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Escrever ao som de... 2014

 
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Continuamos a nossa atividade com muito sucesso!
Na semana passada, os "cantores" foram Luxena, Alemtagus, MarySSantos, Alpha, Benjamin Pó, agniceu, gillesdeferre e Aline Lima. Quem serão os Lusos que se deixarão embalar pelas canções desta semana?

Hoje vamos recordar o ano de 2014.

A primeira canção pertence a Adriana Calcanhotto, uma das cantoras brasileiras mais acarinhadas dos dois lados do Atlântico. Em 2014, editou um álbum ao vivo, intitulado "Olhos de onda" que, segundo a autora, "é a celebração da minha volta ao violão, redescobrindo formas de tocar sucessos, experimentando músicas novas e nem tão novas assim". Entre essas músicas, aproveitamos para recordar a famosa "Esquadros", numa versão muito diferente do original.

A segunda canção é de António Zambujo, cantor português que tem explorado a ligação entre fado, música tradicional e música brasileira. A canção “Flintstones” integra o álbum Rua da Emenda, um disco marcado por uma escrita mais próxima do quotidiano e por arranjos simples, centrados na voz. Num registo descontraído e narrativo, Zambujo mantém a sua forma contida de interpretar e uma forte atenção aos detalhes musicais.

Adriana Calcanhotto – "Esquadros" (Ao Vivo)


António Zambujo – "Flinstones"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota - Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.


 
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Luso-Poemas
 
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Enviado por Tópico
fracafigura007
Publicado: 06/04/2026 12:30  Atualizado: 06/04/2026 12:30
Participativo
Usuário desde: 01/03/2026
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Mensagens: 48
 Re: Escrever ao som de... 2014
An Ocean in Between the waves/The war on drugs


o mundo desabava

fizeste que
inspirasse tempestades,
e havia chuva,….

o mundo desabava,
e mesmo assim
eramos crianças despreocupadas,
a balouçar perigosamente,
numa terra órfã,....

e sem que a página
se virasse,
fomos olhos a fundir-se,
corpos confiantes,
almas descoladas do corpóreo,
com o mundo sorvido,
num remoínho sem fim

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 06/04/2026 15:36  Atualizado: 06/04/2026 15:36
Moderador
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Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 3959
 Re: Escrever ao som de... 2014
Leste o que vinha de Leste
Meios ventos vento e meio
Atirados a torto e a direito
Com tua dor me trouxeste
Desejo d'um materno seio
Chão de pedras imperfeito

Morte que de lá era Norte
Sorte qu'o destino fez Sol
Esquecimento quase lento
Duma flor de luz consorte
Pétala que a vida console
E lhe pariu o pensamento

Azul como os céus do Sul
Deitado no mar cristalino
Desses olhos negros sós
Cor sem beleza que êxul
Com generoso toque fino
Dos passos de um de nós

Agreste o tempo de Oeste
Que se secou nos desertos
Sonhos loucos das gentes
Se fez d'água que bebeste
Com os olhos bem abertos
O amor qu'inda me sentes

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 07/04/2026 15:12  Atualizado: 07/04/2026 15:12
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 935
 Re: Escrever ao som de... 2014
.
cores de almodóvar

não é nosso o vermelho rubi
ou o verde esmeralda
da tela
vivemos numa aguarela
de ishihara
virada contra o papel
de parede desbotado

mas haverá sempre um dia
que nos oferece
um traço de sangue
na arena
e a visão de um limão
suspenso no ar
durante a queda

(inspirado em "Esquadros", de Adriana Calcanhotto)

Enviado por Tópico
Luxena
Publicado: 07/04/2026 21:54  Atualizado: 07/04/2026 21:54
Super Participativo
Usuário desde: 07/03/2025
Localidade: Brasília
Mensagens: 175
 Re: Escrever ao som de... 2014
Törköm (em alguma língua por aí, significa "multidão")

ó, luz vermelha que pisca
bem no fundo do meu coração
diga-me o que é a tal paixão
que dotou o homem de sensação

diga-me o que é ser vivo
se estar vivo é diferente
de algo como viver
mesmo sem querer

pois, se tantas coisas foram criadas
pelas suas mãos calejadas,
o que pode acontecer?

se notícias falam frases decoradas
que logo caem em desuso
o que é melhor fazer?

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 07/04/2026 23:14  Atualizado: 07/04/2026 23:17
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2314
 Re: Escrever ao som de... 2014
Eu sei que cheguei tarde.

Eu sei que cheguei tarde
como quem entra numa casa silenciosa
e percebe que o que era luz já se apagou

Fiquei preso no quase
engolindo palavras que ardiam
guardando gestos que não aconteceram
folhas que não caíram

O depois veio primeiro
ocupou tudo
cadeiras risos pausas
e deixou só o peso do que não foi

Quando cheguei
o tempo já tinha mudado
cada sombra estava no lugar de quem partiu
e eu não sabia onde ficar

Ficou só isso
gosto amargo de intenções não ditas
um peso que não larga
e aquela certeza

algumas portas
se fecham
antes de perceber
que cheguei tarde!

Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 08/04/2026 10:31  Atualizado: 08/04/2026 10:31
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 780
 Re: Escrever ao som de... 2014
de Adriana Calcanhotto – "Esquadros" (Ao Vivo)


Passageiros na passageira estadia


Queremos marcar o tempo
com algo belo,
que seja nosso.

Fazemos filhos,
construímos pontes,
reescrevemos a história.

Sorvemos as letras dos livros,
deixamos as linhas
entre os espaços
vazias
dos nossos íntimos.

Corremos demasiado,
para nunca mudarmos de lugar.

Prendemo-nos às coisas que não crescem
e esquecemos de agraudar
com o que há de mais bonito.

E morremos
sem aproveitar
um terço
da estadia
neste paraíso.

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 09/04/2026 02:13  Atualizado: 09/04/2026 02:13
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1154
 Re: Escrever ao som de... 2014
.
Erro de ver

vejo

e erro

não de mira

de resto

tem sempre alguma coisa
fora

que não combina
e melhora tudo

um detalhe atravessado
naquilo que parecia inteiro

e eu paro

não pelo conjunto

pelo desvio

olho

e não alcanço

reconheço

o que não me aconteceu

um vermelho

fixa

e fico

volto

alguém

no meio

em falta

e eu

do lado certo

errada

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 10/04/2026 13:19  Atualizado: 10/04/2026 13:52
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1470
 Re: Escrever ao som de... 2014
"Esquadros" - Adriana Calcanhoto



Olhos no mundo


meus olhos no mundo
eu mundo, meu mundo
outro mundo
se mudo ou surdo
o mundo
eu mudo(-me)

transformo(-me)
as minhas janelas
os olhos
de ver o mundo
e do fundo do meu
devolvo olhares
e se não mudo
o mundo inteiro
talvez mude alguns
mundos inteiros
que vejam comigo

esses que sabem
ou queiram saber
das cores
das dores
dos sabores
dos odores
dos amores
e devolver

meus olhos no mundo
com outros de ser
por mundos que vejam
outros que almejam
a fome de ver
sem a cegueira
que todo o mundo
vê crescer


10-04-2026

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 10/04/2026 16:54  Atualizado: 10/04/2026 16:54
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1470
 Re: Escrever ao som de... 2014
"Flinstones" - António Zambujo


FlinTone

oh Quinhas abre a porta
eu sei que tou c'uma pinguinha
alguém contou a cousa torta
eu nunca me meti co'a bizinha

eu sei que arrasto as asas
muitas bezes para as lourinhas
num tenho culpa do sol, das brasas
de minis de frente tão fresquinhas

também sei que pode inganar
aquele brumelho no colarinho
mas às bezes pra bariar
olho pró tinto já caidinho

às tantas já cambaleio
e num me cunsigo sigurar
e copo de binho, cheio
lá começa a entronar

oh Quinhas num sejas tola
abre que eu sou só de ti
as manchas que bês na gola
são do binho que num bubi


10-04-2026

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 12/04/2026 12:19  Atualizado: 12/04/2026 12:28
Colaborador
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4505
 Re: Escrever ao som de... 2014
Hoje lembrei-me de mim

Hoje lembrei-me de mim
dos sonhos e dos planos semeados no tempo

Hoje retirei todas as velas apagadas
pelo sopro do meu suspiro
e mergulhei nas camadas agridoces da vida
recordei as horas sentada
na berma do caminho
olhando os rostos que por mim passavam
apresados, calados
como se fossem amordaçados
pelas crises existenciais de serem
simplesmente rostos

Hoje apago uma nova vela
num sopro feroz
desenho com suaves memorias
o teu rosto
e nos meus olhos semi-cerrados
uma lágrima embacia
o contorno dos teus lábios

Hoje pela porta aberta
arrumo os meus passos
e o tempo deixou de ser tempo
e é tão somente vida

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