Cabem no meu corpo todos os rios do mundo
Cabem no meu corpo todos os rios do mundo
Trago-os nos sulcos da pele, como vida nas mãos
Com os que já morreram e com os que em mim ainda irão nascer
E tocando-lhes, percorro-os com os dedos
Seguindo novos caminhos, novos sentidos
Pois cada ruga da minha pele é água e terra
É corrente e paisagem da vida que vivi
Sinto-lhes o norte, o sul, e sei para onde vou
Assim será até ao dia que morrer, e se entretanto me olharem
Se de mim falarem, não digam que sou velho
Digam antes que sou um coleccionador de rios.
Podia chover à tua porta
Nesta cimeira de nuvens, podia chover à tua porta
Inexplicável, o silêncio avança em nós devagar
Lentamente suspende as mãos despidas, de lágrimas
Como por magia revela um adeus entre fios de luar
E balança, à tua porta, balança à tua porta, balança
Estranho este constante sentimento de perda.
São nuvens sem chuva preenchendo o céu de cinzento
Vêm vazias, mostram-se frias e afastam-se
Como todas as despedidas sem palavras.
Fortuna
Os anos passaram e tive a sorte de envelhecer muito depressa
De ficar velho ainda novo
A tempo de voltar a ser criança
Um pouco antes de ficar velho.
Forma de cair
Não há outra forma de cair
Senão a forma que a vida mostra
Nem outra maneira de viver
Do que aquela que cair ensina
Quem isto entende, tem como endireitar as costas
Seguir em frente e levantar a cabeça
Porque depois da queda, o momento em que ergue o corpo
É todo força, movimento e vida
Não se pode viver curvado
Com uma visão deformada das coisas
Abrir os olhos ao acordar, é natural até morrer
Mas acordar não é viver
Nascer é estar vivo, até porque nascer todo o homem nasce
Só que estar vivo não é viver
Viver é movimento somado à vida, à existência
É atrito, é sentimento, é uma química que acontece na alma
De alguém que cai e depois se levanta
E sem mágoa, cresce pelas cicatrizes do corpo
Para elevar o patamar do mundo.
Amanhecem Girassóis
Amanhecem girassóis.
Reguei a terra pela manhã
Com o sol que trazias na mala
E tu acenaste para Deus
Deus gostou de te ver
E fez amanhecer os girassóis
Aproveitei que Deus estava contente
E pedi-lhe muita madeira
Vou construir uma casa no campo
Para morar contigo no coração
Passaremos as tardes juntos
A ver o vento ir de encontro a tudo
Ao longe, na estrada
Passam as luzes de um carro velho
Anoiteceu e os girassóis amanhecem
Porque tu tens o coração cheio
E ninguém pode tirar-te esse amor
A não ser que o queiras dar
Vou plantar nuvens no quintal
Ao lado dos girassóis
Para que possas estar no céu junto a mim
E nunca mais o mundo te vai perder.
Deus disse-me que o mereces
E que gosta de ver-te a seu lado.
A busca inglória da felicidade nas paisagens estéreis do mundo
Desejar ser feliz é o caminho mais curto para a angústia. Idealizar o conceito de felicidade em algo ou em alguém é castrar a própria possibilidade de ser feliz. Quando alguém define, escolhe ou estabelece um objecto ou uma pessoa como imperativo para ser feliz, coloca-se na delicada situação de dependência externa para alcançar o fim. O simples facto de estabelecer uma meta, de definir um ponto na paisagem estéril da realidade como imperativo para atingir qualquer estado de espirito, no caso felicidade, coloca a pessoa perante a condição dual de alcançar ou não o propósito desejado, e a partir desse momento, depende da dualidade em que se encontra e tem a sua acção também condicionada. É, assim, quando ajustada ao propósito, o desejo de felicidade, que a própria manifestação existencial se castra da sua expressão natural e livre, ou seja, do objectivo da felicidade materializado em algo externo ou colado a alguém, resulta apenas uma busca inglória destinada ao fracasso. Isto acontece porque, ao se impor um estado de espirito à natureza humana, anula-se a própria natureza humana pela determinação consciente de que, o objectivo, está ao alcance da busca. Colar o conceito "felicidade" a algo ou a alguém, é anular o controlo que se detém sobre a existência e sobre a felicidade, pois esse controlo fica delegado a entidades exteriores que não podem ser controladas. A felicidade esconde-se nas coisas simples, resume-se à existência, ao universo de cada homem e das suas escolhas. O aceitar a existência, a vida, a morte, aceitar o caminho, o chão, a linha continua da alma, e fazer tudo isto sozinho. Aceitar a felicidade, aprender a aceitar, é escolher ser feliz. É tornar-se aquilo que se já é.
Nada se realiza sem a fundação sólida da base. Nada se forma a não ser da essência do que já é e da do que se quer formar. O próximo segundo é a continuação do actual, a realização assumida do que ainda não aconteceu. A busca inglória da felicidade nas paisagens estéreis do mundo.
Quantas gaivotas sobrevoaram os meus pensamentos
Agora o mar, não o mar dos petroleiros que passam ao largo
Nem dos barcos de pesca ancorados no cais
Mas o mar, aquele da minha memória
Quantas gaivotas sobrevoaram os meus pensamentos
Aquele riso salgado na boca, aquele mar
A lua e os reflexos prateados nos olhos
Que doíam de tanto olhar
Quantas ondas morreram na praia desde esse mar
Até aos meus cabelos brancos de hoje
Quantas gaivotas voltaram aos meus pensamentos
Agora a vida, esse mar, a sua imensidão, as suas correntes
Todo ele ficará mergulhado no meu esquecimento.
A água cai e fertiliza a terra
A água cai e fertiliza a terra sem explicar como nem porquê
Assim nasce uma vida enquanto realizo o mundo inteiro
E sinto na planta dos pés esta verdade universal
Nos primeiros passos que dou a descobri o passar das horas
A imaginar o passar dos dias e a inventar o passar dos anos
Vivendo breves metamorfoses
Numa directa existência rumo a um vazio memorável
…
Do nada nascem poemas
E nascem jardins entre prisões
Da liberdade nasce uma brisa que suave me toca o corpo.
Vivo breves metamorfoses sem me conhecer
Vivo outra vez
Mas estranho-me sempre nas úlceras do tempo.
…
A água cai e fertiliza a terra sem explicar como nem porquê
Nascem jardins entre prisões enquanto realizo uma dor.
Quero-me através do tempo como se fosse hoje falar de mim
Para não me esquecer que vivi.
Palavras definem palavras
Palavras definem palavras e mentes e formas disformes
Por assim dizer, distantes da palavra inicial.
Existem em mim, dissecando extensos e dispersos sentidos
Palavras expostas com acessórios de estilo
E existem de forma única em todos os meus compostos.
Palavras definem palavras, justificando a sua existência
Na aparência supérflua que as distingue
Da palavra decomposta
Pela singularidade e injusta posição dos plurais
Com os seus fatos feitos por medida.
No comprimento da palavra
Na fita métrica das sílabas
E nos outros que sempre me cabem
Sendo as palavras que os vestem, sentidas
Sendo as letras que as cosem reais
Existem de facto em mim.
19.06.16
enquanto existimos somos tão pouco, somos apenas um pouco mais do que nada, e isso é ser muito...somos o aroma que a nossa essência liberta em comunhão com o mundo...tocamos, sem realmente tocar, somos tocados, sem verdadeiramente o sermos, estendemo-nos fora de nós e do limite do que é físico, chegamos além do que compreendemos e a este alcance, chamamos sentimentos...somos o aprendizado que deixamos, o compêndio final do que fomos e que ficará no tempo, para ser lido quando não precisarmos dos olhos para ver...estamos e permanecemos agarrados à hipótese de existir sem nunca a experimentarmos, sem nunca nos testarmos por dentro...fora ela, a hipótese, somos tudo, tudo o que está fora da consciência da nossa acção e do seu alcance, todos a quem o aroma da nossa essência envolve e nos são perfeitos desconhecidos, o tudo que somos e não entendemos, e que só entenderemos, quando suprimirmos este desejo de ser a qualquer custo que nos cega o coração.