? Ou é uma criação do mestre Sartre?
 
O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026

O mundo do sr. Con - quinta-feira, 23/07/2026

 
Quinta-feira, 23 de julho de 2026
Um senhor de cabelos brancos, dormia pesadamente no meio da passagem entre os canteiros da Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel, quebrando a poética do sr. Com que cantarolava mentalmente a bela canção do mestre Agenor, o Cartola “Alvorada lá no morro que beleza” – Santos Deus podia ser eu nos meus vacilos etílicos – pensou. Seu Riba Fodinha, outra da confraria de São Martinho, sóbrio como um monge circunavegou curiosamente o irmão de infortunio deitado. Uma simpática jovem morena a caminho da padaria, parou, observou-o bem e foi embora com cenho carregado. Um espelho para o poeta nesses grodes doidos – ano passado deu umas vaciladas brutais, ainda bem que eram tarde de domingo. Olá poeta presta atenção, olha o exemplo ai – asseverou-se.
O carro de mão do verdureiro, pesado e atapetado de verduras e legumes empurrava-o com cuidado e muita força sobre a calçada. Antes das seis da manhã, o poeta tirava seus andrajos de molho deste ontem a noite, depois do banho no quintal e constatar a lua em quarto crescente, lembrou de Frank Puro – “A lua tá chegando”
Uma visita do mestre serralheiro Bardaux. Uma jovem mãezona levando o pequerrucho pela mão esquerda e na direita a sacola com uns bandecos, vinham do mercado.
- Bora! – disse para o pequenino.
Dona Neide andando quase normal. O barulho seco de alguém capinando. Uma branca simpática num modelito vermelho deixando as costas nuas – E que costa! A zoada do motor da Toyota Bandeirante dos Bastos saindo da garagem e subindo a ladeira.
De volta a Oliveira e a casa dos Ramires – uma sacola voando ao vento pousando na calçada em frente ao atelier. Do outro lado o carteiro grandão apressado e suado debaixo do sol das dez horas, aumentando as esperanças do poeta em relação as três cartas que enviou para as editoras e não foram devolvidas.
- Vamos lá no Popular! Convidou o carroceiro maneta Mariano e Cabeleira.
Quatro agentes de saúde, três fêmeas e um macho confabulavam no meio da calçada e uma delas -a grandona entrou no atelier.
- Sua consulta é dia 29, no Posto, asa sete com a dra. Ana Beatrice.
- Ok. Vou e levarei os meus exames – assentiu o poeta pousando “A ilustre Casa de Ramires” no colo.
Do outro lado o negão das polpas passava batido e apressado empurrando seu carro abusado, mas olhava para a oficina.
- Me arranja dois reais! -gritou o poeta.
- Amanhã – respondeu sem parar – Tõ muito apressado – desculpou-se.
Ok! O encontro de Gonçalo Ramires e André Cavaleiro em Corinde, a luxuosa quinta deste ultimo.
Seu Rozi voltando do Popular anuncia o prato do dia: “Frango assado e fígado.” O pixixitinho Seu Buldo e seus quatro bandecos. Tio Chagas foi no frango. O pedreiro paraense Milson caxibado de cachaça deu um tempo na cadeira e até cochilou um pouco e espantou-se:
- Agora vou lá – quando o poeta le disse o menu, deu um pulo – Eu não como frango!
O poeta com uma fomizinha enjoada “ainda é cedo” – lembrou de Cartola e sua bela canção que Cazuza gostava de cantar para Neil Matogrosso – “O mundo é um moinho” – Mariano e Cabeleira de volta e mestre Mutante mais atrás alertou-o:
- Hoje não tem quase ninguém.
A boca do poeta umedeceu de desejos. O barbeirinho veio apanhar o carro de mão no Dezão e não o encontrou. Marcou para amanhã. Volney descia garbosamente a ladeira com uma camisa do Corinthians e uma vistosa garrafa de Pitu e os passos trôpegos de ébrio.
Meio-dia – o poeta subiu para o Popular. Realmente não tinha muita gente, mas tinha bastante gente na pequena fila – comprou a senha, minutos depois rolou a borboleta e aos poucos foi aproximando-se. Apanhou a bandeja e o prato, a colher – a senhora serviu-lhe uma porção de arroz, um pouco de feijão, arroz e o fígado – a cuba da galinha vazia – a salada e uma banana e foi senta-se na primeira mesa. O enjoado do Pai Bá aproximou-se: - Poeta por aqui! – Dona Rose Ecler na fila pela segunda vez e assim o rango rolou na paz.
 
O mundo do sr. Con - quinta-feira, 23/07/2026

Quinta-Feira Santa (William Blake)

 
Quinta-Feira Santa (William Blake)
 
É coisa santa de se ver,
Em terra fértil e opulenta,
Deixar na miséria um bebê,
Nutrido por mão avarenta?

Este grito é uma canção?
Será ela de alegria?
E tantas crianças pobres?
É uma terra de indigência!

E seu sol nunca tem brilho.
Seus campos secos, desertos
Seus caminhos, com espinhos
E lá é um eterno inverno.

Pois onde quer que o sol brilhe
Onde quer que a chuva assente:
Bebês não podem passar fome
Nem miséria assustar a mente.

William Blake (1757-1827), poeta e artista plástico inglês.

Imagens: Uma criança africana e outra das Ilhas Salomão (cabelos loiros, traço genético característico da ilha).
 
Quinta-Feira Santa (William Blake)

Quinta-Feira da Paixão

 
Esta noite é mais longa do que as outras
É uma noite mais fria do que todas
Nunca uma noite foi tão estranha
Como esta de que falam nossas bocas!

Esta noite cheira a ódios sem destino
É a noite que mergulha o mundo em solidão
E há sombras a espreitar em cada esquina
Com vontade de prender um coração!

Esta noite tudo é podre nos olhares
Só há trevas nos gestos e nos corpos
É a noite que jamais terá retorno
Porque prende na tumba os seus mortos!

Esta é a noite em que o Senhor é manietado
Preso com grilhões de um pé à outra mão!
Que estranha noite é esta cheia de punhais?!
É a noite de Quinta-Feira da Paixão!!!
 
Quinta-Feira da Paixão

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