Lá vai ela, farol de cetim berrante
entre carvalhos e musgo.
Berra.
Elefante de óculos escuros
na penumbra. Vermelho, alvo.
Progenitora no cadeirão da incoerência,
diz: “Avança.”
Mãe que não visita a própria mãe?
Empurra a filha, que é mais afoita.
O bosque ferve de dentes.
Perigos óbvios.
E ela vai.
Mandar a jovem ao lobo — estratégia?
Sem colete, apenas com tino escasso
e sem seguro de vida.
O “outro” agradece o serviço de entregas
ao domicílio.
O atalho é um convite para o abismo.
Instruções maternas são letras pequenas.
Ninguém lê.
Mãe ausente, avó que aguente a digestão.
A vida é este bosque onde o GPS morre.
Não é um conto —
é erro de planeamento.
Concreto.
Um capuz que esconde tudo.
Menos a parvoíce.
Carlos Lopes
"A poesia não deve ser o caminho mais curto entre dois pontos, mas o caminho onde o leitor mais gosta de se perder."
Olá Poetas,
Este poema nasce de um pequeno desconforto antigo, sobretudo desde a infância: a estranha naturalidade com que certos contos infantis aceitam decisões bastante duvidosas.
Partindo de uma história amplamente conhecida (adivinhem qual), o poema procura olhar para esse universo através de um narrador mais ressabiado do que ingénuo. O resultado é uma observação ligeiramente satírica sobre escolhas, responsabilidades e sobre a curiosa capacidade humana de ignorar perigos evidentes.
Qualquer semelhança com factos reais é pura coincidência…