https://www.poetris.com/

Poemas, frases e mensagens de Christina Cabral

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Christina Cabral

Toma cuidado

 
Toma cuidado

Tu me falaste baixinho
E o amor contorceu-se em mim.
Beijaste-me com carinho
Num suave e doce abraço.
Fiz-me de ferro e de aço
Para prender-te no laço
Com olhar de serafim.
Num angelical sorriso,
Cobri os olhos, a face,
Para esconder, no disfarce,
Este fogaréu sem fim.
Acalmar dentro do peito
Num suspirar satisfeito
Meu fogoso coração.
Meu amor toma-o com jeito
Não o mates de emoção.
 
Toma cuidado

Delicadeza, educação ou... hipocrizia?

 
DELICADEZA, EDUCAÇÃO OU. . . HIPOCRISIA?

A hipocrisia é que nos salva. Se não fosse pela hipocrisia este mundo já teria explodido há muito tempo. Porque a hipocrisia é o sinônimo de política. Quando vemos figurões políticos discursando, mentalmente o taxamos: "Ah, hipócrita!" Mas não é de política que vou falar — o rádio, a TV e os jornais andam transbordando o assunto pêlos ladrões. . . Vou falar da nossa hipocrisia, ou melhor, como seria o nosso dia-a-dia sem a nossa hipocrisia.

A começar pelo nosso "Bom dia! Como vai você? Dormiu bem? — Eu? Estou ótima! Que belo dia, não?" A coisa sairia assim: "Bom dia? Seis horas da madrugada, eu com os olhos pregados de sono, com o corpo moído, tendo que enfrentar o batente de sempre e você me vem com esse "Bom dia?”

Logo depois eu me sento à mesa e a empregada me diz: "O ovo já está quente, posso servir?" Ao descascar a sua pontinha, eu perco o sorriso e berro: "Mas que droga! Todo dia é a mesma coisa! Você quer que eu engula esta porcaria com baba e tudo? Oh, céus, quando é que você vai aprender a contar sessenta segundos para deixar um ovo no ponto?" — e zás, atiro longe aquela meleqüência.

Daí à pouco o telefone toca; é a Ambrosina me convidando para o aniversário do netinho e eu que leve os meus seis porque as amigas levarão os delas. Em vez de agradecer encantada: "Aniversário do netinho? Mas que beleza! 6 aninhos! Está ficando um homenzinho! Ah, sim, festinha simples com bolinho, velinhas, chapeuzinhos, bexigas coloridas, apitos, chocalhos e réco-récos? Vai ser um sucesso!!!" — eu respondo: "O que? Juntar as minhas feras com as feras das amigas e você chama isto de "festinha"? Tá doida? Já pensou, nós as velharias, de caras pintadas pra esconder os estragos, no meio de uma balbúrdia, de correrias e gritarias, apitos estridentes, matracas e berrando umas com as outras, sacolejando netos e xingando as empregadas? Tenha a santa paciência. .."

Quando o marido chega para o almoço e vem de cabelo cortado, rente à cabeça, eu abro os braços e digo: "Que amor! Cortou o cabelo justo do modo que eu "Não" gosto!'

Mais tarde na cidade, eu encontro com uma conhecida que não vejo há anos. Dou-lhe os costumeiros dois beijinhos e lhe digo: "Meu Deus, como você envelheceu! Quase não a reconheci com esses cabelos brancos!" Ela me responde: "Como você está magra! Foi o diabetes, foi? Que barbaridade! Sua cara é só pregas! Ainda bem que o vestido esconde os ossos, não? Adeus, querida, espero não vê-la nunca mais."

No cabeleireiro ele me pergunta: "O que quer que eu faça com estes fiapos?" (eu ia escrever “falripas”, mas o termo é muito velho, lá dos meus “bons tempos”...). Eu digo: "Um milagre!" Ele retruca: "Sou santo por acaso?" Eu remôo: "Vá tratando de cumprir a sua obrigação; quem mandou ser cabeleireiro? E olha, calado, que de fofocas estou até aqui — e risco o pescoço.

De volta à casa o marido exclama "Lá vem ela com aquele capacete de astronauta!" Daí eu digo. . . Não, digo mais nada!

Graças a Deus somos todos hipócritas
 
Delicadeza, educação ou... hipocrizia?

Incompreensão

 
Ultimamente comecei a trumbicar: balanço pra frente e caio para trás. Hoje dei até uma giradinha na malemolência ; o distinto, sempre colado a mim, segurou-me pelo braço. Minha filha assistiu a cena e perguntou nervosa:
– O que foi? O que foi?
O distinto respondeu com desprezo:
– Ela deu pra isso, agora!
Resolveram que eu devia deitar (detesto!) e lá fiquei eu esticada em minha cama, pensando na vida. Minha filha, carinhosamente, sentou-se ao meu lado e perguntou
– O que está sentindo, mãinha? Está triste?
Daí eu, compungidamente, suspirei e afirmei:
– Estou pensando nas coisas que eu não tenho mais...
– Credo, mamãe!
– É sim! Depois que vim para Aracajú, não tenho mais (e comecei a contar nos dedos) – não tenho mais enxaqueca, não tenho mais falta de ar, não tenho mais dores reumáticas e não tenho mais que pintar os cabelos porque o distinto jura que eu estou linda de cabecinha branca e eu acredito nele – meu amor jamais mentiu e não há de ser agora que comecemos a nos enganar.
Tudo isto melhorou a vida. É uma delícia quando dançamos juntinhos ou, lembrando o velho swing, damos uns passinhos maneirosos.
– Mamãe! – disse minha filha, rubra, quase apoplética – quando você quiser dar um show completo, reúna a família toda, ouviu? Tremelique, bambeie pra todo mundo, porque, pra mim – CHEGA! – e saiu, batendo a porta.
 
Incompreensão

Épica viagem

 
Épica VIAGEM!
Estava me deliciando em ler um prospecto sobre o turismo em Portugal, quando ouvi a notícia de que um grupo de estudantes de Faculdades de Letras de todo o Brasil tinha sido convidado para ir à “santa terrinha”, com o objetivo de intercâmbio cultural. Fiquei roxa de inveja, mas reagi valentemente e, invocando Camões, dei azas ao meu pensamento e fui viajar de forma virtual (não é o termo da atualidade?) e escrevi uma epopéia às avessas:

A ocidental praia lusitana
– Das armas e brasões assinalados –
Recebe a visita da gente americana.
De muito aquém de Trapobana,
Partem estudantes entusiasmados,
Vindos dos pontos cardeais,
Dos confins brasileiros isolados
E, por ares nunca dantes trafegados,
Rumo a novos ideais:
Confraternização humana, cultura e a alegria,
Que só para este feito já trazia,
De sobejo, motivos sem iguais.

Pudesse eu, mesquinha criatura,
Lançar mão à pena e a musa inspiradora
Me alargasse a mente, na aura de escritora,
Discorrer o evento em alta literatura:
Partia! Alegremente, navegando,
Descrevendo em sonho a épica viagem,
Como quem parte – e cá fica sonhando –
Para alcançar a tão fugaz miragem:
Visitar Lisboa, Cascais, Alfama
E no peito saudoso de quem ama,
Estreitar patrícios dessa terra boa!
Escutar o fado, dançar o vira,
Provar o vinho de devida fama;
Saborear os acepipes que o paladar reclama.

Partiu Cabral da ibérica península
E, por mares nunca dantes navegados,
Veio bater os seus costados
Nesta verdejante e nativa insula.
Toda uma civilização se ergue
Dos primeiros passos do nauta português;
As caravelas, com os panos enfunados,
Tecem caminhos mal traçados
E o cordão umbilical se fez,
Entre a terra-mãe e o filho estremecido
– Brasil, dos brasis tão percorridos,
Desbravados pela gente lusitana.

Se eu fosse poeta, quão mais diria
Deste oportuno e feliz passeio;
Mas avó roceira, cronista de aráque,
Deixo de lado o ciumento ataque
E cumprimento o povo viageiro.
Província do Minho,
Trás-os-Montes, Douro, Litoral...
Meu Deus, quanta coisa linda
A se ver em Portugal!
Quanta sonoridade:
Ilha dos Açores, Serra do Caldeirão!
Desperta a brasilidade,
Ecoa no coração!

Só quem engrolou a língua
Em estrangeiras terras,
Sabe a dificuldade,
Das verdadeiras guerras
Que tem por enfrentar...
De Portugal a chegança,
Nos desperta a lembrança
De pisar o pátrio solo.
Porto Seguro, Estoril...
O mesmo jeitinho manhoso,
O mesmo lidar amistoso
Do povo do meu Brasil.
Da velha-mãe ao largo colo
É retornar cheios de fé,
Reencontrar as mesmas crenças
Nas festas de Nazaré.

O tempo que a tudo sana
E a tudo iguala,
Uniu estas nações
Num apertado laço:
Não mais a terra soberana,
Não mais a colônia que se cala;
Irmãs no sangue e no progresso,
Têm em seus portos livre acesso
E o mesmo ardor no caloroso abraço
 
Épica viagem

Desilusão

 
Pensamento louco,
Onde as tuas rimas,
As longas caminhadas
De ritmo marcadas,
De leveza, luz e cor?
Onde a tua graça,
O suave encantamento
De reviver o amor?
Pensamento louco
Cala teu anseio,
Veste tua juba,
Palhaço da ilusão.
Se o povo paga,
Ri da dor que te afaga,
Desilude o coração,
Deixa partir descontraído
Deste teu peito sentido
A rima, o verso, a paixão
 
Desilusão

Olhando a criança

 
Olhando a Criança

Quando tu sorris,
Um anjo sorri, feliz,
Iluminado por teu sorriso.
Quando tu balbucias,
Enches o lar de alegrias,
Com teu falar impreciso.
Quando juntas os dedinhos,
No teu primeiro contato.
A surpresa deste fato
Faz-te abrir os bracinhos
E suspiras, assustado,
Com tua ação atrevida;
Descobrindo em ti a vida,
Repetes mil vezes o ato.
Agora não são mais sorrisos,
E sim gritos de surpresa:
Encontras em ti a beleza
Com o mistério do tato.

A fitá-lo, encantados,
Nós dois, apaixonados,
Tendo no olhar doce brilho,
Vendo-nos realizados,
Unidos, eternizados,
No sorrir do nosso filho!
 
Olhando a criança

O cupim atacpu de novo

 
Eu e o distinto comemoramos de forma inusitada as bodas de Diamante – sessenta anos de casados. Teve bolo? Não! Fizemos um bolão com as nossas coisas e mudamos novamente. Já perdi as contas das mudanças. Vamos conhecendo o Brasil, novas terras, novas gentes.
Deu cupim no telhado do sítio – lindo! – onde estávamos e o telhado despencou.
Duvido, mas duvido mesmo que outro casal tenha comemorado a Boda Máxima fugindo de cupim. Não teve missa, nem festa, nem retratos.
Dormimos no chão porque, fora os colchões que compramos, a mudança só chegaria no dia seguinte. Foram os 60 anos mais desbodados do mundo!
O distinto ficou feliz porque deixamos de assinalar tanta velheira, rugas repuxadas por risos que causariam pena na família e pôsteres. Continuamos intactos, namorando na maior candura dos recém- casados e passando por este mundo sem deixar marcas faciais e curvaturas lombares. Continuamos jovens por dentro e o “ por fora” que se dane. Com 79 anos e ele 84 poderemos continuar sonhando com as alianças de brilhantes porque, sonhar enfeita a vida e recordar sorrindo, é reviver com gratidão.
Adoro ver-me refletida nos olhos do meu distinto. Eles me dizem que sou linda! Vou aproveitar para refletir-me bastante antes que ele faça operação de catarata...
Chegamos a conclusão de que o cupim acabou com a festa mas nos integrou na modernidade, assim como nos fez retornar aos braços dos amigos da internet.
 
O cupim atacpu de novo

O tranco

 
Acabo de receber o maior tranco da vida. Há dois anos venho lutando e me preparando para submeter-me à cirurgia de catarata; como sou diabética o controle da glicemia dificultou manter atualizados todos os exames exigidos. Com a dieta forçada perdi uns bons quilos; se já não era gorda, sequei! Oh, céus!
Fiz a operação e voltei a enxergar. Agora estou me contendo para não meter o pé na porta do centro cirúrgico no Hospital dos Olhos e exigir do Dr. Mário Ursolino:
– Devolva já as cortinas da minha catarata! Não quero mais ver esta rugaiada. Mantenha aquele olhar abestado e inocente, descrente das dobras que me franzem as pálpebras, que me enrugam os lábios e descem pelo pescoço.
Cecília Meireles teria pena de mim ao ver o meu assombro, o meu cruel espanto quando, ao olhar-me pela primeira vez ao espelho, após a cirurgia, perguntei enlouquecida: “Onde deixei a minha outra face?”
E o distinto a jurar-me “Você é linda! Você é muito linda!” Mentiroso, enganador, aproveitador desta velhinha cegueta!
Se ao menos eu pudesse usar um véu de odalisca ou uma burca iraniana...
Contou-me a minha amiga Helena – que não tem catarata - que quando o marido chegou do hospital, depois de fazer a tal cirurgia, ao passar pela varanda do seu apartamento, exclamou, ao olhar para os telhados das casas abaixo:
– Credo! Quantas antenas de televisão!
Depois, ele entrou para o banheiro e ela ouviu um berro medonho:
– Meu Deus! Que caco velho eu estou!
Daí, disse a minha amiga que ela correu para o quarto fazer a maquiagem, tapar as rugas com base, creme e pó-compacto, antes que ele a visse e o impacto o fizesse atirá-la pela janela.
Não, eu não estou brincando não. Eu já usava óculos de lentes grossas para ler, ajudadas por valente lupa, mas estar cega assim, deste um tanto, a ponto de não me reconhecer depois de curada? Não posso acreditar!
Você vai fazer operação de catarata? Vai mesmo? Pois então prepare seu espírito: deixe de ter medo - a coisa é muito simples e rápida, não dói nada - mas, vá descrendo dos elogios maridais, das comparações que os filhos fizerem entre você e as velhinhas circunvizinhas. Deixe de se encabular por arrastar os pés e se queixar de dor nos quartos e diga, com os olhos bem abertos, como o amigo Ricardo Calmon:
– Viva a vida!
 
O tranco

Esperando as chuvas chegaem

 
ESPERANDO AS CHUVAS
Se aqui ocupo espaço
Pra falar desta tristeza,
É porque tenho certeza,
Muitos hão de me escutar,
Pois a água é ben¬fazeja
A todos os seres da Terra.
Médio, rico, indigente,
Pre¬to, branco, amarelo,
Toda a classe de gente
Vai na água se banhar;
Vai beber o seu frescor,
Vai regar suas verduras,
Vai gozar suas loucuras,
Na água se aliviar.
No mar, no rio, na cascata
No ribeirinho da mata,
Na lagoa ou cacimbão.
De¬lícia igual não existe,
Que a todos assiste,
Com dinheiro ou sem tostão

Pois a nossa lagoinha,
Tão querida, tão faceira,
Por culpa da soalheira
Se botou a transpirar
E se foi, desfeita em gazes,
Foi sumindo, foi subindo,
Querendo o sol alcanar. . .
Não há mais cum-cum de sapos
Lá pras bandas da lagoa.
Da lagoa ficou a cova,
Seca, dura, esturricada,
Sem bichos sem passarada,
Sem meninos e canga-pés.

O pau-de-bebedouro
Se atolou na lamaceira
E lá ficou encalhado;
Já não o empurra o gado,
Arreganhando o fo¬cinho,
Procurando o que beber.
Que nem defunto,
Reto, du¬ro, de pé-junto,
Enterrado em cova rasa. . .
E o chão se foi gretando,
Foi se abrindo se partindo,
No forno vivo do sol.
O galinho-da-campina,
O vém-vém, a seriema,
Toda a nação pequena
Dos bichinhos de pena
Se apartou da lagoa.

Lá fi¬cou a coitada,
Preta, suja,abandonada
Das belezas que pos¬suía.
Já lavou tanta roupa,
Já lavou tanto chão;
Já foi ponto de conversa,
De riso e falação.
Ouviu muito mexerico
De co¬madres faladeiras,
De comadres lavadeiras
De roupa, vida e questão. . .
Já deu muita ocasião
Para as moças namoradei¬ras
Mostrarem o corpo bonito,
Nos banhos, nas brincadeiras.
Debaixo das algarobas,
Dos pés-de-pau em flor,
Houve muito romance,
Muitos beijos de amor.

Fora os pescadores,
De landuá, vara e tarrafa,
Que vinham com seu farnel
Apro¬veitar os feriados;
Lá ficavam descansados,
Boa sombra, bom assento
Dando goles na garrafa
E tragadas ao vento.
A lagoa secou. . .
Olho vazado ao céu,
Olho triste, resse¬cado,
Chorando sem ter chorado,
Sem lágrimas pra se banhar.
E de noite a lua cheia
Fica triste, suspirosa,
Por não se ver tão formosa
Na aguinha da lagoa
E vai chorando pra¬teado
Sobre o negrume do chão.
E o vento que passa,
Fininho, assoprando
A queimadura, vai falando
Com ternura, com cuidados,
Com carinho, alisando a solidão.
Os dias vão se seguindo:
Já contá-los pouco importa.
Para a lagoa desfeita
São todos, todos iguais.
O céu, lâmina de prata,
Incandesce a pouca mata
Sobre a terra semimorta;
As nuvens que passam airosas,
Tão fresquinhas transitórias,
Vão contando suas histórias
Do sol e do mar de anil...
E a lagoa deslumbrada
Com a boca escancarada,
Vai gemendo tristes ais:
"tem dó dos meus pezares,
A arder nos meus ardo¬res
Neste chão, seco e febril"
Muito louca, escandalosa,
A nuvem desfeita em rosa,
Vai desmaiando na cor;
E o sol livre da venda
Que lhe tolda o fe¬ro olhar,
Rutila o aço-brilho e fere,
Fere profundo
Todo o abandono do mundo,
De uma lagoa a secar. .
 
Esperando as chuvas chegaem

Inspiração

 
A de olhos glaucos, Atena,
Musa de um poema,
Deusa do Olimpo
E por Homero amada,
Seus lábios, em palavra amena,
Declamam feliz e doce verso

Suave e delicada
Libertas a inspiração
Que na minha alma acena
E leva-me á vastidão
Do espaço sempiterno
De um olímpico universo.

“E quando a aurora,
De dedos de rosa,
Surge matutina”,
Devolve meus sonhos,
Tão puros, risonhos,
Ao meu berço de menina
 
Inspiração

Pássaro da vida

 
O silêncio da ausência
Dos entes queridos
Confrange a lembrança,
Invade a residência
Risonha do passado.
Sussurra em meus ouvidos
A melodia gentil
Da região desconhecida.
Um pássaro alvissareiro
Pousa na árvore da vida
E alegre e fagueiro
Me convida.
O barco sem marujo
Aguarda meu destino
Preso à areia da praia.
Um barco de rumo certo
Para a eternidade.
A aragem suave,
Acariciante,
Toca meus cabelos.
O pássaro partiu
Em plena liberdade.
 
Pássaro da vida

Súplica de Natal

 
Menino Deus!
Receba em sua lapa
os pequenos insepultos:
são anjos finados
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
os andarilhos insepultos:
são caminhantes cansados
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
a prostituta exausta:
foi anjo renegado
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
o pai desesperado:
tornou-se ladrão
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
o índio martirizado:
tornou-se revoltado
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
os desempregados:
foram marginalizados
pela injustiça do homem.
Receba, Senhor, às, mancheias,
toda esta raia miúda,
toda esta raia sofrida
na injustiça do homem.
E mil vozes, nesta súplica,
ecoarão como sinos:
vozes dos exilados,
vozes dos amordaçados,
que não chegaram a crescer.
Ecoarão também, neste grito,
vozes de muitos fetos
que falharam em seus destinos,
vozes dos pequeninos
que não chegaram a nascer.
Vozes de suas mães,
que negaram o próprio filho.
Pobres mães endoidecidas,
pobres mães filicidas,
na injustiça do homem.
Receba em sua lapa
o ressoar do remorso
destas consciências pesadas,
destas consciências compradas
na injustiça do homem.

Oh! Senhor Menino Deus!
Tenha piedade
da humana decadência,
e um Natal de clemência
abranja toda a Humanidade.
Que o sino, pequenino,
repicando em cada peito,
seja um carrilhão desfeito
todo em Paz e Harmonia.
Senhor! Senhor! Por um dia!
Ao menos, Senhor,
no Seu Dia...
 
Súplica de Natal

Minha velhice

 
A velhice abre as asas
E nos leva ao passado.
Nesse lembrar encantado.
Vai voltando de mansinho,
Refazendo o caminho,
Tão querido, tão amado.
Se o pranto lava a alma,
O riso a alma enfeita
Pois a saudade se ajeita
Neste amor que nos acalma.

A velhice abre as asas
E nos leva à amplidão
Afastando o sentimento
Dos rumos rudes do chão.
Tua face, a minha face,
Meu olhar nos olhos teus,
São chamas que me aquecem
Neste sublime momento,
Com carinho se oferecem,
Pra abrigar os sonhos meus.

Resposta.
Querida: sem você a minha vida teria sido uma estrada vazia e sem rumo. Pois foi você, e só você, que a encheu de luz, sabor e alegria. Até nos momentos mais difíceis soube me amparar, mostrando a presença constante do amor e a imorredoura esperança no futuro.
Seu distinto
 
Minha velhice

Procura

 
Procurei-te nas estrelas,
No céu azul procurei,
De olhos tristes,velados
Por lágrimas inundados
Teu doce nome chamei,
Mas tu não me respondias,
Com certeza te escondias
Dos meus versos malversados.
Esqueceste as redondilhas
Que fiz com tanto amor?
Dos quartetos bem contados
Zelosamente rimados
Pra causar-te encantamento?
Que mágoa, que sentimento:
Perdeste minhas sextilhas,
Meu verso heróico perdes-te
Preferis-te o Alexandrino
Pelo qual nunca fiz gosto
E agora ao sol posto,
Com trejeitos de menino
Vens buscar o teu destino
Com largo sorriso no rosto?
 
Procura

Bailado da vida

 
BAILADO DA VIDA
(sessenta anos de casados. Oh, Céus!)

Abre-se a cortina e o distinto na platéia, com os olhos esgazeados, assiste o desempenho da bailarina querida.
Levanto os braços e vou vencendo os espaços da coxia ao proscênio. Cumprimento a assistência com elegante reverência e aguardo os compassos de O Lago dos Cisnes. Com leveza e muito garbo vou girando em piruetas, fugindo das falsetas e trambolhos deste mundo. Em “battements” ligeiros, num piscar e num segundo, vou chutando os corriqueiros males do dia-a-dia.
– Sorria, bailarina, sorria, que o riso os males espanta e o teu sorriso encanta, vence o sol ou noite fria,
Num “plier” cadenciado, dentro do balé real, formado por cisnes brancos dançando à minha volta, sem ciúme e sem revolta, esperando o meu final.
Venci, num “pás de chat” ligeiro, seguindo meu companheiro e de filhos e netos um cabedal. Um aberto “espagate”, bem reto no duro chão, a cabeça eu ergo, ereta, impondo na dança a moda e antes do final, a coda, levanto-me com emoção e busco do marido o abraço.
Aliso-lhe a face, a barba branca. O pranto nos meus olhos se tranca, ao perceber-lhe o traço malicioso do olhar feito de brasa e “feu”. Ouço-lhe, num sorriso amoroso, perguntar
– Que tal dançarmos, agora, um fogoso “pás de deux”?
 
Bailado da vida

Amigas

 
Morávamos em Santos a 8 quarteirões da praia. Nossa casa possuía um quintal comprido que fazia o fundo de um correr de casas de uma vila.
Conhecíamos todos os moradores, muitos deles tornaram-se nossos amigos.
Na última casa morava uma família descendente de alemães; a mãe, duas filhas uma delas com a filhinha de seis anos – e um rapaz muito amigo de meu irmão. Era gente simpática e muito amável. A mais nova das filhas – Gleide – era minha amiga. Moça estranha de rosto de bolacha com um narizinho de bolinha no centro. Salvavam-lhe a feiúra os belos olhos azuis, mas, os quadris exagerados e coxas de culote estavam em desproporção aos ombros estreitos e seios pequenos. Por isso ela “malhava”, como dizia, em longas caminhadas até a praia e depois à beira do mar. Apesar da minha altura e magreza eu a acompanhava diariamente. Eram momentos agradáveis, de conversarmos e trocarmos idéias.
. Numa manhã, enquanto caminhávamos na praia ela me disse:
- Sílvia, eu arranjei um apartamento na Conselheiro Nébias; é quarto, banheiro e quitinete; fica em cima de um açougue. Telefonei para a imobiliária e soube que a chave estava com o dono do açougue. Vou vê-lo esta tarde; você quer ir comigo?
- Claro! – respondi – Mas só posso ir depois de terminado o meu expediente no colégio.
- Então eu passo por lá às 5 horas e te pego.
Curiosa eu perguntei:
- Por que você vai se mudar?
- Por que a nossa casa é muito apertada. Eles me atrapalham nos meus cálculos e eu os atrapalho com o barulho da máquina de escrever.
De tarde chegamos ao açougue para pegar a chave do apartamento. O dono do açougue estava tomando conta do caixa enquanto dois funcionários atendiam a freguesia.
- Ah – disse o açougueiro – então vou ter duas vizinhas ai em cima? Talvez mais duas freguesas, hein?
Cleide custou a responder porque nós duas estávamos extasiadas com a beleza do homem: cabelos negros, encaracolados, nariz absolutamente reto e olhos de um azul profundo. Quando sorriu exibiu um verdadeiro teclado, branco e brilhante.
Conseguindo segurar o queixo que lhe caíra, Gleide respondeu:
- Eu vou ser a sua vizinha – e estendeu-lhe a mão – Eu sou Gleide e esta é minha amiga Sílvia.
- Muito prazer. Eu sou Omar (quase que perguntei – Shariff? -) e tenho o prazer de conhecer vocês. Podem contar com o estabelecimento e o amigo.
Subimos pela escada lateral do prédio. O apartamento constava de uma sala na frente, um pequeno hall de entrada com a quitinete de um lado e banheiro do outro.
- Se alguém entrar muito depressa é capaz de sair pela janela, brincou Gleide. Ou se alguém espirrar vai causar ventania – concluiu dando risada.
- Aqui eu ponho um sofá de quatro lugares para me servir de cama; deste lado uma poltrona e na frente dos dois a mesinha de TV. Neste canto, ao lado da janela a minha escrivaninha e a máquina de escrever. Estará pronto o meu quarto e escritório – disse a minha amiga com entusiasmo.
Acompanhando a sua alegria eu propus: Pode convidar o deus grego-de-olhos-azuis, aí de baixo para nossa comemoração. Eu trarei a champanhe!
Foram momentos de muitos sonhos e planos.
Eu havia ficado noiva e já preparava o meu enxoval.
Uma amiga de minha mãe nos indicou uma ótima bordadeira, Ruth, que bordava à mão e à máquina.
Seus cabelos castanhos e lisos, ela trazia presos à nuca com fitas ou “maria-chiquinha” como naquele tempo se chamava, para este fim, um elástico colorido e enfeitado. Ruth era além de bonita e delicada, extremamente gentil. Casada, possuía uma filhinha de seis anos, linda e mimosa como a mãe, mas de cabelos negros, encaracolados e dois brilhantes olhos azuis. A menina era uma boneca!
Eu e Ruth nos tornamos amigas e até confidentes. Eu fiquei sabendo que seu marido possuía um frigorífico em Santos (se ainda não contei, a casa de Ruth ficava na Ponta da Praia) e, como ela me fazia crer, era um homem bom, trabalhador, ótimo pai.
Assim o tempo foi passando; eu noivando, Gleide namorando o deus grego e Ruth muito feliz cuidando da família e dos bordados.
Numa tarde, ao chegar com cortes de fazenda, lençóis e fronhas para serem bordados, encontrei Ruth meio ansiosa. Contou-me que seu marido andava chegando tarde e muitas vezes não vinha almoçar, coisa que estranhava porque ele sempre fora pontual.
Eu a animei: a vida está difícil, o pão-nosso de cada dia mais caro; com certeza um pai de família tem que lutar muito para sustentá-la.
Ruth sorriu, deu de ombros e passamos a escolher os riscos para os bordados. Enquanto Ruth se preocupava, Gleide vibrava! O “deus-grego” a havia pedido em casamento!
Ao comparar a situação das minhas duas amigas eu me assustei com a coincidência: enquanto uma vibrava de alegria por ter conquistado um noivo, a outra penava por sentir que o marido se afastava de casa.
Depois me perguntei onde a Marly (eu já havia dito o seu nome?) a filhinha da Ruth tinha ido buscar aqueles olhos azuis e cabelo negro, encaracolado?
Esta desconfiança se acentuou quando, no próximo encontro, Ruth me disse, já de olhos vermelhos, que o marido tinha passado a noite fora e que, ao chegar de manhã cedo, pediu-lhe que fizesse a mala dele porque deveria viajar.
- A pequena? – Perguntou esperançosa.
- Não, a grande. Vou demorar um pouco.
- E o frigorífico, com quem fica?
- Com os rapazes, ora! Por que tenho dois ajudantes? Faça a minha mala enquanto tomo um banho e depois chame a Marly que eu quero me despedir dela...
Ruth disse que o seu coração só faltava sair pela boca. O marido notou e perguntou com um meio sorriso:
- Por que estes olhos assustados? Quantas vezes eu tenho viajado?
- Mas leva sempre a mala pequena – retrucou alarmada.
- Desta vez vou demorar um pouco mais – disse e foi entrando para o banheiro.
Ruth fez a mala e foi buscar a filha que brincava na vizinha. Disse que o marido havia saído todo cheiroso do banheiro, depois todo arrumado pegou a filha nos braços, beijou-a muito exclamando:
- Papai adora você! Adora você!
- E a você? Ele beijou? – perguntei quase aflita.
- Sim, como sempre! Mas um gosto amargo ficou em minha boca. Eu queria que ele dissesse que me adorava também, que não poderia viver sem mim... Foi um beijo rápido, apressado, corrido para tomar o trem...
- Olha só! Imagina se ele vai deixar uma mulher tão linda (já mentalmente comparando-a com a “outra”) e um amor de filhinha? Sossega o coração, Ruth, ele vai voltar logo.
Dei-lhe um abraço gostoso e dali parti para o apartamento de Gleide. Nervosa, no caminho, ia me indagando: Devo avisá-la? Devo voltar e avisar a Ruth? Será que o “deus-grego” além de adúltero vai tornar-se bígamo também?
Ao chegar ao apartamento de Gleide, antes de subir, vi que o Omar não estava no açougue e, ao tocar a capainha, ninguém me atendeu.
Então desci e tornei ao açougue e perguntei pelos noivos. Os rapazes sorriram e disseram que haviam “fugidos para casar”, sem festas, sem fazer onda.
Terrivelmente acabrunhada e sentindo remorso por não ter impedido uma passível tragédia, fui para casa e passei dias sem coragem de enfrentar o sofrimento de Ruth.
A mamãe me avisou que Gleide havia voltado da lua-de-mel e, um pouco mais tarde Ruth me ligou vibrando:
- Ele voltou! Ele voltou! Venha hoje a noite conhecê-lo! Vou fazer um bolo!
Eu, feliz, mas embaraçada, sem saber como enfrentar o “deus-grego”, ofereci:
- Quer que eu lhe leve um vinho espumante?
- Ó, será ótimo!
Sai, comprei o vinho e fui, praticamente me arrastando, apavorada porque sabia que ele ia me reconhecer. Que horror!
Parei o carro e, remanchando, custei a descer. Toquei a campainha e Ruth, linda e alegre, veio me receber.
- Que bom que você chegou. Venha! Venha conhecer o meu lindo marido!
Só faltei virar e sair correndo. Mas eu também saberia fingir. Pela Ruth eu saberia fingir surpresa.
Ao entrar na sala um rapaz alto, louro, de belíssimos olhos azuis me recebeu sorrindo. Antes de apertar minha mão ele cheirou as dele e explicou:
- Eu vim do frigorífico, podem estar cheirando a peixe...
- Uffa!
 
Amigas

Armas - (tirado do fundodo baú)

 
ARMAS

Lendo os classificados e as atrações dos encartes do jornal, babei de gosto com as liquidações. A minha sanha aproveitadeira de oportunidades me fez chamar a atenção do distinto, que sentado a minha frente, também lia os matutinos:

- Benzinho!

Os olhos do dito cujo tornaram-se opacos, o corpo tomou posição de defesa, as mãos, crispadas, não baixaram o jornal.
“Hum...”, ele roncou atrás da muralha de indiferença. Não sei porquê, sempre que eu o trato de “benzinho”, a sua reação é idêntica, parece ficar de sobreaviso, torna-se hirto, e a sua fisionomia toma um ar de tijolo, inexpressiva.

Não sou dessas de fugir da raia por um simples ronco. Tomo as minhas decisões e executo-as como as concebo (não “como-as com sebo”; longe de mim tal canibalismo). Mas o termo “benzinho” parte do oco da minh’alma pedinte e se desfaz em minha voz como batida de rapadura na boca de criança. Procurando não me tocar diante da estaca empedernida em que “ele” se tornou, eu repito:

- Benzinho, olha só que liquidações bacanas! – Apontando cada item feéricamente demonstrado, deixo a saliva envolver cada frase: Eu estou precisando tanto disto, e disto! Olha só o preço! Vamos aproveitar, “benzinho”?

Ele se agarra aos braços da cadeira para não escorregar na minha lábia e, em voz de inicio pausada, me esclarece:

- A senhora sabe, Dona Christina (detesto quando ele me chama de “Dona Christina”; é a sua maneira de botar água fria na fervura...), por quê as casas comerciais estão em liquidação?

Fito-o, calada, com os olhos ansiosos.

- Porque, - ele continua professoral – as pessoas não compram absolutamente nada, porque são ajuizadas e economizam o rico dinheirinho. Porque é preciso poupar, nesta época de recessão, de falta de empregos – ele vai crescendo de tom – e porque não ha cristão que agüente a subida dos preços e a retenção dos salários! (começa a esbravejar; daqui a pouco poderei até enxergar a sua campainha, badalando adoidada, atrás do céu da boca). Feche esse jornal e mude de assunto, que este já está me dando taquicardia!

Tenho a impressão que seus vastos bigodes se tornaram sanhudos, acompanhando as sobrancelhas. Vou me minimizando, encolhendo; gostaria de virar água e entrar pelo ralo. Seu rosto, vermelho, cresce diante de meus olhos assustados. Em um fio de voz eu volto à luta, choramingando:

- Puxa, “benzinho”, eu só estava comentando uma liquidaçãozinha! Na verdade, eu estava querendo lembrar a você, que está se aproximando o dia do meu aniversário. Afinal de contas, eu sempre digo que o “meu” marido é meu amigo, compreensivo, generoso, mão aberta, patatí e patatá, patatí e patatá...

- Tá bem! Tá bem! Tá bem! Eu me rendo! – ele me cala, já perdendo aquele ar de fera.

Contra a “minha” força não ha argumentos. Grudo avidamente o jornal: qual mesmo destas maravilhosas pechinchas poderei comprar?
 
Armas - (tirado do fundodo baú)

Vozes

 
No reboar dos ecos longínquos,
No aceno das velhas lembranças,
Ouço vozes amorosas,
Risos, muitos risos,
Como cachoeiras efervescentes,
Com suas cabeleiras
Finíssimas levadas pelo vento
Dando brilho às folhas,
Enverdecendo musgos,
Transbordando meus olhos,
Lagos de reflexos,
Repletos de sol.
 
Vozes

Pastoralde Lisboa

 
Pastoral de Lisboa.

Rapariga, vais à fonte
A cantar alegre o fado
Pelo chão alcatifado,
De cheiroso manjerico.
Tens na cabeça a rodilha
Para prender a quartinha,
Minha linda alfacinha,
Enquanto sobes o monte
Com teu sorriso tão rico!

Inda de orvalho molhado,
O caminho perfumado,
Teus soquinhos a pisar.
Pisas tão leve, tão leve,
Em teu belo caminhar;
Quando pisas assim tão breve,
Meu coração se atreve
Por teu amor palpitar
E sentir-se apaixonado.

Rapariga, vais à fonte!
Por detrás do belo monte,
És o meu sol a raiar
 
Pastoralde Lisboa

Predestinada

 
Predestinada

Aquela a quem procuro
É suave como a brisa
E traz em seu fragor
Toda a doçura
Da flor serenada.
O sabor do fruto maduro,
Da uva sazonada .
Aquela a quem procuro
Traz a relíquia do amor
No corpo entesourada.
Na forma suave do ventre macio,
No queixume de rola .
Há de se realizar, assim,
Em mim,
Como na terra fecunda
Se envolve a semente:
Avara, cobiçosa, ansiosa
Por surgir, brotar, florir!
Aquela a quem procuro
Já minha,
Predestinada
 
Predestinada