Banha da Cobra
A horda de bestas assassinas
Atacam ferozes por todo o lado
Os alvos defendem-se fugindo
Pelas pradarias metálicas e campesinas
Procurando uma flecha ou um dardo
E pedra a pedra a defesa construindo.
A corja criminosa está prenhe de cobardia
Actua disfarçada e nojenta no interior da mesquinhez doentia
Da carneirada obtusa que lhe alimenta a hipocrisia.
A soldo dos carniceiros sanguinários
Anda à solta uma cáfila de cheira-cus hedionda
Esterco humano, sabujos, reles escumalha de mercenários,
Tão miseráveis que um simples verme lhe faz a ronda.
Mais ladrões que todos os outros somados
Mas perigosos porque se parecem com gente
E o prudente e os esclarecidos são enganados
Porque na feira e fora dela arreganharam lustroso dente.
Num papiro
Num papiro encontrado numa escavação arqueológica, com o texto abaixo indicado e segundo rumores oriundos de fontes, dizem que fidedignas, está a ser objecto de um estudo profundo pelos mais aptos e elevados, peritos na matéria, a saber:
Prossegue a recolha da lenha
Para a fogueira do auto-de-fé,
A queima pública da amargura.
Mas o carrasco esqueceu a senha,
O senhor feudal reprimiu a ralé,
Aprisionou o cavaleiro da triste figura.
Tudo ficou registado
Como boicote ao churrasco —
Tão aguardado, tão ansiado, tão predestinado.
Na galáxia dos robôs todo-poderosos,
Tomados de saudade da antiga humanidade,
Repetem, incansáveis, as suas próprias atrocidades.
Letras de Sopa
o espectro cabritava o disparate
que estava gozando a aguardente
derramada sobre os livros do escaparate
cretino determinado e aberrante
cara-direita pacóvio e soberano
emboscado entre o estraçalhar dos barcos
de merda engordada veterano
sapo salteador submarino de charcos
ruido estridente corneta grosseira
estrebuchando na frialdade do abraço
vasculho inútil em estrebaria verdadeira
inerte sonho branco na humilhação enervada
meliante besouro trocista de terraço
ostensível azelhice lustrosa e apertada.
A Masmorra
A masmorra
É escura
É a âncora
Da vingança
Obscura
É praga de lambança
Amaldiçoada
Suturada
Pelo bruxedo
dourado
À laia de arremedo
Estrelado
À laia de folguedo
Mesquinho
À laia de adivinho.
No chão
Espirrado como um borrão.
No Ideal
No momento
Compulsivo
Incisivo
De cimento
Há esperança
Na bonança
Que poderá vir
No ideal frenético de um sentir.
Para a Maria
não sei descrever
os teus olhos maravilhosos
me fazem te querer
e
na ansiedade os ver ansiosos.
Tragédia Dramática da Comédia Trágica - Primeira Parte.
casebre
insuportável
(Ó Manel! Olh'ó gajo!)
febre
miserável
(Petingas & Chicharro)
lar
façanha
(Merlos? Até os frito!)
luar
aranha.
"A poesia propõe a história do mundo.
Temos então o filme, o tempo."
Herberto Helder. Livro: Cobra.
Dialética
O cão
Se fez lobo
O gato
Se fez tigre
O boi
Se fez touro
A cobra
Se fez víbora
O escravo
Se fez chicote.
A Palavra
A palavra resiste
Não morre
Lúcida insiste
Tremenda torre
Da verdade libertadora
Da ignomínia do horror
Da branquifascista aterradora
Vergonha da humanidade pavor
Para exterminar exterminar os nojentos
Fim aos tormentos
Viva o amor.
No Paquete
no paquete das aves que não cantam
o lixo vegeta cavernoso
de mão dada
com víboras traiçoeiras
intrigas necessárias
mentiras adequadas
recuam perante
a força da natureza
o corvo
afónico
pretende anunciar
que os rios transbordam
e fertilizam as terras
limpando os dias
das confidências da tormenta atrasada.