Poemas, frases e mensagens de cavenatti

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de cavenatti

Vento.

 
O canto do vento,
doce, contido,
em seu movimento
espia saudades.

Congela o tempo
recorda carícias
respeita o querer.

Transpassa desejos
em mastigo
de beijos.

Viaja meus sonhos
confissões penitente,
meus próprios pecados,
segredos da mente.
 
Vento.

NOTÍCIAS.

 
Desligo o controle remoto,
não me tocam as
desgraças,
calçada ferida,
o sangue da vez.

Sempre, reprises,
notícias vendem
corpos triturados,
com o patrocínio
do bem.

Acontecimento
do ano,
para, no novo amanhã,
não o ser
de ninguém.

Plateia nos sofás,
atores anônimos
teatralizam,
a verdade da m(s)orte
no papel principal.
 
NOTÍCIAS.

Primitivo.

 
há velas à deriva
o mar marola
em um tempo primitivo
essencial

conchas vivas

desfaço na noite
o disfarce do dia
sou Ser rudimentar
vidro

o azul-negro espelha

no centro das imagens
toscas
estrelas se afogam
o segredo se esconde

o amor peregrina ...
 
Primitivo.

Flores.

 
Colho flores
nos jardins que existem
na amplidão dos pampas.

Horizontes amarelos,
atalhos,
caminhos, descobertas.

Colho o bônus da primavera
na muda que não muda
a aurora da espera.

Desvio dos rasantes
dos quero-quero,
não cobiço seus ninhos.

Quero ...
a liberdade
das flores.
 
Flores.

Entendimento.

 
a luz amarelada
(do cair da tarde)
adentra o quarto,
sem permissão,
finge tingir as paredes,
acomoda-se no leito,

o ar rarefeito
do começo da noite,
dá-me a impressão
que o dia acaba
em velas terminais,
tão sem pressa...

ritual,
as almas se recolhem,
as ruas se acalmam,
os pássaros
buscam repouso,
eu, o entendimento...

-----
autor: Cavenatti
 
Entendimento.

Vejo.

 
eu contava estrelas
brincava na luz da lua
sentava na sarjeta
rolava no chão
virava pó ...

os mais velhos
conversavam
com as cadeiras
apoiadas nas paredes,
nos muros da vila ...

a minha casa tinha,
na calçada,
um degrau
à porta da sala,
casa e rua uma coisa só ...

meu pai ficava
com seu "radinho" de pilha,
sentado no degrau da porta,
dizia ele "ouvindo o mundo" ...

meu cachorro latia,
brincava, rolava,
e, cansado,
se amoitava aos
pés do meu pai ...

Tudo tão logo-ontem,
olho ... não vejo estrelas,
nem terra em minhas mãos,
vejo ... saudades ...
 
Vejo.

Abismo.

 
eu filtro
as minhas lembranças,
eu fito
as minhas memórias,
em penitência...

eu me submeto
às ordens volúveis,
desejos aliciantes,
imponderáveis,
inutilmente...

não há o teu sorrir,
nem o teu aceno,
ante aos olhos,
(intervalo do silêncio),
há, o abismo...
 
Abismo.

VÍCIO.

 
a minha escrita
ainda sabe:
relatar a paixão,
descrever os sonhos,
redigir te amo,
e, rabiscar poemas
à tua formosura ...
os meus olhos
ainda sabem:
recordar teu andar,
admirar tuas ancas,
teu colo,
teus seios,
o teu todo ...
a minha boca,
sem-vergonha-alguma,
ainda sabe: gritar os gritos
que gritamos juntos,
o grunhir que inventamos,
degustar o sabor do vinho
que alambicava tua tez,
suavemente ...

comíamos
um-ao-outro,
bebíamos
o viço da juventude,
e m b r i a g a d a m e n t e,
um vício que perdura
nas lembranças,
que estas letras confessam ..

autor: Cavenatti.
 
VÍCIO.

Signos.

 
chão sem raízes
imagens pretéritas
retorcidas...

rio mórbido
penumbras
lodo...

alma impúdica
angústia
o dia desfaz o dia...

noite devassa
ideias fumacentas
inúteis...

rosa sem pétalas
pássaro sem asas
poeta ban(d)ido...
 
Signos.

LAMENTO.

 
barcos fantasmas,
tempos mortos,
baralhos manuseados...

magia,
espelhos negros,
pedregulhos...

leito despovoado,
curvas, caminhos,
maldição...

derrota,
dor, saudades,
pranto...
 
LAMENTO.

Tenho medo.

 
tenho medo
que batas
à porta,
enquanto durmo...

tenho medo
dos rumores
da noite,
dos sonhos...

tenho medo
de escrever
o teu nome,
no meu destino...

tenho medo
de fantasmas,
tenho medo (em especial)
das canções que falam do amor...
 
Tenho medo.

Reler.

 
hoje me vejo
com os cabelos
sobrando no pente,
seriam ideias?!...

no pescoço
a barba prospera,
misto de branco,
castanho...

os braços-galhos
já não suportam
carregar os dias,
não são solidários...

pedaços da
memória
sobram nos olhos,
rompem a vigília...

sinto mais frio
que quando criança,
leio-mais-a-vida,
rabisco...

no meu pacote,
folhas-dias-livro,
encontro serenidade
para (re)escrever o amor...

--------
autor: Cavenatti
 
Reler.

Intruso.

 
Intruso.

no baldio
da mesa
um caderno de poemas,
página aberta ...

transito
entre as letras,
bebo a angústia
tangível ...

os versos falam
intimidades,
murmurações,
corpos sem rótulos ...

as palavras
determinam,
eu, intruso,
obedeço ...
 
Intruso.

VIELAS.

 
debruço-me
à realidade
que se apresenta:
casas empilhadas,
reboco ausente,
vielas,
corredores...

escadas toscas,
degraus,
o infinito;
visualizo
caracóis
nos caminhos
sem fim!...
 
VIELAS.

Amores de sonhos.

 
não escreverei
sobre amores que tive
e não me tiveram,
nem da troca de
olhares,
risos, compromissos...

não escreverei
a história das canções
"encomendadas",
no Parque de diversão;
nem do padre enfastiado
pelo mantra das ladainhas...

não escreverei
pelo perdão,
por ter furado a fila,
por pequenas traquinagens,
por ter ludibriado
no jogo de bafo...

não escreverei
sobre:
conhecidos,
parentes,
retratos,
saudades...

escreverei,
escreverei,
escreverei...
os
amores de sonhos,
os amores sonhados...

autor: Roberto Cavenatti.
 
Amores de sonhos.

Fecundação.

 
o que dizer do céu que explode
em labaredas, tempestades,
será que Deus está nervoso, ou,
costurando contrariedades?!...

a água que emana,
mata a sede, apaga o fogo,
leva navios passageiros,
a outros portos...

a água que inunda, apodrece
galhos, transforma o sacrifício
em temperos, alimenta a era,
fecunda a terra...
 
Fecundação.

Concha da orelha.

 
o suor se liberta,
sonho acordado,
viajo nas nuvens,
assisto o teu corpo,

tua mão (re)passeia
em minha pele morna,
na concha da orelha
sussurros...

meus lábios criam pernas,
teus trajetos são enigmas,
meu olfato se inebria ao cheiro
dos teus cabelos quentes...

eu me enfurno
entre os teus
joelhos...

presencio o teu rosto, belo,
a sorrir raios de sol,
e as estrelas dos teus olhos
pousadas em mim...

autor: Cavenatti.
 
Concha da orelha.

LEMBRAS-TE?!

 
Lembras-te?!
demo-nos a face
a transparência,
a alegria sonhada...

Murmuramos
horas a fio,
enamoramo-nos
no olor da entrega...

Amamo-nos
entre ramas,
embebedamos
nossas carnes...

Construímos buquê
de sorrisos,
e, velejamos nas nuvens
à cata do vento...

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autor: Cavenatti
 
LEMBRAS-TE?!

Soletres.

 
Soletres.

soletres
meu nome em cálice,
derrames
minha água nas margens,
caminhes
meu leito desguarnecido,
inundes
minha correnteza,
trilhes
meu destino,
descortines
o meu sol, o meu mar,
desbraves
meus arquipélagos,
rabisques
um poema ao rei,
...
relates
o teu descobrimento ...
 
Soletres.

Flores da entrega.

 
entra ...
habita o silêncio
da minha espera

colha-me ...
em mãos de encanto
flores na entrega

dócil ...
receba meus braços
meu corpo em chuva

fluvià ...
conduza em teu leito
a tempestade da tez
 
Flores da entrega.