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Poemas, frases e mensagens de ALFREDO ROSSETTI

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de ALFREDO ROSSETTI

VERSO GUARDADO

 
Algum gênero de silêncio reina
na manhã. Um verso altissonante
repousado em recôndito, entapeta
a luz. Égide contra a palidez
solar, dos minutos anêmicos,
engendrados à revelia do que se queira.
O verso guardado, no seu casulo,
quando preciso, bálsamo,
será o viço, foz aos ouvidos
dos homens, semeio.
Como o conhecimento, soprador.
 
VERSO GUARDADO

DESCONFORTO

 
Escrevo um verso taciturno
dentro do erro desta hora.
Indesejoso de ser noturno,
não voa
não tem olhos para a lua,
somente ímpetos de se ir embora.
São os eternos vetos ao meu coração
ou me roubaram a aurora?
 
DESCONFORTO

BENDITO VENTRE

 
Leve como a água
que se tem na sede,
livre como a asa
que se tem no sonho.

Belo como o canto
que se tem silêncio,
breve como a vida
que se tem no porto.

Brilhante como o azul
que se tem no amor;
o milagre da fonte
que se tem na mulher:

o momento na terra
que se tem arco-íris,
a luz no corpo que gesta
o que se tem em gênese.

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BENDITO VENTRE

POEMETO 22

 
A palavra fia meu rumo.
Tange minhas escolhas, me efervesce.
E quando noite em mim,
Mesmo às vezes pálida, me amanhece.

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POEMETO 22

A BOMBA

 
Uma bólide acende o céu do Iraque.
Varre as letras dos jornais, as casas, as vozes
enfraquecidas. Causa a euforia dos ratos,
nos esgotos dos templos. Irrompem os olhos
vacilantes. Irresolutos, e ainda
chamamos a estes gerados da mídia,
de existência. A obra do fanatismo
chega peremptória. Chega e submete
o estertor coração enfermo
de uma liberdade assemelhada
à cortina lenta do teatro de fantoches.
Não há causa possível que abarque estas
longínquas mimeses da loucura.
Nada presume raciocínios humanos,
a não ser na constatação de corpos
estraçalhados, caleidoscópio de postas,
porta-fólio de aço e pele, retorcidos
em dogmas consabidos e consagrados,
de princípios absolutos, de salvação.
Como perscrutar o amor nesta seara
da demência, neste lodo sem luz? Assim,
nos endurecemos ao sol da indignidade,
enquanto a bomba detona nos seios dos homens.
E no colo de Deus.
 
A BOMBA

A LUZ

 
Gosto quando vens mansa, sem o gosto da pressa.
Vens cálida, chorosa. Vens como a brisa da manhã
que se despertou inteira. Gosto assim,
de corpo, alma leve, folha ao vento. Gosto
quando vens direta, mas passas por céus
entre nuvens brancas, como esta sensação
de que vens a mim como o dia.
Gosto quando vens enigma,
sem aviso, sem palavras que afetem
as mãos, sem pele nem flor que rubre
o coração. Gosto quando vens alegria, e chegas
mantra refrescante, semeando raios
de um sol próprio, pequeno calor que não me agita
nem me expia. Assim, como um nada, para
o qual não se pede som, poema, nenhuma chave,
nova estrada. Quando vens, sequer preciso de mim.
 
A LUZ

QUASE SEMPRE

 
Ao poeta, que se diga que minha
pátria é a lágrima. Generosa,
se oferece e não deixa que me sinta
brasão. Desnuda-me quando veste
os instantes em que minha emoção
vira fronteira para qualquer
realidade ou do que se preste.
Traduz o riacho de Smetana,
a morte por delícia em Veneza,
a visão de uma gare, o eu
menino tocando gaita, o beijo
final, do mármore quando ajusta
a beleza, o Sermão da montanha,
a pele enrugada pelo sol grego
e o relembrar de amor do cheiro
da pitanga evolando-se no quintal.
 
QUASE SEMPRE

NA NOITE

 
Na noite,
o beijo é mais demorado,
máscaras coloridas, vivas, tênues.

Na noite,
os corpos são iluminados.
Olhos de gato e águia, ternos.

Na noite,
os pecados são imperdoáveis
solidão muda, doce, mais bela.

Na noite,
os becos tornam-se mais claros;
multidão estranha, silenciosa,
eternidade de atos impuros.

Na noite,
a vida é como um raio.
Não de luar,
um raio de cores insanas, atávicas.

Um raio doído.
Um raio de amor
 
NA NOITE

O HOMEM DESTA MANHÃ

 
nos olhos fundos
de cada um
no mundo do olho
de cada um
que pudera

no orvalho
que insiste
no triste
ovo que gera

mostra o mundo
da palavra mera

o homem atrás
do pano de fundo
no limoso poço
- cratera -

olhar profundo
nos olhos tristes
e corcundos
a dor jacta:
a dor da era;

olhar santo
de tanto fundo
que na pele atraca
a funda espera

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O HOMEM DESTA MANHÃ

DADIVOSA

 
A vida, louvor ou chiste, concedente
de tudo que podemos alcançar.
O destino, em riste, olha em nós répobros
ou eleitos, com mel e imposições.
Fartamo-nos de feitos.
Marejando numa simples rima
ou respirando o ocaso do viver
infausto nas grandes navegações.
A vida nos carrega da grandeza
de sermos máximos em nossas limitações.
 
DADIVOSA

BAILADO

 
A folha sustenta no azul a vida
que tenta. Vejo com a boca aberta
à conclusões; rumo ao sem rumo,
que abisma um não inexcedível.
Instante agônico que constrange
a luta sem força bruta do vento
mecenas, que permite ao tempo
derradeiro que a dança da folha
espalhe poesia no terreiro.
 
BAILADO

SAUDAÇÃO

 
Quando passo pela rua
quero dizer aos cantos,
ao livre arbítrio da fealdade,
esqueletos das febres,
aos homens que sobrevêm:
- Largue esta Cruz! Vá Viver!
Mas eu digo: - Bom dia!
trovando o ditongo
entre dentes de barricada.

Não há comunhão
no momento que é de
acuidade do que há sob o sol
e meus instintos todos
mundo afora a colher
palavras para um papel
de gesto lívido,
sobreposto de mudez.

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SAUDAÇÃO