Poemas : 

Arquitetura de Sina

 
Ninguém me viu partir,
mas ficou o cheiro de terra à porta.
Esqueci um vulto no espelho,
talvez para que lembrassem
que ausência também é forma.

Guardei-me em casas sem telhado,
onde o tempo entra de lado
e a memória acende velas por susto.

Ensinei o silêncio a habitar a ruína,
não por dor, mas por arquitetura de sina.
As paredes, então, aprenderam o céu,
e a altura reteve o que de mim ainda caía.

 
Autor
Aline Lima
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 17/11/2025 10:17  Atualizado: 17/11/2025 10:17
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 2295
 Re: Arquitetura de Sina
Em todo o poema há metáforas muito bem conseguidas.
Gosto como nos primeiros versos haja a alusão aos sentidos. O olfato é, sem dúvida, um dos primordiais e que associamos facilmente à memória.
A terra pode ter vários cheiros.
A segunda estrofe, é muito bela, com símbolos de fragilidade bem conseguidos.
Tem graça haver algo que "acende velas por susto". Sempre pensei no susto como algo repentino, súbito, rápido, como uma brisa ou um vento. Mais depressa colocaria a apagar.
A última tem também a sua preciosidade.
Quando "as paredes, então, aprenderam o céu", diria que o objectivo foi concretizado.

Gostei.
Favoritei.

Obrigado pela leitura.


Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 21/11/2025 18:34  Atualizado: 21/11/2025 18:34
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 911
 Re: Arquitetura de Sina
.
"Guardei-me em casas sem telhado,
onde o tempo entra de lado
e a memória acende velas por susto."

Gostei especialmente destes versos, que descrevem bem essa arquitetura frágil feita de memória e de ausência.

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