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03 de abril - sexta-feira santa

 

- Ela não come mais, só vomita. Estar se despedindo – lamentava a sra. Vince tristemente, ela gosta de seus animais, um amor devotado, mas pelas filhas já tinha chamado o controle de zoonose para sacrifica-la, mas a senhora condoída pela dor negava peremptoriamente essa ideia.
03 de abril – sexta-feira santa
- Onde vocês estão brigando, bando de porra! – gritou a sra. Vince hiper zangada na porta doquintal para os gatos abusados que agora esguicham selvagemente sobre o telhado da pensão – passaram a madrugada toda estranhando-se no telhado do vizinho, que o espantou ainda pouco – Psiu, fora bando de diabos! Vão perturbar prá! – gritava desesperadamente e batia a ripa na parede para enxota-los – os dois contentadores pularam para cá e começaram estalar as telhas com seus passos atabalhoados e miados que ecoavam na lama – Vão prá lá – gritou também a irada Sra. Vince, tirada da sua zona de conforto.
Minuto depois acompanhava o marido até a porta da rua, para abri-la e fecha-la. O mesmo ficou no terraço sintonizando o celular.
- Bom dia professor! – saudou-lhe uma voz feminina do meio da rua.
- Bom dia, meu amor! Como vai? – retrucou afetuosamente como todo gentil cavalheiro faria.
A sra. Vince ao ouvir esses rasgados elogio, voltou-se e pela fresta das rotulas da porta esbravejou: - Vai logo comprar esse pão abusado – e já na cozinha arrematou: - Esse negocio de meu amor mora dessa, que abuso, hum!
O cheiro de pão assado inundava gostosamente o amanhecer na Vila Embratel. O poeta acordara as cinco da manhã para urinar pela terceira vez, de volta a penumbra de seus humildes aposentos, abriu uma folha da janela e ficou contemplando o céu ainda escuro, que aos poucos foi matizando-se num azul e esse se decompondo até clarear – Sr. Com pensou no filho distante – “Será que vai trabalhar hoje?” -pensou também nos quatro astronautas da missão Artemis, encapsulado na diminuta nave rumo a orbita lunar – “Será que já consertaram o sanitário?”
Começou a reler as ultimas paginas da “Operação Cavalo de Troia” -Cristo morreu por asfixia as 14;20 de 07de abril do ano 30 numa sexta-feira – A treva que cobriu Jerusalém foi provocada por um gigantesco objeto voador que eclipsou o sol – e os terremotos nucleares. O corpo do nazareno entregue aos amigos José de Arimateia e Nicodemos que com ajuda luxuosa dos alguns centuriões romanos transladaram-no para a gruta no horto. Judas, o Iscariote suicidou-se no Geena e os ratos devoravam seu corpo.
- Seu Constantino, olha o bolo que mamãe mandou para o senhor! – chamou a Caçulinha da porta do quarto.
Sr. Com levantou-se , apanhou o copo sobre a cômoda e seguiu para a copa. A pequenina deixara a pequena travessa contendo dois pedaços de bolos – um de trigo e o tradicional de tapioca encima da mesa, onde o sr. Vince cheio de pompas tomava o seu breakfest – O sr. Com encheu seu copo com o café da garrafa térmica e enfurnou-se nos seus aposentos. Guten Apettit, mein Herr!
Quinta-feira santa, 02 de abril
Repôs a mesinha no mesmo lugar, de frente para a janela de vista para o terraço e a rua – Datilografou um pouco na maquina que não mandou consertar, sabe lá por quê – foram mais de quatro mil reais em quatro parcelas, que evaporaram sem que percebesse, também não comprou nenhum misero livro. Simplesmente gastou sem saber com quê. Bem, não adianta chorar sobre o leite que tu mesmo derramaste. Esqueça..
O cheiro de peixe frito impregnava o ar da pensão, a sra. Vince concentrada na beira do fogão, a filha mais velha arrumando o quarto da Caçulinha, o genro alheio ouvindo radio sentando a mesa na copa. E o impassível Seu Castro, factótum no computador.
- Procura, procura que tu achas – respondeu estoicamente a sra. Vince a uma das perguntas inocentes de Caçulinha.
Sr. Com serviu-se de um café guevariano(sem açúcar) para ingerir com uma dipirona e assim aliviar suas dores sintomáticas e psicológicas. Agora sim, encontrava-se no eu literário, faltava apenas colar as fotos de seus gurus na parede abaixo da janela e de frente a mesinha -Henry Miller, Jack London e Dostoievski para ilustrar o momento. Gritos vindo da quadra coberta da Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel chegaram tardiamente aos seus ouvidos. Foi a sala do computador, apanhar o minidicionário Silveira Bueno e o grandão Seu Castro cortava em pedaços um coco para o bolo de tapioca da sexta-feira santa – uma tradição que remontava a época áurea da casa grande dos Vince na rua Afonso Pena, Desterro – onde a venerável matriarca a grande Mama Grande Vince preparava pessoalmente o bolo para assa-lo no fogareiro. Sr. Com pediu-lhe um pedaço, mas mastigou timorato de quebrar os últimos cacos remanescente de sua extinta arcaria dentaria.
- Larga essa cachorra, droga - gritou a sra. Vince para a irrequieta Little Black que instigava com Beatiful, cadelinha doente.
- Cala a boca, cachorra nojenta – gritou novamente para a mesma que latia intensamente para seu Zé Grandleão.
Sr. Vince retornou para a pensão sem vestígio de álcool e enfurnou-se nos aposentos do casal. Mas a senhora Vince com seu olfato canino inquiriu:
- Quem te deu uísque? Pensa que não conheço o cheiro dele.
- Hum, hum – desconversou o sr. Vince ligando a tv e deitando-se na cama.
Terminou “Hollywood – 1936” do poeta francês Blaises Cendrars, amigo de Henry Miller e um dos primeiros a cumprimenta-lo pelo belo “Tropico de Câncer”
A missão Artemis com problema no sanitário – E onde eles vão fazer popô? Perguntava o sr. Com.
Beautiful definhava aos olhos vistos, mesmo com os cuidados zelosos da Sra. Vince, que fazia questão de fazer seus curativos duas vezes ao dia.
- Ela não come mais, só vomita. Estar se despedindo – lamentava a sra. Vince tristemente, ela gosta de seus animais, um amor devotado, mas pelas filhas já tinha chamado o controle de zoonose para sacrifica-la, mas a senhora condoída pela dor negava peremptoriamente essa ideia.



 
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efemero25
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