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A longa noite dos tempos

 
Entrou na sala de luz apagada mas convicto de que facilmente encontraria o que procurava, pois sabia exactamente onde o havia deixado e a claridade que entrava pelas frinchas das janelas cujas portadas não conseguiam impedir que entrasse, era mais que suficiente. Como ía só para buscar o telemóvel que se tinha esquecido em cima da mesinha pequena e lhe fazia falta para o despertar de manhã, achou que não valia a pena acender a luz.
Mas, de repente, uma estranha sensação de que não estava sozinho atravessou-lhe o corpo como uma bala fazendo-o arrepiar por completo. Foi então que olhou para o sofá pequeno, ao canto, junto a uma das janelas, tendo de imediato aquela estarrecedora e gélida certeza de ali estar um vulto sentado, na penumbra... como se esperasse por alguém...
Não conseguiu articular qualquer gesto ou palavra alguma. Foi como se, de súbito, tivesse sido atingido por um raio paralisante e ficasse transformado numa estátua viva.
Assim permaneceu por um instante que lhe pareceu uma eternidade até que num impulso corajoso se conseguiu soltar daquela prisão de terror que lhe congelou todos os músculos do corpo e se lançou para o interruptor, como quem se agarra ao seu último sopro de vida, numa suplicante procura da luz que naquele momento era tudo o que mais desejava e precisava. Mas a luz não acendeu... tentou outra vez e... nada. Outra e outra e ainda outra... foram vezes sem fim naquele gesto repetido de um desesperante anseio por algo que lhe acabasse com aquele tão horrível pesadelo e o trouxesse de novo à realidade. Mas os seus esforços foram em vão e a luz não se acendeu. E o pesadelo não terminou. E a única realidade que agora tinha, era a terrível descoberta da sua própria morte!
E só ali se percebeu finalmente onde estava, se desconfiou morto e que aquilo seria só o princípio da perpétua escuridão que o aguardava para o resto da longa noite dos tempos, que se avizinhava.
Foi então que finalmente se deu conta de que o vulto sentado naquele sofá, era o seu...


*... vivo na renovação dos sentidos, junto da antiguidade das lembranças, em frente das emoções...»

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coisa pouca

 
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cleo
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Enviado por Tópico
AnaMartins
Publicado: 20/04/2010 02:17  Atualizado: 20/04/2010 02:17
Colaborador
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 Re: A longa noite dos tempos
Adorei a energia da narrativa, Cleo. Na minha opinião, é admirável a capacidade de instigar suspense no leitor, e tu consegue-lo na perfeição.

Moral da história: vivamos o dia que a noite é certa!

Beijinho!


Enviado por Tópico
luciano
Publicado: 20/04/2010 02:26  Atualizado: 20/04/2010 02:26
Da casa!
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Mensagens: 304
 Re: A longa noite dos tempos
Meus parabéns meu anjo, consegiste deixar-me estatico como o personagem de seu texto lindamente escrito!
Adorei.
Beijos no coração meu anjo!


Enviado por Tópico
eduardas
Publicado: 20/04/2010 12:18  Atualizado: 20/04/2010 12:18
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 Re: A longa noite dos tempos p/Cleo
Deixaste-me mesmo suspensa até ao final. Com que força narrativa nos descreves a solidão.

bj
Eduarda


Enviado por Tópico
arfemo
Publicado: 20/04/2010 12:20  Atualizado: 20/04/2010 12:20
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 Re: A longa noite dos tempos
...as divagações sobre a pertinência da existência, num conto que prende e faz reflectir o leitor (não estando morto...)

beijo, Cleo :)
arfemo