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Poemas : 

Das coisas imprevisíveis #.#.#

 
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Das coisas incompreensíveis
(Uma fenomenologia da estupidez)





Se não compreendemos a nós mesmos,
Como poderíamos compreender as coisas do mundo?
Filosofias são expostas como um fêmur quebrado,
Os mais belos poemas extraídos de profundezas insondáveis,
Como compreendê-los sem abraçar a insanidade,
Se ainda engatinhamos no brilho opaco de sentimentos tão vis?

Amar?
Mal cuidamos dos nossos filhos,
E o vizinho, com os seus, fazem parte de outra tribo.
Amar? Não me faça rir!

E se alguém neste mundo, de fato, ama,
Não tenho a menor dúvida, deve estar em maus lençóis.
Deve estar, neste exato momento, chorando,
Talvez morrendo de tristeza e solidão.

Mas deixemos de lado essas especulações vazias
E tão cheias de impossibilidades.
Admitamos nossa incompetência evolutiva,
Mudemos nossa dieta de enlatados vencidos e pútridos.

Afinal, quem irá compreender se digo que este mundo
Vive no passado?
Não me peçam explicações sobre essa fratura exposta,
Aquele fêmur quebrado, citado logo acima,
No topo da minha ignorância.

Só sei que é assim, porque é extremamente doloroso
E a dor tem essa peculiaridade semiótica, doer.
É um tipo de consultoria, as vezes cara,
A nos dizer que algo está desajustado, perto de quebrar
E, nos humilha até à calcificação dos ossos, não antes disso.

Filosofias, muletas, dores ingentes, incompreensões
E este poema, como todos os outros ou,
Em sua esmagadora maioria, ficará na estante do mistério.
Entre outras coisas, por que o compus?

Mas, cúmulo do cúmulo do constrangimento,
Todos que passarem os olhos por esse hieróglifo poema,
Irão dizer, cheios de uma certeza estúpida:
¬- Compreendo suas palavras, Milton!...

E depois de ouvi-las, uma esperança, também estúpida
E também triste, irá responder:
- Será?

Essa carência de nós mesmos, nos fazem assim, eminentes idiotas.






Milton Filho... 01.07.16



 
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Srimilton
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Enviado por Tópico
MaryFioratti
Publicado: 04/07/2016 10:56  Atualizado: 04/07/2016 10:56
Colaborador
Usuário desde: 09/02/2014
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Mensagens: 2425
 Re: Das coisas imprevisíveis #.#.#
Oi Milton,
Gosto sempre de seus poemas crus. Esses que nos levam a pensar assim: "nossa, eu sinto isso".. "Nossa, ja pensei assim"...
Entao talvez por isso, a frase: "Compreendo Milton"...
Compreendemos muitas coisas, mas ao mesmo tempo que compreendemos nao pensamos na razao delas.
Vivemos uma vida sem pensar no por que das coisas. Seria tao doloroso pensar?
Acho que sou assim: prefiro navegar olhando a parte boa do ceu... achar o por que das coisas boas, e sempre acreditar, pelo menos se nao nos outros, em mim!

Abracao pra voce!
*Mary Fioratti*


Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 04/07/2016 13:22  Atualizado: 04/07/2016 13:22
Luso de Ouro
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade: Macapá/Amapá - Brasil
Mensagens: 5541
 Re: Das coisas imprevisíveis #.#.#
às vezes tento armar as velas do meu veleiro vida pra pegar um rumo certo com respostas definitivas pra atirar minha âncora, mas como não há rumo consistente, desisto e me permito ficar à deriva mesmo...

agradeço-te por ofertar a leitura, Milton.

bjos


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 04/07/2016 13:27  Atualizado: 04/07/2016 13:29
 Re: Das coisas imprevisíveis #.#.#
Os mais belos poemas extraídos de profundezas
Como compreendê-los sem abraçar a insanidade,

ágil e belo o pensamento seu



Enviado por Tópico
silva.d.c
Publicado: 06/07/2016 23:53  Atualizado: 06/07/2016 23:53
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Mensagens: 606
 Re: Das coisas imprevisíveis #.#.#
acho que toda a filosofia é um labirinto, toda a religião é uma desorientação, toda a política é um buraco...e tudo à nossa volta deve ser desconsiderado, porque, de uma forma ou de outra, tudo causa dor se nos dermos ao mundo, ou melhor, se quisermos alguma coisa do mundo e se procurarmos orientações exteriores...o entendimento da causa minimiza o efeito, ou seja, não adianta procurar as causas no mundo quando elas estão em nós...seja do que for, se achamos que há muita violência no mundo, certamente há muita violência em nós, se achamos que há pouco amor no mundo, há com certeza pouco amor em nós...e vai por ai...gostei de ler...abraços