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Morte Anunciada de “Paixão”

 
Morte Anunciada de “Paixão”

Prólogo:

Não era de estranhar que a Paixão, outrora avassaladora dama dos amores impossíveis, após um definhar lento e doloroso, perecesse solitária nos braços de ninguém. Foi encontrada sem vida num qualquer beco de ébrios de raiva e de ódio.

No seu funeral, estavam duas carpideiras contratadas por um qualquer sentimento de pena, que ainda pode subsistir ao evento, e o coveiro; a ausência de um serviço religioso denotava o pecado da sua existência.

Nem urna mereceu; foi vazada numa desconhecida vala de um cemitério desesperado de almas errantes – o catre funerário seria também necessário para outras mortes anunciadas - assim como a pobre mortalha que, outrora branca, era uma manta rota de nódoas, pelo que a paixão foi atirada, nua, a uma pouco cuidada cova comum atafulhada de outros resíduos mortais.

Capítulo único:

Paixão era a dama dos amores impossíveis, enamorada de poetas loucos em debandada de si mesmos, a amante ousada que se queria musa e irritava os deuses.

Olhos onde Paixão fixasse logo reclamavam a propriedade e tornavam-se ciosos se outros olhos ousassem levantar-se para o objecto possuído; qualquer incauto poeta que se atrevesse a beber do seio entumescido de licores de amor, da dona desses olhos, embriagado e despojado da sua identidade – poeta olhado, poeta tomado, dizia-se.

Paixão deleitava o poeta de seiva langorosa de seu sexo, do seu licor lácteo, dos seus humores corporais e acorrentava-o, de imediato aos elos do ciúme e da tragédia, vigiava-o, com a ajuda das suas escravas gárgulas, quimeras e hárpias que o aguilhoavam de dor, de medo, de contradição e de desespero; pobre poeta que caísse nas suas garras jamais ousaria erguer a voz que lhe era reduzida a lamentos febris e a insana servidão, enlouquecendo no esbracejar de quem se afoga e tem presente a sua eterna agonia.

Mas se o poeta ousasse emitir mais que um lamento e maldizer a sua sorte, logo Paixão lhe injectava o veneno da sua mórbida indiferença e o isolava na masmorra do seu silêncio.

Porém, um poeta rasgou as carnes libertando-se das correntes da malvadez, retirou a mordaça do silêncio imposto e gritou bem alto o seu desespero a musas e deuses e estes se apiedaram.

Condenaram Paixão ao degredo dos amores e dos louvores, incutiram-lhe a dor da sua impotência, acorrentaram-na à sua própria armadilha até que, saciados, a libertassem pela agonia da morte lenta e anunciada.

E, assim, morreu Paixão: só, desfeita de qualquer sentimento, renegada de qualquer emoção, dilacerada pelo seu próprio ódio. E nem as gárgulas se comoveram na sua rígida petrificação…

Epílogo:

O poeta é, agora, um ser amorfo que singra caminhos do desconhecido, incapaz da dor, sem elos de recordação, expiando-se.

Foram-lhe proibidos pelas musas e deuses a escrita, os louvores, as trovas e as árias que poderiam ressuscitar a Paixão.


Triste Poet@
(João Loureiro)

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Triste.Poeta
 
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