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e ouvi alguns velhos do restelo clamando;
“Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”,
e vi duas sílfides dançando por entre o perfume das flores em primavera,
levando e trazendo suaves brisas,
e vi alguns poetas queimando palavras incrustadas em folhas preenchidas,
outros não riam, outros viravam as costas ao caminho,
e ouvi militares alteando a voz, encurralados na ilha de Kheros;
“Antiguidade é um posto, antiguidade é um ...”,
ah... e mais vi, e mais ouvi,
declamavam-se elogios, e mais elogios, como se a salvação fosse aqui tão perto;
- vai-te anjo rebelde expulso dos céus, expurgo-te do amanhã, do hoje, do sempre, “rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”,
e alguns fizeram as pazes, mesmo com os dedos cruzados atrás das costas, alguns suspiraram não sei o porquê, outros guardaram as adagas de istambul ainda a brilhar,
libertaram-se os cheiros da amêndoa e do café.
E tudo vi, e tudo ouvi,
seria esperança, seria morte, seria o fim das trevas [?],
não sei,
sei que ainda ficou uma sílfide,
dançando por entre o perfume das flores em primavera,
[e o silêncio anoiteceu-me a voz, jamais o poema],
...
[que por aqui deposito? jamais].
Velho do Restelo – simbolizava o pessimismo, o conservadorismo. Personagem criada por Luis de Camões em “Os Lusíadas”, canto IV:
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Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
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- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
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- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
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- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
Sílfide – (s.f.) Do latim sylphus-génio. Génio fantástico do ar, que habitando nos bosques vivia do perfume das flores. De origem oriental, era invocado pelos cabalistas na Europa. Do sexo feminino de corpo belo, leve, grácil e veloz, com quem são comparadas as melhores bailarinas.
Ilha de Kheros – Localizada na Turquia. Filme “Os Canhões de Navarone” realizado por J. Lee Thompson. Óscar em 1962 na categoria de melhores efeitos especiais.
“rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”- texto védico que e dirige ao morto, Rig Veda X,
“Rasteja para a Terra, tua Mãe! E possa ela salvar-te do nada”
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[“do ciclo, as palavras não têm prazo de validade. “ Riva la filotea. La riva? Sa cal'è c'la riva?” (Está a chegar. A chegar? O que estará a chegar?)]