I. O Labirinto de Coral
(Uma Sestina sobre o canto das sereias)
Nas profundezas onde o sol vira vidro,
Onde o azul se funde ao peso do mar,
Elas tecem fios de um antigo canto.
Nenhum marinheiro consegue o vão
De ignorar o brilho que as ondas trazem,
Pois o desejo é o mestre de cada corpo.
O desejo enlaça o náufrago e o corpo,
Refletido no espelho quebrado de vidro.
Elas sorriem enquanto as correntes trazem
As promessas doces do fundo do mar.
Não existe saída, não existe um vão,
Para quem se perde no eco do canto.
É feito de escamas o segredo do canto,
Que vibra nos ossos de qualquer corpo.
O horizonte se fecha, não resta um vão,
Só o brilho cortante de um estilhaço de vidro.
Tudo o que é sólido se dissolve no mar,
Enquanto as marés novos ossos nos trazem.
Quais são as lembranças que as águas trazem?
Memórias tragadas pela força do canto,
Enterradas no ventre profundo do mar.
A espuma branca agora banha o corpo,
Que flutua leve como se fosse de vidro,
Buscando a luz através de um pequeno vão.
Entre o coral e a concha, existe um vão,
Por onde as sereias os sonhos nos trazem.
A voz é um prisma, um sopro de vidro,
Que transforma a morte em um eterno canto.
Já não pertence à terra aquele corpo,
Batizado pelo sal e pela fúria do mar.
O marinheiro agora é parte do mar,
Atravessou o abismo, fechou-se o vão.
Não há mais peso no resto do corpo,
Apenas as algas que as ondas lhe trazem.
Ficou no silêncio o eco do canto,
Nas cidades submersas feitas de vidro.
O corpo no mar agora é puro canto,
As ondas trazem luz por cada vão,
No reino de vidro, onde o tempo é o mar.
Por Chris Katz
Sou Mundos!
Chris