Poemas, frases e mensagens de roniel.oliveira

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de roniel.oliveira

Ilhas Metafísicas

 
Ilhas Metafísicas
 
Tomo café e LSD
Com os ratos na varanda do hotel.
Lá fora, no mundo concreto,
Todos estão sós, mesmo reunidos;
E a dor é uma formula aritmética
Num caderno de arame.

Os minutos explodem na memória.
Máquinas, motores, megabytes...
O amor é uma pilha de neologismos virtuais
Trocados entre masturbações.
Ultramodernos desse mundo, desuniu-vos!

Eu, submerso, ouso liberdades de papel.
Meu deus bélico estende suas mãos piedosas
Para a proteção de seus povos escolhidos.
Em seu culto, mato minhas evidências,
Outorgo retóricas, condiciono minha ética
Ao bel-prazer do esquecimento.

Flores nascem nas alcovas.
O relógio de ponto me impede de existir.
Preciso de vinho barato e amores de cabaré
Para a escrita de minhas antologias
Que perecerão em sebos imaginários.
Em vão corro atrás de ilhas metafísicas
E filosofo, barato, em pequenos botecos,
Sobre a sinfonia cômica do existir.

Hoje eu escrevi um poema para ninguém.
 
Ilhas Metafísicas

Insulto

 
Insulto
 
Naquele canto de cidade,
Confusa feito ambição proletária,
Caminhava entre a overdose e um coração partido.

Tinha manchas de sangue na jaqueta.
Seus olhos vermelhos, talvez de sono,
Projetavam cenas de Almodovar
Para deleite de vagabundos que morriam em silêncio.

Seus passos lentos,
Contrapondo-se as máquinas de ponto,
Perdiam-se no movediço asfalto
Feito de gritos e sorrisos amputados.

Seu corpo era uma forma de insulto.
Seus lábios, aromatizados por maconha e sexo descartável,
Cuspiam os últimos versos do apocalipse,
Enquanto cães uivavam nos terreiros católicos.

Mesmo cansada, agredia o vento,
Imprimindo desgosto aos que desconheciam sua existência,
Àqueles que baixavam seus chapéus à sua presença
Subversivamente viva frente a seus óculos falsificados.

De repente, fez-se noite,
E todas as teorias emudeceram.
Arremessada junto à parede,
Atingida por um sonho desgovernado,
Ossos quebrando-se em histérica euforia,
Moléstias esfregando-se em bacanais,
Tocou seu sexo e arremessou, liberta,
Seu suspiro lapidar ao mundo que lhe perdia:
“Vão todos a puta que os pariu!”

À Charles Bukowski.
 
Insulto

Televisando

 
Televisando
 
Vejo as cores da loucura
Deslizando no aparelho
E contraio um vômito informacional.

São rostos, nomes,
Massas de espermas coloridos
Dançando rumbas
Num universo alucinógeno.

Empurro para o estomago,
Estragado por transgênicos,
O suplemento oriundo de Sodoma,
Produzido com orelhas muçulmanas,
Anunciado em meu canal de compras predileto.

Esfrego meu pau
Buscando um gozo verdadeiro
Enquanto outro novo reality-show inicia
Vendendo-me o novo “melhor de todos os tempos”
Para deleite do corpo amorfo.

Troco os canais,
Troco os sentidos,
Troco os sentimentos,
Troco minha insanidade,
Por outra qualquer,
Em nome do “religiosus-consumus”.

Aperto OFF e começo a existir.
 
Televisando

Ela...

 
Ela...
 
Lá está ela,
Magrela,
Banguela,
Cartela de comprimidos na mão.

Sente cansaço,
Mormaço,
Aço,
Espaço restrito na multidão.

Abriga leucemia,
Alergia,
Melancolia,
Taquicardia e desilusão.

Pretender morrer,
Desaparecer,
Esquecer,
Esconder no armário sua razão.

Já não a vejo,
Despejo,
Remanejo,
Realejo tocando na escuridão.

Desapareceu,
Fodeu,
Esclareceu,
Teceu sua métrica de desconstrução.
 
Ela...

Dias de chuva fazem sangrar

 
Dias de chuva fazem sangrar
 
Naquele momento eu descobri uma verdade:
noites de chuva fazem sangrar.
Contemplando a solidão revestida num olhar,
para não romper com o inevitável,
Eu deixei a chuva cair.

Ainda hoje recebo seus pingos ácidos.
Na varanda de meus pensamentos mais ocultos,
aquela dor renasce silente e pura, quase branca,
Fazendo de meus dias ofertas vãs.
As horas são nostálgicos versículos sem santidade.
O vento da noite atrofia meus sentidos.

São escuros os contornos da existência.
Uma noite sem estrelas: eu sigo o caminho.
Sinto tocar no rosto, unindo às lágrimas,
A mesma chuva que nasceu outrora
e que molhou meu rosto com segredos.
A dor e os trovões compõem sinfonias.

As ruas são tão intimas de quem nada tem.
Somos herdeiros de moléstias ancestrais
caminhando dementes com nossos sapatos sujos.
Dançamos molhados e loucos como num velho filme.
A chuva cai desconhecendo tudo.

Esquecer é uma dádiva que não disponho.
Amaldiçoado estou pela vivida memória do tempo,
por todas as chuvas, por todos os sentidos em combustão.
Meus versos dormem ao relento.
Meu corpo é a continuação da sarjeta que fiz morada.
E a chuva cai, contínua, inquiridora,
Lembrando sempre o axioma maldito:
dias de chuva fazem sangrar, sempre.
 
Dias de chuva fazem sangrar

Ícaro Avesso

 
Ícaro Avesso
 
Antes de morrer, acendeu um cigarro.
Como uma fome, uma ereção,
Seu corpo sentiu desejo de câncer.
Afinal, para quem está vivo, o que mais resta, senão,
Escrever a morte com dois quartetos e dois tercetos?
Tragou a fumaça e, sóbrio,
Lembrou-se de poemas beats que leu no passado.
Enquanto limpava a testa com o lenço velho,
Solfejou Belchior.
Apesar dos dedos trêmulos,
Ajeitou a barra da calça que poderia atrapalhar.
Levantou, pegou dois tijolos que estavam encostados,
Posicionou-os próximo ao parapeito de onde via a cidade
- impressionante como nunca havia notado que o vizinho ouve sempre boleros antigos... – disse.
Mirou um orelhão na avenida,
Coçou o calcanhar com a unha suja,
Tomo distancia e despencou.
Enquanto caia, pensou: “será que desliguei o abajur?”

Sua foto, no jornal de hoje, embrulhou o fígado que comprei.
 
Ícaro Avesso

Sorrisos anorexos

 
Sorrisos anorexos
 
Meus amigos venderam suas almas
- não para o demônio, que seria mais digno –
Mas para pequenos capitalistas de céu e calabouço
Que mercantilizam epopeias surreais.
Eram bons homens aqueles.
Bravas mulheres, também vi, trocando seu riso
Por algumas vestimentas e horas de delírio
Em pequenas boates escumando escórias.

Sinto-me sozinho, mas conservo a dúvida.
Não entreguei meu gesto, nem o poema,
A nenhum suserano marrom
Que panfletava o firmamento em pequenas sodomias.
Minha envergadura amoral permanece estática
Diante dos alforjes de deuses de bronze e vergonha
Cujas barbas trituram milhões de trovadores.

Olhe, meu bem, o mundo está morto!
A vida é uma dançarina paraplégica imaginando passos
Em sua sala vazia.
Tenho lido obras completas de poetas miseráveis
Cuja dor é amiga e brinda cálices comigo.
Revejo velhas fotos e desconheço rostos
Que figuram anorexos sorrindo dentes podres.
Quero uma dor antiga para morrer em paz.
 
Sorrisos anorexos

Tragicomédia Urbana

 
Tragicomédia Urbana
 
À Antônio Variações

- Andava?
- Sim, andava com os gametas ligados
- Olhava?
- Sim, olhava as pessoas em seus palcos
- Pensava?
- Sim, pensava em acabar com sua vida concreta
- Temia?
- Sim, temia encontrar outra para algum reparo
- Comeu?
- Sim, comeu verdades com catchup
- Sorriu?
- Sim, sorriu ao saber que desentendia
- Mordeu?
- Sim, mordeu a língua enquanto refletia
- Parou?
- Sim, parou para deixar o vento passar
- Voltou?
- Sim, voltou seus olhos para a inexistência
- Sangrou?
- Sim, sangrou um poema no chão da calçada
 
Tragicomédia Urbana

Sonhos e Esperma

 
Sonhos e Esperma
 
Amaram como amigos,
Como meninos,
Sabedores da fugacidade do impalpável.
E por sabê-lo, por reconhecê-lo,
Deixaram seus corpos à margem,
Livres e incoerentes para nascer
Em qualquer manhã sem prestígio.
Negaram sínteses e predicados.
Eram expedicionários do insignificante,
Além das nomenclaturas,
Aquém de relógios e explicações.
E por amar, singelos profanos,
Voltaram meninos, correndo, travessos,
Entre folhagens de um jardim libertino.

Acordaram cheirando à sonho e esperma.
 
Sonhos e Esperma

Eu sou a vertente mórbida de um anjo bom. A poesia trágica, o constante inconstante, o sopro gélido de uma noite fria. Creio ortodoxamente no que duvido, abrigo extremos, escrevo poemas em meio a balas de canhão. Odeio o lirismo covarde, as frases sem ...