quinta-feira.
queria construir uma balança onde equilibrar o afecto. estou terrível, não sei onde parar a solidão, deixar morrer. falo para o vento, espero que te encontre hoje sentado em frente ao mar, talvez te leve as gaivotas um pouco para mais longe ou um pouco para mais perto, não sei já o peso do coração. tenho nos olhos a crescer sargaço, na pele das mãos urtigas. não sei como dar as mãos ao corpo, não sei como dar o corpo ao mar. hoje queria despedir-me de ti com um beijo, trago nos dentes um feriado por dizer, é quinta-feira e estou ainda em pânico. se me deixares talvez te constrúa um lugar novo, que não caiba no destino, onde acordar seja como abrir os braços ao vento e voar alto, sobre os penhascos, na copa das árvores em círculos, passar pelo tempo sem ele passar por mim. o resto, que não te disse hoje por não saber o que fazer, é esta vontade de te trazer para mais perto.
O mundo do sr Con - quinta-feira 30/07/2026
Quinta-feira, 30 de julho de 2026
Quase três horas da madrugada e não tenho sono – deitei-me as dez e meia, depois de ler “Fogo-fatuo” do mestre Lins do Rego e seus personagens tipicamente regionais – o ronco do sr. Vince, a tosse seca da companheira, a monofonia dos grilos entorpecendo o tempo, o zumbido dos chatos mosquitos nos meus ouvidos, o cheiro azedo das urinas dos gatos pairando abafadamente sobre o cubículo as escuras – tomo a metade de uma Alprozelam, o disparo dos compressores da câmara fria do Frigo Lucio – depois desses indeferimentos do BPC, todos meus sonhos foram por agua baixo e as esperanças ceifadas abruptamente – Tinha tantos planos – um deles era me mudar para o centro, alugar um quarto ou até mesmo uma casa e retornar para onde nasci e me criei – assim como fazem os salmões no fim da vida – enfrentar as correntezas, desovar e subi aos céus. A lembrança do mestre Valois, o Quinca berro D’agua ludovicense, abandonou a família e foi morar num quartinho no Desterro, perto da putaria que tanto amava. O pai dele era francês Monsieur Valois.
Jumar, filho de tia Elza, o doidão que banha nu na frente da casa solta bombinhas na madrugada. Os cães ladram distante, um jumento também zorrilha, o calção fede a urina. Bebo agua na boca do litrão de Pet que tenho aqui nos aposentos, me abstenho de beber agua gelada – bebo normal e de torneira. Os dedos dos pés vitimados pelas micoses das frieiras incharam e assemelham-se aquelas salsichas enlatadas da swift.
A consulta será remarcada e os exames expiram. Jumar não regula bem, as pedras e as diambas dilapidaram o seu inócuo cérebro. O primeiro bocejo, bom sinal. Acho que Mano Vince tem razão a respeito dos indeferimentos do BPC tem relação com o auxilio. Mas vamos esperar e ver o que os brancos de gravatas do DPU vão fazer. Triste, não encontrei “Ilhas das Correntes” do mestre Hemingway. Tudo bem Sartre fechou comigo é parceiro e mestre e vou para Bouville acompanhar o monsieur Roquentin.
No meio da manhã.
Pasmem! Acordei quase nove horas e o sol alto batia na janela fechada e ainda groque da Alprozelam. Constato que realmente perdi “A Ilha das Correntes” – forço-me para lembrar se o levei ou não no sábado – Porra, que droga! All right -Uma amiga de Xenor, o genro da sra. Vince deu-lhe um teclado usado, mas bom e usava quando sai da pensão e no terraço me cruzo com o sério Sr. Castro, o factótum entrando como um relâmpago. Perder um Hemingway, é perder um pedaço da minha alma. Frank Puro espirra e está na dele. Ontem a noite a lua maravilhosa inundava o quintal com sua luminosidade de prata e eu nu banhava-me e depois encarei o seleiro e mestre José Amaro nas suas andanças na noite de lua.
Janoca, a graúda exalava concupiscência de seus enormes atributos físicos dentro de uma colada e justa lycra.
Encontrei com Juvan Senior no Popular, ficamos frente a frente e deu-me uma boa noticia – tinha um livro no Lasierra de capa dura vermelha. Aleluia! Aleluia! – Então cai de boca na suculenta dobradinha com linguiça, dois pratos como ontem – dois reais. Mas uma galera esperava impaciente o frango assado. Subi a ladeira pesado como o Berg Stahl a caminho de Roterdam.
Resgatei Hemingway no Lasierra, o abracei e o beijei – que alegria! E o trouxe de volta ao seu aprisco
“Há de ter cuidado com a literatura. É preciso escrever ao correr da pena sem escolher as palavras” – ensina-me Roquentin/Sartre. Levo-o para o banheiro, enquanto deliciou-me com sua sabedoria filosófica, descarrego maciamente o barro, fruto da feijoada de ontem e logico das laranjas. Um banho no quintal. As frieiras comicham e eu as coço selvagemente até sangrarem e depois passo pomada.
A goiabeira desnuda de folhas como as arvores do Central Park de New York no outono, falta somente os esquilinhos travessos. A laranjeira carregada. Benza a Deus, depois do rango vou apanha-las. Miles Davis azuleja a abafada tarde cinzenta com seu maravilhoso trompete. Bouville existe? Ou é uma criação do mestre Sartre?
O mundo do sr. Con - quinta-feira, 23/07/2026
Quinta-feira, 23 de julho de 2026
Um senhor de cabelos brancos, dormia pesadamente no meio da passagem entre os canteiros da Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel, quebrando a poética do sr. Com que cantarolava mentalmente a bela canção do mestre Agenor, o Cartola “Alvorada lá no morro que beleza” – Santos Deus podia ser eu nos meus vacilos etílicos – pensou. Seu Riba Fodinha, outra da confraria de São Martinho, sóbrio como um monge circunavegou curiosamente o irmão de infortunio deitado. Uma simpática jovem morena a caminho da padaria, parou, observou-o bem e foi embora com cenho carregado. Um espelho para o poeta nesses grodes doidos – ano passado deu umas vaciladas brutais, ainda bem que eram tarde de domingo. Olá poeta presta atenção, olha o exemplo ai – asseverou-se.
O carro de mão do verdureiro, pesado e atapetado de verduras e legumes empurrava-o com cuidado e muita força sobre a calçada. Antes das seis da manhã, o poeta tirava seus andrajos de molho deste ontem a noite, depois do banho no quintal e constatar a lua em quarto crescente, lembrou de Frank Puro – “A lua tá chegando”
Uma visita do mestre serralheiro Bardaux. Uma jovem mãezona levando o pequerrucho pela mão esquerda e na direita a sacola com uns bandecos, vinham do mercado.
- Bora! – disse para o pequenino.
Dona Neide andando quase normal. O barulho seco de alguém capinando. Uma branca simpática num modelito vermelho deixando as costas nuas – E que costa! A zoada do motor da Toyota Bandeirante dos Bastos saindo da garagem e subindo a ladeira.
De volta a Oliveira e a casa dos Ramires – uma sacola voando ao vento pousando na calçada em frente ao atelier. Do outro lado o carteiro grandão apressado e suado debaixo do sol das dez horas, aumentando as esperanças do poeta em relação as três cartas que enviou para as editoras e não foram devolvidas.
- Vamos lá no Popular! Convidou o carroceiro maneta Mariano e Cabeleira.
Quatro agentes de saúde, três fêmeas e um macho confabulavam no meio da calçada e uma delas -a grandona entrou no atelier.
- Sua consulta é dia 29, no Posto, asa sete com a dra. Ana Beatrice.
- Ok. Vou e levarei os meus exames – assentiu o poeta pousando “A ilustre Casa de Ramires” no colo.
Do outro lado o negão das polpas passava batido e apressado empurrando seu carro abusado, mas olhava para a oficina.
- Me arranja dois reais! -gritou o poeta.
- Amanhã – respondeu sem parar – Tõ muito apressado – desculpou-se.
Ok! O encontro de Gonçalo Ramires e André Cavaleiro em Corinde, a luxuosa quinta deste ultimo.
Seu Rozi voltando do Popular anuncia o prato do dia: “Frango assado e fígado.” O pixixitinho Seu Buldo e seus quatro bandecos. Tio Chagas foi no frango. O pedreiro paraense Milson caxibado de cachaça deu um tempo na cadeira e até cochilou um pouco e espantou-se:
- Agora vou lá – quando o poeta le disse o menu, deu um pulo – Eu não como frango!
O poeta com uma fomizinha enjoada “ainda é cedo” – lembrou de Cartola e sua bela canção que Cazuza gostava de cantar para Neil Matogrosso – “O mundo é um moinho” – Mariano e Cabeleira de volta e mestre Mutante mais atrás alertou-o:
- Hoje não tem quase ninguém.
A boca do poeta umedeceu de desejos. O barbeirinho veio apanhar o carro de mão no Dezão e não o encontrou. Marcou para amanhã. Volney descia garbosamente a ladeira com uma camisa do Corinthians e uma vistosa garrafa de Pitu e os passos trôpegos de ébrio.
Meio-dia – o poeta subiu para o Popular. Realmente não tinha muita gente, mas tinha bastante gente na pequena fila – comprou a senha, minutos depois rolou a borboleta e aos poucos foi aproximando-se. Apanhou a bandeja e o prato, a colher – a senhora serviu-lhe uma porção de arroz, um pouco de feijão, arroz e o fígado – a cuba da galinha vazia – a salada e uma banana e foi senta-se na primeira mesa. O enjoado do Pai Bá aproximou-se: - Poeta por aqui! – Dona Rose Ecler na fila pela segunda vez e assim o rango rolou na paz.
Quinta-Feira Santa (William Blake)
É coisa santa de se ver,
Em terra fértil e opulenta,
Deixar na miséria um bebê,
Nutrido por mão avarenta?
Este grito é uma canção?
Será ela de alegria?
E tantas crianças pobres?
É uma terra de indigência!
E seu sol nunca tem brilho.
Seus campos secos, desertos
Seus caminhos, com espinhos
E lá é um eterno inverno.
Pois onde quer que o sol brilhe
Onde quer que a chuva assente:
Bebês não podem passar fome
Nem miséria assustar a mente.
William Blake (1757-1827), poeta e artista plástico inglês.
Imagens: Uma criança africana e outra das Ilhas Salomão (cabelos loiros, traço genético característico da ilha).
Quinta-feira, 06/11/25
Quinta-feira, 06/11/25
As três e meia da madruga acordou para urinar e ver as horas no relógio da sala de visita. A cadelinha preta dormia chumbada, convalescia de uma cirurgia feita por um veterinário a domicilio na sala do computador.
Dois sonhos encabulosos que lhe deixara atônito. Um foi com o filho, que embarca hoje para o interior do Pará trabalhar num frigorifico e outro foi com seu agente cultural que lhe falou algo incompreensível e lhe deu uma cédula de cinquenta reais.
Perdera o segundo 314 das cinco e meia e as seis horas apanhava o terceiro. As sete chegou na Clinica dos idosos na Cohab, pegando a senha 9 e agendou o exame de sangue e urina para o dia 24 próximo. Beleza. Na volta, aproveitando o embalo passou na Receita Federal e minutos depois saiu todo contente e satisfeito, resolvera o imbróglio – corrigira o nome da mãe. Agora correr atrás da segunda via da Certidão de Nascimento e depois o RG digital e assim esperar os 65 anos completos para dar entrada no BPC, se Deus assim quiser.
Meio-dia – Seu Pietro lava suas roupas, o cheiro infantil de terra molhada que emana do canteiro improvisado rente ao muro do fundo, aguado ainda pouco pela a Sra. Vince, que respira aliviada depois de encher tudo. Sr. Com ingeriu a última dipirona para combater a maldita ciática e lendo o Almanaque Abril 2012 deu uma boa aliviada nos intestinos. Louvado, quatro dias sem evacuar. Ontem comprou uma cartela de quatro pilhas no Comandante de La Sierra que voltou todo serelepe e promete seguir uma dieta rigorosa sem açúcar – diabético, amputaram o dedão de seu pé direito. O Sr. Vince com a pupila do olho esquerdo esbranquiçado como daquele personagem cego de Kung Fu – mestre Po. Pobre Sr. Vince. O poeta segue lendo Baudolino, mas levou Dashiel Hammett para ler na viagem. E ouve o velho Bob Dilan – No meio da tarde foi comprar os pães na padaria e preparou um sanduba com uns fígados da semana passada– mas receoso teme uma diarreia como da outra vez.