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Poemas, frases e mensagens sobre textos

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares sobre textos

'Mutatis, Mutandis'

 
A quem conseguir captar a essência do que é ser feliz, e vendê-la como patente registada,.....alvíssaras. Diz quem o tentou, que a dificuldade está sempre no processo de selecção de odores. A brevidade de uma experiência, de um momento, de um cenário idílico, torna quase impossível reunir tudo num único composto.
Admite-se, quase 10 mil anos depois de o ser humano se ter levantado para começar a caminhar, que já houve quem chegasse perto. Mas a fugaz capacidade de compromisso do homem, torna esse desígnio quase impossível. Quem vive muitos anos com a felicidade de chegar à recta final da existência, com a ilusão de que está apto a compreender o motivo pelo qual não se matou logo depois de nascer, pode sem problemas assumir-se como um ser humano realizado. Assentar arraiais num planeta fétido, e poder viver consciente de que nada se deve a ninguém, é bom. Deve aliás ser o prazer supremo da existência humana.
No mapa genético do homem que, neste momento, está a ser baleado numa favela do Rio de Janeiro, por simplesmente estar no sítio errado, no momento impróprio, deveríamos todos encontrar um espelho. O reflexo das virtudes dos que almejam o sucesso ao virar da esquina, e dos defeitos da irredutível aldeia de gauleses que morreu à espera do colapso do universo.
É confuso, quase até sinistro, raciocinar sobre algo que, provavelmente, é o mais insondável dos mistérios da criação. A falta de pureza da condição do Homo ‘Sapiens’, torna o conceito de felicidade mutável, mutante e, no limite, perigoso até de abordar. Queima sentir o bem-estar interior, o ‘Nirvana’ dos momentos de perfeição. Mas também deve doer a quem luta por os conseguir captar e, em permanência, falha esse desígnio.
A bíblia diz que, no princípio, era o verbo. Eu cá sinto que antes do verbo, já provavelmente andavam no ar uns espermatozóides que, ao encontrarem o óvulo do conhecimento, se juntaram para produzir a mais tortuosa das criações. A mente humana.
 
'Mutatis, Mutandis'

Está tão mal escrito, tão mal escrito, que acho que não se percebe mesmo nada....

 
Saiu de casa já a manhã ia alta. Vestido à pressa de castanho pisou o chão branco com pés descrentes. Cinco passos adiante virou à direita, inspirou com o sangue a pulsar indefinidamente nas guelras que já carregava, e deu de caras com qualquer coisa. Depois baixou os olhos de novo, quis ir para onde se sentia melhor,...continuou o caminho, atravessou a estrada dos dias todos. Pisou passeio firme, e de soslaio carregou no botão invisível das manhãs de todas as manhãs. Apareceu qualquer coisa de repente, para mais depressa ignorar o que já nasceu ignorado.
Seguiu caminho. O sol ia alto queimando as ideias soltas que naquele microcosmos pisavam toda a gente da forma mais violenta e inesquecível possível. Do olá já habitual, para novo como vai, e sem que nada demovesse de contornos insofismáveis de querer andar sem parar. Virou à esquerda. Vinte passos em diante, e as gordas diziam que havia crise. Estava tudo caro, a guerra escrevia rabiscos em todo o planeta, e tinham ganho qualquer coisa em qualquer lado depois da porrada habitual entre a plebe. Continuou descrente. Pé ante pé até chegar. Por fim o descanso nos braços com contornos castanhos. Os dos dias todos, que ali repousavam no meio do ar invisível......
 
Está tão mal escrito, tão mal escrito, que acho que não se percebe mesmo nada....

TRECHOS INVOLUÍDOS DE POEMAS FUTURAMENTE ESQUECIDOS

 
TRECHOS INVOLUÍDOS
DE POEMAS FUTURAMENTE ESQUECIDOS

I. POESIA A PESO DE PENA

Sinto tanta coisa em tão parco espaço de tempo...
Sou plenamente consciente do fluxo de emoções que me assola.
Sou maravilhosamente incapaz de transmiti-las usando palavras.
Capaz disso eu fosse, dizer poesia não seria coisa que valha.

II. "QUEM ME ENSINOU A NADAR
FOI, MARINHEIRO, FOI OS PEIXINHOS DO MAR..."

Nada mais limitado e seguro que um peixinho no aquário. Nada mais liberto e perigoso que um cardume no mar. Todo o risco deste mundo está em se viver o coletivo. Todo o seu sabor também.

III. BRASIL, O PAÍS DO FUTEBOL

Afinal, que diabos nós poderíamos esperar de bom de um maldito burguês que joga golfe?

IV. PRIMEIRO TEMPO

Não acredito na existência efetiva do tempo desacompanhado de um relógio em funcionamento.

V. SABOROSO AMARGOR

Meus textos têm saído amargos como aquela verdura, como se chama mesmo? Espinafre? Mostarda? Chicória? Essas estão de bom tamanho para explicar-me o momento. Não é que, apesar do amargor, estou sempre a comê-las e apreciá-las?

VI. E NA PROCISSÃO DO DIVINO ESPÍRITO SANTO...

Nos dias de hoje, em plena cidade grande, ouvir o ranger malemolente das rodas dos carros de boi é, mais ou menos, como o retorno de Tarzan a Londres vitoriana.

VII. TONTURA ASTRONÔMICA

carrocéis
de uniVersoS
corrupiam
o meu chão

VIII. SEGUNDO TEMPO

....tempo
........praga morrinha
........a carcomer
........o capim-flechinha
........do meu pasto
...............até...............sobrar
.....................NADINHA

IX. GUERRA METAFÍSICA

Brigam matéria e antimatéria
Por uma fartura farta de miséria

X. ESCONDE-ESCONDE

E a alma que eu tanto buscava
Ainda brinca de esconde-esconde
Alma danada...
Enfurnou-se aonde?

Gê Muniz
 
TRECHOS INVOLUÍDOS  DE POEMAS FUTURAMENTE ESQUECIDOS

Crônica de ser normal

 
Não gostava de fazer pouco das pessoas. Só se ria á socapa quando aquela senhora mais cheinha e com ilusões desfeitas só por se cruzar com qualquer pessoa ao início de qualquer manhã, se arrastava junto a ele. Por isso achava se respeitador de todos. E por isso credor do boa tarde, e dos até amanhãs desmesuradamente falsos que todos os dias enchem o mundo. Mas um dia as coisas mudaram. Resolveu insultar pelo simples prazer de o fazer. Talvez por qualquer coisa que tivesse comido na véspera.
Fê-lo com o filho adolescente da vizinha do terceiro andar. O rapaz mancava um pouco. Devia ter uma perna mais comprida que a outra.
Num dia de manhã chegou se ao pé do jovem e disse lhe algo que ninguém percebeu. O miúdo ficou branco, a princípio conteve o choro, mas depois desfez se em insegurança com as lágrimas frias a rolarem lhe pelo rosto.
A coisa deu discussão. Arrastou se por alguns dias. E por isso foi obrigado a mudar se.
Hoje vive á beira de uma Horta. Sem ninguém com quem falar. A não ser duqs macieiras que já parecem mortas.
 
Crônica de ser normal

Quem Ama...

 
Quem Ama, não exige... não impõe.
Não faz exigências absurdas e nem te pede pra ser algo que você não é, pois se te Ama, Ama o seu jeito de ser e tudo aquilo que faz de você ser o que você é.

Quem Ama, não castra... não cerceia.
Não te impede de viver e te acompanha seja aonde for. Fica feliz com as suas conquistas e não se sente ofuscado ou diminuído pelo seu sucesso, pois não vive à sua sombra, mas sim ao teu lado à cada passo do caminho.

Quem Ama, não abandona... não trai.
Não te deixa sozinho, pois está sempre por perto nas horas certas e incertas mesmo não estando presente fisicamente, pois quando Amamos de verdade, trazemos a pessoa Amada dentro de nós. Quem Ama não trai, pois se sente realizado, satisfeito e feliz com a pessoa amada e não precisa buscar fora o que tem dentro de si.

Quem Ama, não fere... não falha.
Não faz coisas estupidas e idiotas, pois ferir a pessoa amada, é o mesmo que ferir à si mesmo. Comete sim algumas tolices e discute por coisas bobas que às vezes, podem se transformar em algo mais sério, porém, o verdadeiro Amor triunfa sempre, pois aquilo que poderia separa-los, nunca será mais forte do que aquilo que os une. O Amor, não se rende e não se deixa enganar... senão, não é Amor... é alguma outra coisa qualquer, menos o verdadeiro Amor que habita no coração de quem Ama.

Denis Correia
27/09/2011-14:21

Este texto que fala do Amor e de tudo aquilo do qual só o verdadeiro Amor é capaz.
Espero que gostem e que me perdoem por qualquer coisa, pois este é o meu primeiro texto postado aqui e ainda estou me acostumando.

Conheça outros textos inéditos de minha autoria:

Blog Terra dos Sonhos: http://sonhosdesperto.blogspot.com

Recanto das letras: http://www.recantodasletras.com.br/autores/denis
 
Quem Ama...

Quando ESCREVO...

 
Quando ESCREVO...
 
Quando ESCREVO...

Deixo partículas de minh'alma...
Nos textos que se materializam...
Transportando os sentires do coração!!!
 
Quando ESCREVO...

Palestra com paleta sem cores

 
Se eu começar a fumar, simplesmente ignorem-me. Luto por ser politicamente incorrecto, e nada melhor que subir a esta tribuna, e sacar de um cigarro. Estou consciente do meu trajecto enquanto ser que respira, e pensa às vezes. Já nasci, talvez seja este o meu apogeu, e não tarda nada começará o meu declínio. O círculo desenha-se lentamente, e fecha-se no dia em que se sente o clique. Segue-se a escuridão, e do lado de fora um lamentado 'desculpe, mas este é o meu dever. aqui estão as chaves'. Ninguém ainda me garantiu que morrerei porque antes deste cigarro, já me passaram milhares pelos lábios secos, e com certeza mais passarão. Quando sentir o ranger das cordas, nas quatro estruturas de pinho em meu redor, com certeza que não me porei a pensar que o meu fim esteve pré-definido no dia em que simplesmente disse que sim ao grupo, e comecei a fumar. Mas apetece-me hoje estar aqui a falar sobre isso com vocês, porque teorizar sobre o acto de fumar, é o mesmo que discorrer sobre o imperativo categórico de Kant. Impõe-se, e nada há a fazer.
Sobre o amor, é que as coisas não são assim tão fáceis. O amor nada tem de filosófico, porque é subjectivo. E se um filósofo um dia teimou com alguém que estava a ser objectivo, com certeza que não o fez pensando em amor. Lamechices são aquelas transpirações que escorrem do amor, quando este se sente acossado. Uma explosão do nada criou o universo, e uma implosão do tudo fará com que ele um dia, desapareça. O amor é precisamente o contrário disto.
Quando o tudo se sente pouco inteligível, difícil de ser percepcionado à maior parte das sensibilidades, então aceita que lhe chamem amor. As partes tornam-se escorregadias, quando um carácter é tomado pelo amor.
Falando em evolução do ser humano, o amor até ajuda. Continuaremos todos aqui, enquanto um homem e uma mulher continuarem a embeiçar-se um pelo outro. Mas e se as coisas, mais uma vez, funcionassem no oposto desta simplicidade. Se perpetuar, fosse apanhar o primeiro gâmeta oposto que nos aparecesse pela frente, e ao fim de nove meses nascesse um fruto dessa animalidade? O mundo nunca foi antropocêntrico, por isso o homem querer pintá-lo consoante os seus apetites 'racionais', não será um pouco abusivo?
O que nos rodeia, o feio que nos repugna, o belo que nos deleita, é evolutivo. O homem será um ser espiritual no dia em que perceber que nada pode fazer para contrariar esta realidade, E a morte é prova disso.
A medicina é um reflexo do 'não quero ver, para não ter de chorar à conta disso' humano. Serve só para adiar o fecho do círculo de que vos falei, e que pelas vossas caras não se encaixou na percepção axiológica do mundo que partilham entre vós.
Agora adeus, e lembrem-se de duas coisas. Primeiro, Deus existe para vos livrar dos vossos falhanços enquanto auto-proclamado mundo antropocêntrico. E segundo, a vida é gira, vista de perfil. Se a virmos de frente, ficaremos repugnados com a verruga que lhe pende do nariz.
Querem saber como se chama essa disformidade? Psicologia. Não olhem muito para ela, porque eu já tentei. E hoje ganho a vida a dizer às pessoas que elas são realidades que, não tarda nada, desaparecerão.
 
Palestra com paleta sem cores

porque a indecisão são dois dias interrompidos

 
O céu rebentava em pequenas flores carcomidas. Com o sol estático, em doses de admiração contida, o horizonte desfazia-se ao longe. Ácido o que parecia terminar com lágrimas de sangue a verterem para o rio de pérolas insanas que desmazelava caminho naquele final de tarde. As margens eram de ferro. Com pessoas pequeninas, que se envolviam em conflitos inodoros. Aplaudiam sem saber o quê, com o porquê de tentarem descobrir-se em pormenores resolutos, conversando. Desconversando. Insultando. Confluências de gerúndios com uma chuva insuplicante, que molestava a tábua de tortura reluzente do rio que corria para um fim deslocado.
 
porque a indecisão são dois dias interrompidos

Dedos gordos

 
Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito, gordos. Massas disformes, que tremelicam a cabeça ao sabor de incompetência quando martelam o teclado do computador.
A tua incompetência.
O que tu não sabes fazer pelo mundo que te cuspiu de um útero que já começa a ficar velho. Criativo, serás quando as sereias dormem. Na altura em que o mundo deixa de ter coisas interessantes para contar, e tu te agarras aos dedos gordos.
Dignos de confiança, serão. Talvez, controlar a cona purguenta de uma puta de esquina. Aí, não te saias mal. Caso te empenhasses.
Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito. Anafados, sem esperança de dieta milagrosa. Incompetência, definida à sombra do rodapé da cama onde te escondes, escreve-se com nuvenzinhas de banda desenhada.
Fluência em poderes fantásticos. Rodar o dedo, gordo, e mandar o prédio do presidente da câmara pelo cu do planeta. E tudo porque ele te aumentou a contribuição autárquica.
Peidares uma rosa florida, e com ela casares com a mulher divina. A gaja que fode com um milhão de homens desiludidos ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo come uma mousse de chocolate podre.
Arrebanha o par de pernas que te nasceu em dia de chuva, e anda. Pára só quando perderes esses dedos gordos. Criativo.
 
Dedos gordos

Confissão com propósito adiado

 
Marido - Apetece-me morrer bem.
Mulher - Já pensaste que isso é complicado, sem roupa nova.
Marido - Talvez. Mas já almocei. Comi bacalhau com grão.
Mulher - E de que esperas morrer?
Marido - De solidão. Tenho o coração a modos que a rachar.
Mulher - ....
Marido - Dizem que não dói. Sente-se só uma azia.
Mulher - Olha, vai começar as tardes da Júlia.
Marido - Vou à casa de banho. Se não voltar dentro de meia-hora, chama o cangalheiro.
Mulher - Levas revista?
Marido - Sim. O livro de cheques.
Mulher -....
Marido - Não contes com doações. Vou só rasgar as provas de que um dia fui pessoa.
Mulher - E lembras-te de que amanhã é feriado??
Marido -....
Mulher - Tenho as visitas do dominó. Não quero a casa a cheirar mal.
Marido - Talvez morra só depois de amanhã.
Mulher - Vai lá cagar. Não te quero com gases....
Marido - .....
 
Confissão com propósito adiado

O casaco, o feriado, e o ursinho

 
O casaco, o feriado, e o ursinho

A vitrine da loja coberta por uma fina camada branca de gelo, escondia dos olhos cansados do rapaz, que tentava sem sucesso, olhar através dela, os itens do mostruário. Envolto num casaco de lã, e quase sufocado com um cachecol preto, o rapaz, parecia até mais gordo do que realmente era. Tentando vencer o frio, enfiava as duas mãos enluvadas nos bolsos do pesado casaco; seu hálito saía como nuvens de vapor, e seu nariz estava vermelho como de um palhaço.
O inverno ainda não tinha chegado, mas, o mês de junho já sofria o frio intenso.
Miguel, se aproximou mais um pouco da parede de vidro enevoada, separando por poucos centímetros seu rosto do vidro.
Estreitando os olhos, conseguia enxergar do outro lado um ursinho de pelúcia rosa, abraçado num coração vermelho que trazia na orelha direita o selo de 9,99.
O rapaz contemplava o ursinho, quando, num ranger de dobradiças velhas, a porta se abre, revelando uma moça bela; vestida numa camisa de algodão amarela – uniforme da livraria- e uma calça legging preta; então pergunta, forçando um sorriso, mesmo sentindo as maças do rosto avermelharem pelo frio.
_posso ajuda, senhor?
_Não sabia que vocês estavam vendendo brinquedos? _Disse o rapaz, com o rosto ainda colado no vidro, sem se importar com a vendedora que o encarava.
Apertando os braços contra o corpo, tremula, a garota trocava o peso de um pé para o outro, fitando-o sem entende-lo.
_Não senhor, estamos vendendo apenas os livros _ seus dentes batiam um contra o outro, enquanto a voz saia entrecortada. Direcionando o olhar para a vitrine; lembrou-se das promoções que a loja estava oferecendo.
_Ah, o senhor fala do urso!? Faz parte da promoção; na compra de qualquer livro daqueles – ela apontava para uma pilha dentro da loja - o senhor leva um ursinho desses para a sua namorada.
_Mas o urso está com preço.
_Sim, é verdade. Mas este preço se refere aos livros... espere um momento. _ Entrando de novo na loja, pegou o brinquedo que estava de mostruário e arrancou a etiqueta de sua orelha – agora sim!
_Custa só 9,99 mesmo, né?
Impaciente e tremula de frio a vendedora falou irritadiça.
_Sim, senhor. É claro. O senhor não quer entrar, para ver melhor?
Miguel, sentiu-se um pouco constrangido , ao notar que a moça, lutava para conter os golpes do ar frio daquela tarde, enquanto falava com ele; quis perguntar, o motivo dela não está agasalhada, mas preferiu apenas assentir com a cabeça e segui-la até a loja.
Lá dentro, pilhas enormes de livros, estantes compridas cheias de clássicas obras enfeitavam o ambiente e enchiam os olhos do jovem.
A livraria era a única da cidade, mas era a primeira vez que ele entrava nela para comprar alguma coisa.
Começou a olhar cada titulo que permanecia empilhado no centro da loja.
_Na compra de qualquer um desses livros , o senhor leva um ursinho daquele!
Lá dentro, a vendedora havia perdido a aparencia aflita do rosto; dando lugar ao do alivio por sentir seu corpo se aquecer novamente dentro da loja abafada.
Passando a mão sobre um livro, de capa ilustrada; pegou-o e começou a folheá-lo; Miguel amava aquele autor, e sentiu-se grato por encontrar um titulo dele em promoção.
Vou levar um desses. Disse, com um ar satisfeito.
_Muito boa escolha, machado de Assis é realmente sensacional.
_ Pode se dirigir ao balcão, eu vou pegar o seu brinde. _Miguel, nada disse, mas seguiu para o caixa indicado.
Outra mulher mais velha, de cara emburrada, falava ao telefone, quando o rapaz se aproximou. Ele colocou o livro no balcão e esperou.
_...Escuta aqui, minha senhora, aqui é uma livraria, não a casa da sua vó; se não quer nenhum de nossos livros, então não tenho como ajuda-la; passe bem! Tchau! _O rapaz, pareceu meio desmantelado com a ação da atendente.
_É cada sem noção que liga aqui! _ desabafou a velha _ não sei o que essa gente pensa; onde já se viu, pedir para que eu narre as historias de cada titulo. Francamente. Virei algum Cide Moreira, por acaso?
Antes que o rapaz respondesse alguma coisa, a velha continuou. _ Estou vendo que uma jovem irá ganhar um belo presente hoje. Ótima escolha. Isabelle! Onde está o brinde do rapaz?
Aquela mulher era mesmo uma figura, Miguel, não sabia se ria, ou se sentia-se ultrajado com os modos da Senhora.
Saindo de uma porta que ficava nos fundos da loja, Isabelle trazia um ursinho idêntico ao do mostruário.
_Aqui está, senhor.
Seu rosto, estava levemente corado; Miguel supôs, que talvez fosse constrangimento por causa da velha.
Obrigado! Foi a única coisa que disse, enquanto via a vendedora se afastar. A velha, da mesma forma , fitava Isabelle, enquanto tomava uma ar pesaroso.
_Menina tão boa! _Suspirou.
_Hã?
_Estou falando de Isabelle._a velha parecia irritada com a desatenção do rapaz. _Tão trabalhadora. Gostaria tanto de ver a pobrezinha ganhando algum presente. Talvez um ursinho, assim, como este que o senhor está levando. Mas como ela vai ganhar se nem namorado a coitada tem. Imagina só, toda vez que algum casal entra aqui, e adquire um dos nossos produtos que está na promoção, ela fica suspirando pelos cantos, desejosa por um amor que lhe faça companhia nesse dia dos namorados.
Sem a menor ideia do que dizer, o jovem apenas assentia com a cabeça, enquanto sacava o dinheiro.
_Obrigada._Disse derrotada.
Indo em direção a saída, parou um instante, e encarou a garota que organizava alguns livros numa estante qualquer e se aproximou.
_Fique com o meu casaco. Está muito frio lá fora.
A moça ficou sem reação, mas aceitou o casaco.
E assim o moço desconhecido, se afastou calado e abriu a porta transparente, partindo para o frio do outono.
Caminhando pela rua, Miguel, sentia seu corpo gelar, de tal forma, que nem um pesado exercício iria faze-lo aquecer. Tentava de todas as formas, arrancar da mente o pensamento de ter sido estupido, ao ter falhado no que realmente queria naquela loja. O moletom que usava, não era suficientemente capaz de protege-lo do gelo da tarde, de modo que, ele caminhava pela rua encolhido. Eram quatro horas da tarde, e a cidade continuava movimentada, de vez em quando, topava com algum casal que caminhavam abraçados, indo para algum lugar, afim de comemorarem o dia deles. Miguel, apertou o passo para casa.
Enquanto o jovem se afastava para longe, a garota que se chamava Isabelle, olhava-o ir embora.
Um meio sorriso involuntário surgiu em sua face.
_ Obrigada. _disse baixinho.
E fechando de novo a porta, voltou para dentro, sentindo o forte cheiro do perfume impregnado no tecido. Apertou com força sobre o corpo, sentindo a maciez e a quentura agradável.
Desde a parte da manha, a garota havia se martirizado, por ter ido para o trabalho sem alguma roupa mais pesada, convicta de que o dia seria de calor; pobrezinha, assim que o sol havia alcançado o topo dos prédios, um vento gelado havia soprado com força, trazendo consigo densas nuvens carregadas, que foram suficientes para fazer garoar durante o resto da tarde e mudar radicalmente o clima.
Quando a noite chegou, a bela moça, agradeceu em silencio mais uma vez o rapaz que lhe havia emprestado o casaco, ao mirar a rua, agora vazia e silenciosa, que era tomada por uma fina garoa intermitente. Pensou consigo mesma, se o dono do agasalho iria realmente voltar para pega-lo de volta.
O dia dos namorados estava chegando ao fim, para alguns, havia sido um dia especial, com jantares românticos, luzes de velas, e declarações, mas para Isabelle, era apenas mais um dia qualquer como outro. Caminhava devagar, respirando lentamente, sentindo os pés gelarem dentro das meias. Enquanto fazia seu trajeto, ficou pensando no rapaz, que era bonito de aparência, também ficou imaginando o que a namorada deste, iria dizer ao receber um ursinho de pelúcia enquanto outra havia recebido o próprio casaco do sujeito. Pensando assim, começou a acreditar que seria muito provável o rapaz aparecer no dia seguinte pra buscar sua roupa. Assim, se apressou para casa, perdida em pensamentos.
Quando o dia enfim chegou, Isabelle estava na loja, desta vez, vestida com uma pesada blusa de lã que lhe cobria até o pescoço.
O dia todo ela havia mantido seus olhos sempre atentos para a porta que abria trazendo um cliente novo a cada meia hora, para sua tristeza, nas dezoito vezes que algum freguês entrou, nenhum era o que ela esperava ansiosamente.
Isso se sucedeu durante uma semana, em todas elas, Isabelle acreditava que Miguel iria aparecer para reivindicar o que lhe pertencia. Mas nada aconteceu. No fim das contas, começou a pensar de que o favor que o rapaz havia prestado, deveria ter suscitado alguma briga por ciúmes, entre ele e sua namorada.
Isso a deixou um pouco perturbada, e até mesmo triste, pois jamais desejaria ser o motivo da separação de algum casal, além do mais, no dia dos namorados. Assim, sempre que as horas e os dias passavam, ela desejava que o rapaz aparecesse, para agradecer, e dizer que sentia muito se alguma coisa havia acontecido por causa dela. Mas ele nunca aparecia.
Quando Isabelle, já não estava se importando mais com ele, ou com o casaco, a porta da loja se abriu mais uma vez, era noite de sábado, ela como sempre organizava uma pilha de livros, e uma menina de aproximadamente seis anos, havia entrado.
A moça, meio irritada pelo barulho, virou-se para ver quem era o cliente espalhafatoso, então viu a figura do rapaz que semanas atrás havia sido gentil. A criança, segurava a mão dele e fitava ela com seus olhinhos meigos.
_Olá _ disse ele dando um sorriso.
O coração da garota, de repente pareceu querer saltar pela boca. Nem ela sabia o que estava acontecendo, apenas sentia-se completamente feliz e nervosa em rever aquele homem.
_Olá. Disse meio sem jeito, tentando desfaçar a alegria que lhe corroía por dentro. Até que enfim, ele havia aparecido!
_Eu vi buscar meu casaco. Eu deixei com você há alguns dias atrás...
_... dezesseis dias! _ Interrompeu.
_Que?
_ Eu disse, dezesseis dias. Esse foi o tempo que seu casaco ficou comigo. _ Isabelle, tentava sem sucesso ser carismática, coisa que de fato não era. _ Só um minuto. Vou buscar.
Enquanto corria para dentro da porta que ligava para o estoque, o rapaz, apenas olhou para a pequena menina que segurava sua mão, e deu uma piscadela.
Em minutos, Isabelle voltava, com o escuro agasalho, que ainda tinha o cheiro do perfume dele.
_Tome, aqui está. Ah, e obrigada. Quebrou muito meu galho.
Miguel, olhava no fundo de seus olhos, encarando-a. Parecia admira-la em silêncio, então tomou coragem para falar.
_ Você vai fazer alguma coisa hoje a noite. Gostaria de tomar um café comigo e minha sobrinha?
Foi então que Isabelle, percebeu a presença da linda menina que a encarava com sua aparência ingênua. então começou a compreender, aquele dia em que ele havia passado pela primeira vez lá. Nunca tinha existido nenhuma namorada, o ursinho sempre havia sido para a garotinha, e o livro com certeza ela para ele mesmo. Seu coração acelerado, pareceu pulsar ainda mais forte, um peso enfim tinha saído de suas costas. Pois, então nada de ruim havia acontecido. Nenhuma briga. Nada.Não existia namorada.
_Eu trabalho a poucos metros daqui, e sempre passei nessa rua. Todos os dias eu te via trabalhando, mas nunca tive coragem de te pedir para sair e nos conhecer. Quando enfim, enchi-me de coragem, inventei a desculpa de comprar um livro, aproveitei para ganhar o ursinho que daria para minha sobrinha _ olhou para a menina ao seu lado _ Mas, na hora que ia te convidar, a coragem havia ido embora, então lhe emprestei o casaco, para poder voltar e aqui estou, depois de muitos dias. _ confessou.
Isabelle agora estava de boca aberta.
Miguel, ainda a encarava, seus olhos pareciam duas pedras negras.
Um silencio se propagou no ambiente, quando o rapaz, percebeu que a moça nada iria dizer, deixou o semblante cair.
Me desculpe, eu sou mesmo um idiota. Me desculpe. então começou a se afastar, pegando a sobrinha no colo.
_Espere! _interrompeu a garota. _Eu gostaria muito de poder tomar um café com você, aliás, com vocês.
_verdade mesmo? _ Miguel parecia não acreditar.
_Sim, a verdade é que desde o momento que você entrou pela aquela porta, senti meu coração bater mais rápido!
E assim os dois jovens, com os olhos carregados de alegria, olhavam-se esperançosos, acreditando numa possível historia que se iniciava naquela livraria. A noite então caiu de vez, a loja foi fechada e ambos saíram conversando e rindo muito. Miguel com a sobrinha no colo, e Isabelle ao seu lado.
A velha do caixa, que em nada se intrometia, foi a ultima a sair. Olhando para os dois que se afastavam, disse para si mesma.
_Eu sabia que este rapaz iria voltar. _então trancou a loja e começou a caminhar devagarzinho pela rua, sentido oposto, cantarolando uma cantiga velha que os casais do seu tempo costumavam recitar uns para os outros.

Fim.
 
O casaco, o feriado, e o ursinho

Um problema que não chegou a ser

 
Foi o vício. Nem tanto o deboche. Antes o anafado sentimento de ser tudo, quando os outros nos chamam cenário que esteve perto de acontecer. Foi a perfídia de ser inútil. Coisas mal apessoadas, arraçadas de besta. Ornamentos invisíveis a pentear o desleixo. A falta de atavio dos derrotados das 23h59. As pessoas que nem chegam a ver o dia nascer e morrer em meio segundo. Punha-me em desnível de consciência se aceitasse o que se passou como inevitável. Foi mesmo mau. Mas um mau mais ou menos. Das plenas realizações dos empreendedores, quando lhes tiram a certeza de que o mundo são eles sozinhos. E nunca uma soma deles todos juntos. Mas por menos bom, optei pelo seguro do sentir-me mal.
 
Um problema que não chegou a ser

SOBRE COMENTÁRIOS

 
Comentar é uma arte, como tal, requer cuidados. Poucos sabem valorizá-la, usufruir dessa oportunidade. Através de um comentário conciso e inteligente, surgem oportunidades de se adquirir e repassar conhecimento. Não a desperdicemos, com apenas, postagens de GIFs e similares... Dediquemo-nos a desenvolver os textos e contextos que, nos são apresentados, valorizando-os – é ótimo exercício -, chamemos a isso: investir, jamais perder tempo. Incentivo ao leitor, a desenvolver o seu senso de argumentação, de crítica; convido-o a interagir com o autor. Quando isso acontece, os dois lados tendem a lucrar. É assim na vida, através do diálogo, gostaria que o mesmo acontecesse, quanto aos leitores.
Diz-se muito com poucas palavras - é verdade - e, até sem nenhuma delas – concordo -, usando GIFs e/ou imagens.
Muitas vezes o leitor teme interagir com o autor, isso não deveria acontecer. O conhecimento está ao alcance de quem sente a necessidade de obtê-lo; no conforto do lar. A Internet é uma faculdade, vale a pena pesquisar. Desconhecendo-se um vocábulo, sugiro não deixar para trás; apressemo-nos em conhecê-lo e, colocá-lo em prática, para não esquecer.
Devemos, antes de todos, a nós mesmos a instrução; para que possamos repassá-la aos leitores. Presente por nosso esforço em proporcionar-lhes o nosso melhor.

EstherRogessi,Recife,25/09/2012

http://www.esther.recantodasletras.com.br/audio.php?cod=50742
 
SOBRE COMENTÁRIOS

Presente

 
Sempre fomos assim. Os mudos desta rua. Costumávamos sentir orgulho na união com que os minutos se desfaziam à nossa frente, quando concertadamente fazíamos tudo para que o tempo não saísse do círculo concêntrico de copos de gin que se esforçavam em acompanhar o ritmo frenético do póquer. O ar era cinzento, porque o queríamos. As coisas não eram coisas, mas sim insignificâncias, porque não fazia sentido qualquer outra coisa. E assim permanecia a lufa-lufa indiferente de tratar as frases que debitávamos pelos nomes opostos ao que elas aparentavam ter. Até que fomos passado. Aconteceu num fim de tarde diferente. Ligeiramente diferente do tique-taque insano do tempo que nada fazia. Faltou-nos a voz. Deixámos o amor, para ter a parcimónia como nota de rodapé da forma como nos gostávamos. Entre abraços chorámos sem lágrimas. Escrevemos poemas para que aqueles momentos se esgotassem e assim pudéssemos ir mais cedo para casa procurar abrigo nos quartos de chumbo onde nos consumíamos ao som de bêbedos melódicos que ainda eram quem nos mantinha vivos. Ficámos, na realidade, os mudos da rua. E assim foi o compromisso de nunca mais voltar a falar. Indecifravelmente incapazes de decidir por algo diferente, assim se fechou o pormenor que torna tudo isto assim tão incolor como a chuva que pinta de sem cores a rua que serve de cama à inocência morta de saber que a vida pesa, porque se desfaz em equívocos....
 
Presente

Cem textos, cem!

 
Chegando aos cem textos
Por aqui
Só posso pensar que essa soma
É de grande valia
Expor meus pensamentos
Minhas idéias
Meus momentos...
Cem, sim
Uma marca esperada
Cem segredos
Mas sem amarras
Cem textos, com o coração
Sem inibições
Cem vitórias
Sem medo de falar
Mas sim, com o pensamento livre
Para expressar...
Nessa marca cheguei
Muito esperei...
Mas feliz com isso estou
Meus amigos finquei
Aqui deixo meu abraço
À todos que até agora me acompanham
E que por muito tempo fiquem
Nessa companhia gostosa
Quero ficar
Amigos são doces
Que adoçam o coração
E assim fazem a minha emoção
Brotar e escrever mais e mais...
Para vocês, doces queridos, amigos...
Uma chuva de mais cem textos
Pela frente
Aí, vou eu...
Procurando melhorar passo a passo
A minha colaboração
Nesse lindo site
Que já é do coração!

Homenagem aos amigos que me acompanharam por esses cem textos, até agora...Um abraço à todos, meus queridos...
 
Cem textos, cem!

Assexuado

 
Desencaixou a carne do sémen. Era um desejo desenxabido que se escondia, que prendia os rebordos soltos da pele apodrecida.
Sentiu-se livre. Frugal, mas liberto para calcorrear a estrada. E se tinha cascalho debaixo dos pés.
Poeira e desejo de decompor um homem inexacto. Miúdo com pessoa madura dentro. Feliz por ter que desbravar. Desamparada a aspiração de retalhar a tristeza que apunhalava o canto esquerdo do coração.
Era uma doçura, que sabia mal.
Viu a mãe, que lhe deu um carolo violento, e prometeu que o queria a trabalhar se não desmanchasse tardes de desejos reprimidos. Abandonou-se, para reencontrar o brilho autonómico que estava perto de lhe tombar dos olhos, e cair na terra assexuada.
Andou, desandou, e o homem sem sair. Pelo meio, umas quantas fémeas que não reportaram nada de importante. Brotaram, em desconsolo, sedes de rios de sangue.
A família já eram raízes de árvores necrófagas, que desencrustavam da terra assexuada, procurando alimentar-se de carnes desavindas.
A madrugada serviu para cantarolar um desejo de eternidade que nunca chegará.
E o rio corre, prometendo enxaquecas.
 
Assexuado

Até é boa pessoa....

 
Não me importo de esperar uns segundos depois de a lâmina entrar. Dá-me gozo, confesso. É dificil de explicar. Mas acho que se recorrer à minha recém-adquirida capacidade de poeta das emoções, consigo descrever a sensação como um 'flash'. Desde o primeiro milésimo de segundo, até que a última gota de sangue toca no chão, uma pessoa deixa de responder por ela. Não é que não se saiba o que se está a fazer. Sabe-se perfeitamente. Mas quem já me ouviu falar sobre isto, sabe perfeitamente o que eu quero dizer. Não pensem que eu tenho problemas em falar sobre aquilo que faço na vida. Se me tivessem que prender, já me tinham apanhado. Por isso, agora ando descontraído. Restam-me as memórias. Eu lembro-me da primeira vez que 'apaguei' um gajo. Foi para pagar uma dívida de jogo. Disseram-me que teria de ser rápido, mas de preferência com bastante dor. Eu não fazia ideia do que estava a fazer. Dás um punhal de fuzileiro a um miudo de 16 anos, e pedes-lhe para ele cortar o pescoço a um homem feito. As possibilidades de sair asneira são grandes. Mas eu safei-me. Lembro-me foi de ter deixado um rio de sangue atrás de mim. O tipo era gordo, e eu rasguei-lhe as duas carótidas para aí com uns quatro golpes. Ganhei uma pipa de massa. Hoje já não ganho pipas de massa. Digamos antes que ando a fazer o meu plano poupança reformado. A última contribuição depositei-a ontem no banco. Espetei uma lâmina minuscula, mas mortal, nos rins de uma senhora. O marido não suportava o peso que tinha na testa.
 
Até é boa pessoa....

Textos longos quem os lê ?

 
Frases curtas e objetivas
Cabem em nosso olhar,de uma assentada.
 
Textos longos quem os lê ?

Ressuscitei-te Maria

 
Ressuscitei-te Maria. Regurgitavas numa poça de água fétida, em tarde de balanços metafísicos de existência.
Com o dedo do amor.
A extensão concreta da vontade do poder criador em fazer de mim um entrave à felicidade cozinhada. Foste tocada na alma, e abriste suavemente os olhos.
Lembro-me que te banhou uma gota de chuva ácida. Nem de meias medidas te deixaste assoberbar por uma tarde eléctrica. Um final de dia com a banda sonora do vento zangado, e o enredo de irritação divina.
Ainda de joelhos, reparei que a minha vida iria mudar. Tinhas deixado de ser um espírito de compromissos.
Cheiravas com o apêndice de um alma revigorado. Ouvias o que eu nunca pensei que a natureza pudesse albergar.
Já em bicos de pés, amaldiçoaste o que tremeu o mundo.
Sim, pensei ter sido Deus.
Senti-o da forma mais errada possível. E tu pediste de novo para morrer.
Desta vez com um penso rápido na alma. Para evitar pronunciamentos de personalidades como a minha, que extravasam competências que nunca poderão vir, de facto, a ter.
 
Ressuscitei-te Maria

Oniricozinho

 
Sentir o dia a esvair-se, com os dedos dos pés massajados. Os lábios, pelos lábios, o humedecer de uma bebida ordinária. Do que acidifica o estreito, com borbulhas. Com restos de nenhuma honra. Cássia será a partida para novas definições de estilo. Gosta do que as coisas deixam de erótico. Quer seja a vida real a ensinar, quer sejam os sonhos a preto e branco a transformar tudo numa sopa de letras partidas, aquecidas num pequeno fogareiro a petróleo. Aprendeu a repousar em cima da almofada da esperança, e que esta a ajude a esperar. Faz sentido, porque as coisas têm mesmo o seu tempo de acontecer. A sociedade evolui, porque as pessoas gostam de se confrontar. E há-que saber esperar, pois tudo vem no momento em que tem que ser. Nem antes, nem depois.
Já começou, e ela sabe que sim.
Por isso, espera com as mãos debaixo dos sovacos, e cumprimenta o tempo que passa com um sorriso, entremeado com uma lágrima. É a sua maneira de sorver a energia das estações, por todos os meios de fuga que uma casa tiver.
Cássia gosta que lhe diagnostiquem pequenos problemas existenciais em função do que faz questão de mostrar. Se é o que sempre foi, e nunca será aquilo que os outros querem que ela tivesse sido, para quê forjar cenários de extinção de relacionamentos?
Para isso, diz quem sabe, já existe a poesia. Que nos serve o almoço, o jantar, a ceia, e no fim ficamos com uma fome de sentimentos, que nos apetece logo o pequeno almoço.
Mas é um mundo de finos cabelos soltos. Basta um acariciar descomprometido, duas rajadas de vento em final de Outono, e a bruma cai. Desconjunta-se uma valsa, para do desperdício renascer uma cantoria desfeita. Cássia deixa-se então arder no ar quente da indecisão, e faz de si também a bruma.
Cássia é um sonho mau que já passou. A vida recomeça para quem gosta de Cássia. Eu detesto-a, por isso esqueço que algum dia desejei ser uma leve nota de música na boca infernal do conceito que ela foi.
 
Oniricozinho