Tu...
quando te deito
na chaga que trago no peito
no desdobramento do meu leito
no ímpio castigo da tua mão.
quando te carrego
no silêncio em que prego
a palavra que não erro
no prólogo da significação.
quando me debruço no teu olhar
estendo a língua sem pensar
que os olhos sabem a mar
das lágrimas em hibernação.
quando troço dos teus medos
e me escorregas entre os dedos
aninhando-te nos segredos
que não tem confissão.
adormeces nesse limbo
és da minha pele carimbo
da chuva apenas um pingo
que mata a sede ao coração.
Amor inconformado
Porque te amo se não me agarras no teu corpo?
porque te chamo se não ouves o meu lamento?
porque te evades se o teu coração me chama?
porque adormeces no meu leito se nem sabes o meu nome?
porque me escorregas por entre os dedos, no inconformismo do sentimento?
porque não sossegas este ansioso peito, bradando aflito?
porque não me abraças na solidão e me espreitas no abandono?
porque não me sacias a fome, do corpo que se evapora de madrugada?
eis o meu inconformismo.
a redundância falhada, à mercê do teu silêncio.
a voz que me embala na noite sem arrependimento...
o teu rosto andarilho entre as estrelas.
do corpo que se aninha já frio no manto da morte.
num caixão sublime rodeado de luar.
entre as lágrimas disfarçadas, no teu majestoso porte.
bate um coração que sofre na ausência do teu olhar.
Morte Alucinante
De novo te revejo apressado
como um pedaço de nada que se evapora
de volta o regresso ao passado
à ausência de tempo que te devora
de noite a noite sinto teu cheiro
perdendo da vida a palma
como névoa de um nevoeiro
que te consome a alma
de segundo a segundo sinto-te respirar
no arfar do teu peito
a lágrima que engole o teu soluçar
preso no meu leito
de noite vejo-te fantasma viajante
devorando a última ceia
da morte alucinante
da agulha espetada na veia.
eu...
Porque é que hei-de escalar montes
subir serras
se meu ser é de outras eras
um ser de alma libertina...
o meu corpo é a obtusidade quadrada na planície da alma...
Quando...
Quando a bruma se debruça no olhar
num hipnotismo trespassante
entre a cegueira e o luar.
quando o grito se demora nessa bossa
que entrelaça a língua
numa velha mariposa.
quando o homem cansado e faminto
se aninha nos despojos
de um amar sucinto.
quando a voz dói de amargurada
e se pendura suícida
no vão da escada.
quando a manhã já não nasce na cidade
e se debruça sobre o campo
da tristeza e da vaidade.
quando o vento já não sopra sobre o mar
e me esquece no silêncio
da vontade de te amar
foi quando quis morrer e não me quiseste matar.
Desilusão
desfia-se o desejo entre os dedos
de uma mão feita de ilusões
como um mar envolto em rochedos
na chuva improvável das aluviões.
tua pele macia estala sob o vento
no luar beijo de novo o teu olhar
de um dia abraçar o teu corpo
num sonho disperso já sem ter lugar.
e o fim do dia vagueia sobre a ira
como um miudo levando um açoite
vomita trémulo um punhado de estrelas
que vão polvilhando o manto da noite.
e o teu rosto esconde-se traquina
sob o manto negro das desilusões
como um mar escondendo segredos
afogando em espuma todas as paixões.
Suspenso!
Suspenso!
nas linhas da palma da mão
como um verso
derivado de um motor em combustão.
Supenso!
nas muralhas do céu
e penso...
no que serei, não sendo eu?
Suspenso!
Na ampulheta do tempo
Silêncio!
o vazio do momento
Suspenso!
alma profana, desalinhada.
Arremesso...
do Corpo caindo na berma da estrada.
SINTO...
Sinto a tua voz distante num eco profundo
o prazer que me alcança
num olhar de criança
que se perde do mundo.
Sinto o desejo que espreme o silêncio na mão
como a voz que me grita
estridente, maldita
lava de vulcão.
Sinto o tempo precoce da minha ausência
o peso do corpo
que se evade já morto
na derradeira sentença.
Sinto palpitar o peito uma última vez
como enxame de abelhas
que me entra pelas orelhas
e me provoca surdez.
Sinto o teu beijo apertado no último suspiro
na sede que me mata
como cortes de faca
ou dentes de vampiro.
Sinto a pele que se rasga num trágico final
o prazer que se encerra
num punhado de terra
pecado capital.