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Quinta-feira santa, 02 de abril de2026

 
Quinta-feira santa, 02 de abril
- Quem tá no banheiro? Perguntou a resoluta sra. Vince saindo dos aposentos do Sr. Com, onde acabara de faxinar – o cheiro pesado de agua sanitária e outros desinfetantes ardiam pela pensão toda. O barulho incessante da chuva no telhado sufocava qualquer outro som – Foi assim desde as primeiras horas da madrugada – os pingos estatelando-se nervosamente nas telhas.
- Uma casa de doidos, Deus me livre – esbravejou a sra. Vince ao ouvir o queixume de Caçulinha sobre o genro que colocara o rádio e tirara o balde da goteira e a mesma molhou o quarto – Casa de doido. Imagino como não é a casa deles. Qualquer dia vou lá.. – Vai nada, pensou seu Com, a sra. Vince era só goela. Ameaçava fazer e não fazia nada.
Ele refugiou-se na exígua sala de visita – a televisão de plasma pregada na parede, coberta para proteger dos respingos e ao lado o relógio com o mostrador negro. Os sofás também cobertos com as cadeiras de plásticos emborcadas para evitar a urina de seus felinos.
No “Cavalo de Troia – I – Jerusalém” – Depois do suplicio pesado e do encoroamento de espinho e tabuleta INRI feita pelo próprio Pilatos – seguido pelos dois ladrões começa a caminhada para o Gólgota – Eram 12:30 de sexta-feira de 07 de abril de 33 – segundo Jasão, o chefe da operação, não houve nenhuma via-sacra pelas vielas e becos da velha Jerusalém, pois eles saíram pelo portão de Efraim e seguiram por fora da muralha até o monte das Oliveiras.
Enquanto a Sra. Vince faxinava, o sr. Com na copa-cozinha da pensão preparava sorrateiramente dois sandubas com as sobras da torta de sardinha de ontem que surrupiou da geladeira. Sob o olhar compassivo do sr. Vince assistindo um documentário sobre a atriz Ioná Magalhães no filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” do genial Glauber Rocha. Caçulinha no quarto depois de preparar o café.
Nenhum canto de um pássaro, nem o estridular dos bem-te-vis e nem o palrear dos periquitos – somente o som da chuva.
Minutos depois, a sra. Vince de roupa trocada segue para o mercado, mesmo debaixo de chuva. Sr. Com assistiu um bom filme francês – “Sob as escadas de Paris” – sous les etoiles de Paris – seria sobre as estrelas de Paris – emocionou-se no final quando o pequenino refugiado de Burkina Faso encontra-se finalmente com a mãe no aeroporto, preste a ser banida para Austria – Um filme com alma – uma idosa sem teto o acolhe no seu abrigo, abeira do rio Sena. Uma Paris diferente dos filmes de Wood Allen. Uma Paris humana, dos sem tetos e dos refugiados nos seus acampamentos. Muito bom.





 
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efemero25
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