Poemas : 

Véspera

 
As cidades acendem
como quem cobre um hematoma.

Por baixo,
o mesmo cinza apressado,
um frio aprendido
nos dias úteis.

O calendário pesa
mais do que devia.

Fechar cedo
virou cálculo.
Quem não aprende
paga em aberto.

Endurecer também foi cuidado.
E cansa.

Por uma noite,
ninguém exige tudo.

Sobra o que ainda precisa
de um pouco de mesa,
de um pouco mais de demora,
para não seguir tão só.


 
Autor
Aline Lima
 
Texto
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Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 28/12/2025 21:38  Atualizado: 29/12/2025 15:04
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 Véspera p/ Aline Lima
.
O poema começa com uma comparação muito original, daquelas que mereceriam por si só um comentário completo: o espaço marcado por um impacto violento, que se sente a latejar sob a pele, que se revela e oculta ao mesmo tempo.

Este espaço mistura-se pouco a pouco com o tempo, inexorável no seu peso, que nos leva a uma sensação de desconforto e que obriga a uma atitude de precaução perante o risco iminente de dor, se nos envolvermos demasiado nele.

Depois, o belíssimo aforismo: "Quem não aprende / paga em aberto". Quem não se protege, arrisca-se a ser o hematoma transformado em ferida exposta.

Assim, prefere-se a "sobra": mesmo que insuficiente, permite a continuidade, que se mantém como imperativo vital apesar de tudo.

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