Poemas : 

XXV - O ingenuoso cavaleiro Dom Quixote da Mancha

 
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XXV - Vigésimo quinto episódio que trata, de maneira tão sucinta quanto divertida, de tudo que o leitor ficará sabendo ao ocupar-se com este prazeroso texto.

Sancho Pança reagiu
com alguma estranheza
quando viu que o patrão
não chamou de fortaleza
o albergue mais modesto
lá daquela redondeza

Quixote estava ansioso
por fazer ali paragem
O homem que conhecera
no trajeto da viagem
tinha dito que estaria
nesta mesma estalagem

E depois que o ajudou
a tratar do seu jumento
foi acomodando todos
cada um em um assento
pra ouvirem sua história
naquele mesmo momento

Concordando em fazer
o que tinha combinado
o homem foi expedito
e não se fez de rogado
Contou o caso do zurro
conforme o solicitado

- Nesta minha narrativa
uma coisa que se nota
é ver a divulgação
duma simples anedota
fazer uma vila inteira
ser motivo de chacota

- Na vila de onde venho
um jegue tinha sumido
Se por ter sido roubado
ou quem sabe até fugido
nem mesmo o dono sabia
procurando constrangido

- Os detalhes eu não dou
pra encurtar a história
mas a aflição do dono
era pública e notória
percorrendo toda a vila
na sua busca inglória

- Apareceu um compadre
dizendo tê-lo avistado
já fazia uma semana
dentro do mato fechado
sem albarda nem arreio
parecendo esturricado:

- Tentei me aproximar
mas quando me enxergou
como estava já arisco
o jumento se assustou
e sem olhar para trás
no horto se embrenhou

- Se formos juntos pegar
será de melhor proveito
pois ajudar o compadre
só me deixa satisfeito!
- Pra achar o meu jerico
toda ajuda eu aceito!

- Eles foram para o mato
com um plano ajustado
Separando-se no bosque
cada um foi para um lado
aumentando suas chances
de ter um bom resultado

- Porém o tempo correu
e não viram o jumento
Então o outro ficou
matutando um momento
e uma nova estratégia
formulou no pensamento:

- Andando no matagal
imitando um zurrado
se o burrico estiver
aqui no mato fechado
escutando a um de nós
poderá ser encontrado!

- Elogiando o compadre
por ter tido o lampejo
pra poder achar o asno
como era o seu desejo
o dono ficou ditoso
com o plano do ornejo:

- Imitação de onagro
eu também posso fazer
Se o jegue nos ouvir
e quiser nos responder
onde está o meu jerico
assim nós vamos saber

- E se puseram os dois
pela trilha ornejando
Separados um do outro
novamente procurando
Mas no mato, sem saber,
foram se aproximando

- E diante um arbusto
o dono do tal lopeu
um ornejado ruidoso
escutou e respondeu
pensando ser o seu asno
mas era o compadre seu

- Ficando desapontados
de não verem um jumento
se juntaram outra vez
no maior constrangimento
O compadre da folhagem
disse naquele momento:

- É pra poucos conseguir
zurrar assim desse jeito
e por nunca ter ouvido
um zurrado tão perfeito
acho até que o compadre
outra coisa não tem feito!

- E vendo no horizonte
o sol já numa descida
decidiram que a busca
tinha sido concluída
com o dono do jerico
comentando em seguida:

- Pois agora que escutei
o seu zurrado comprido
fiquei com a impressão
por ser muito parecido
que meu compadre orneja
desde quando foi nascido!

- E foram numa taberna
pra beber e conversar
com o compadre pensando
que seu querido muar
seria muito custoso
de novamente encontrar

- E já estando os dois
na taberna proseando
um padre em seu bardoto
lá no pátio foi chegando
O mulo ao ser amarrado
por veneta foi zurrando

- Por ser aquela taberna
lindeira ao mato fechado
os compadres calcularam
que o asno tinha voltado
O queixoso do sumiço
disse muito animado:

- Não queria incomodar
com mais um engano meu
mas percebo que lá fora
desta vez tem um lopeu
pois escuto um zurrado
e sei que não é o seu!

- E como continuasse
o burrico a ornejar
decidiram ir ao pátio
pra poderem confirmar
Porém o outro compadre
não saiu sem comentar:

- Agora que ele ornejou
alto igual a um esturro
já podemos ter certeza
que isto foi mesmo zurro
mesmo achando seu ornejo
mais melhor que desse burro!

- Ali ficaram sabendo
conversando com o cura
que o compadre poderia
encerrar sua procura
que do animal de carga
só restava a ossatura:

- Caçadores o acharam
dentro do mato fechado
O jumento tinha sido
pelos lobos devorado
Só contaram para nós
no retorno ao povoado

- E com o fim da procura
o roceiro agradeceu
por toda ajuda na busca
que o compadre lhe deu
Mas a notícia do zurro
nas cercanias correu...

- Pois na arte de mangar
o povo é muito casmurro
E não foi pela desdita
de não acharem o burro
mas o conto fez sucesso
pela imitação do zurro

- Agora na redondeza
somos alvo de motejo
Se algum da nossa vila
vai pra outro vilarejo
pessoas passam por ele
imitando um ornejo

- E ainda nem contei
a outra história jocosa
que também tinha jerico
e também ficou famosa
por um vigário fazendo
uma trama engenhosa

- O cura é aquele mesmo
que antes fora descrito
chegando lá na taberna
num burrico esquisito
que depois de amarrado
ornejou bastante aflito

- O jerico deste padre
não era manso na sela
só parando de zurrar
se voltasse pra capela
Era um recalcitrante
no seu apego por ela

- Lá em nosso vilarejo
aconteceu que um dia
este padre interessou-se
numa imagem de Maria
cobiçada por um monge
que igualmente a queria

- A imagem referida
pela sua perfeição
de todo povo da vila
chamaria a atenção
no altar ou no andor
de alguma procissão

- Mas eu preciso dizer
que ali perto do lugar
onde o vigário estava
pela santa a disputar
amarrado numa faia
tinha deixado o muar

- O jerico amarrado
zurrou em certo momento
Como ali ninguém sabia
de quem era o jumento
o cura viu no zurrado
perfeito oportunamento

- Vamos amarrar a santa
no lombo deste jumento
e o levamos ao caminho
entre capela e convento
deixando que ele prossiga
com este carregamento

- E quando ele quiser
buscar a sua pastagem
o prédio que ele fizer
sua primeira paragem
pela escolha do burro
ficará com a imagem

Sendo aceita a idéia
foi amarrada na sela
a imagem de Maria
e o asno levando ela
ligeiramente voltou
trotando a sua capela

E foi assim que o cura
conseguiu o seu intento
de não deixar que a santa
fosse para o convento
Só depois foi descoberto
que era seu o jumento

- Isso é tudo que sei
do padre e seu muar
Esse conto do vigário
contado em todo lugar
virou na boca do povo
um ditado popular...
 
Autor
CarlosAle
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