https://www.poetris.com/

Poemas, frases e mensagens de SirRichard

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de SirRichard

Sobre Sir Richard Mary Bay ...

... é um ultra-romântico. Um apaixonado não pelo amor, mas, pela ideia de amar. Busca ansiosamente nas palavras encontra-lo ( o Amor). Mas é de Si mesmo que foge quando o encontra ...

Janelas à Vida

 
Janelas à Vida
 
Abro as Janelas à Vida
na esperança de um abraço
p'ra que parta este cansaço
p'ra que parta a despedida.

E o que fica não conheço
tudo fica sem ficar
gravo em mim o teu olhar
sofro, choro e permaneço.

Sou um vulcão por controlar
uma chama que não arde
uma queda sem tombar.

E há cinza nos meus passos
há um grito sem alarde
tantos versos nos meus braços.
 
Janelas à Vida

Contágio

 
Contágio
 
Se a minh'Alma fosse um prado verdejante
se o meu peito fosse um campo de açucenas
tu serias, meu amor, um eterno viajante,
pelo Céu vazio, sem cor, das minhas penas!

Se os meus olhos fossem dois átomos do tempo
se os meus lábios fossem um portal de amor eterno
tu serias, meu amor, mais veloz que o vento
a resgatar a minha Alma das chamas do Inferno!

Se o meu corpo fosse um barco em alto mar
os meus braços seriam a alcova do convés
onde à noite, no silêncio, te podias ir deitar!

Ai, quem dera que em mim te pudesses aninhar!
É meu grito, um grito que grito, de lés-a-lés,
na esperança acetinada de um dia te encontrar!
 
Contágio

Pensamento 1

 
Pensamento 1
 
Se alguém quiser saber quem sou
leia os meus versos!
Nas imagens que eles contem irão
encontrar-me ...
 
Pensamento 1

Rima Certa

 
Rima Certa
 
Ó Morte, calada testemunha do meu pranto,
retrato agreste, (como a noite), antigo,
por ti anseio, deliro, espero tanto,
como por mim, o coração daquele amigo!

E porque me amará Ele e eu não? ...
Porque amo Eu quem não me ama?
Vá lá mandar nas decisões do coração
que não aceita quem não chama!

E porque chama Ele quem não temos?!
Que desgosto me atravessa o pensamento
que afinal só temos quem não queremos!

Nestes versos procuro encontrar o que rime com amor,
a palavra que não rima mas o expressa é sofrimento,
porque a palavra que rima e o define é a dor!
 
Rima Certa

Contágio

 
Contágio
 
Se a minh'Alma fosse um prado verdejante
se o meu peito fosse um campo de açucenas
tu serias, meu amor, um eterno viajante,
pelo Céu vazio, sem cor, das minhas penas!

Se os meus olhos fossem dois átomos do tempo
se os meus lábios fossem um portal de amor eterno
tu serias, meu amor, mais veloz que o vento
a resgatar a minha Alma das chamas do Inferno!

Se o meu corpo fosse um barco em alto mar
os meus braços seriam a alcova do convés
onde à noite, no silêncio, te podias ir deitar!

Ai, quem dera que em mim te pudesses aninhar!
É meu grito, um grito que grito, de lés-a-lés,
na esperança acetinada de um dia te encontrar!
 
Contágio

Carta à distância que nos une em Beijos de Outono ...

 
Carta à distância que nos une em Beijos de Outono ...
 
Évora, 01 de Junho de 2016.

Meu Amor, meu grande e infinito amor ... Assim te escrevo porque assim te sinto ... Assim te vejo, assim te espero ... No frio da noite que me envolve recordo o teu olhar, o teu toque, o teu beijar ... És corpo do meu corpo, carne da minha carne, Alma da minha Alma. Porém, longe, distante, ausente - mas em mim! Tão perto te vejo, tão junto te tenho, abraço, toco-te, sou eu ... Acredita que te espero em eterna fantasia ... De que eras, de que tempos, de que vidas ou lugares vimos nós?! Não sei! Só sei que sem ti o Céu é escuro - meu triste e pobre Céu! Sem ti as Primaveras são longínquas, os mares são finitos, os campos secos e alagados de solidão ...

Meu triste e pobre coração! Sem ti! Sem ti! Que posso eu ser sem ti?! Nada mais que eu - sem mim! E à noite, quando me deito, meu leito, frio e melancólico pergunta-me por ti ... E eu? Que lhe posso responder? Que és longe, distante ... Mas que te espero - ainda! Eis quando os braços da tua ausência enlaçam o meu corpo de mistério e me adormecem num imenso respirar de esperanças fugidias. Esperanças vãs! Tão vãs quão vão é este momento!

E os sonhos são tormentos. Porque as noites são sem estrelas ... As manhãs são velhas e pesadas ... cada passo solitário ... cada momento feito de saudade ... cada instante de memória numa fria e funda recordação ... E a cada nova aurora, nova esperança que tu venhas, novo dia de mil esperas ... mas vem a noite e tudo tão igual! Tão frio, tão gelado, tão fatal ...

Assim me vejo:
eu sem ti, de mim perdido, triste, só e vencido. Um beijo! Um beijo apenas! E nada mais que um beijo levaria este feitiço ... o teu beijo ... um beijo teu ... e assim me encontro, assim me sei, assim me entrego. Vai nesta carta minha, meu intimo e ultimo calor ... meu amor ... meu amor! Das horas tristes sem piedade, onde nem o silêncio e a saudade têem como ter em nós lugar ... e como dói a solidão, a ausência dos teus braços, que me esventra de paixão, que me sufoca o coração!

Afinal que destino posso eu ter longe de ti?! Sou um miserável! Responsável pelo triste fim da nossa história! Odeio-me por isso! Odeio-me! E em que pensas tu neste momento? Que fazes? Com quem? Lembras-te de mim? ... São perguntas ... apenas isso ... perguntas! Perguntas sem resposta ...Vivo entre o sonho de te ver e a realidade de perder-te! Tenho esperança! Mas ela é mais frágil a cada dia que passa e tenho medo que a qualquer momento se desfaça em pó! Não quero perder-te apesar de já te ter perdido ...

Mas 'inda assim, a esperança, é a única coisa que nos une. E rezo a Deus para não perde-la ... E rogo-te a ti, encarecidamente, que rezes, também. Porque um dia voltaremos a ser um, e, por isso, precisas que eu te espere, ainda ... A memória trai o nosso amor. Meus sentidos já não guardam os teus gestos como antigamente, a cor do teu olhar, o toque da tua pele, o timbre da tua voz, o teu cheiro. E sofro por isso! Tanto! Tanto! Que nem podes pressentir ... E já não escrevo, já não falo, já não canto ... Só quero morrer! Só quero morrer! Meu amor ... meu amor! Tua partida foi p'ra mim um longo Inverno, tal o tamanho da minha solidão, hoje, é Outono. Um Outono prolongado na distância que nos une ...

Ontem, junto ao Poço da Moura encantada, ao largo da Sé, escrevi para ti estes Beijos-de-Outono:

Teus beijos, meu amor,
lembram pálidos cansaços
na solidão de tantos braços
onde grita o desamor!

Esses beijos - que pavor! ,
são os livros que eu não li
são os olhos que eu não vi
são punhais do teu amor!

Ai, teus beijos Invernosos,
marcam passos rigorosos
no silencio e na saudade!

E até nas horas de sono
os teus Beijos-de-Outono
são a minha ansiedade!

Meu Amor, apetece-me queimar esta carta, para que, o fumo das labaredas que consomem o papel, levem a ti, este sentir que tanto me avassala e consome o coração. Soubera eu que o fumo das chamas te podia incensar e acredita, não hesitava um segundo! Estou cansado: De escrever! De sentir! De sofrer! De amar! ...

É noite! E mesmo sabendo que não vou adormecer, vou deitar-me triste e só no meu leito cansado de me ouvir, mas sempre disposto a acolher-me ...

De ti, despeço-me!
Desta carta, evado-me!
Da Vida, não sei ...

... nunca soube ... nunca saberei ...

Adeus!
Do sempre só!
Richard Mary bay
 
Carta à distância que nos une em Beijos de Outono ...

Horas de Pena

 
Horas de Pena
 
Em horas que já lá vão, horas de pena,
meu corpo ferido de lágrimas molhado,
chaga aberta que sangra, quase gangrena,
procura o teu olhar, teu rosto, amado!

E ao sentir a solidão, quase serena,
há memórias tuas do Passado
que mais ferem de silencio, essa gangrena
aberta, no meu corpo de condenado!

Se ouvisses meu clamor, ai quem dera,
davas vida, meu amor, a este pobre coração
e podias dilatar esta quimera ...

Mas que hei-de eu fazer, se tu, então,
não me queres ver?! E minh'Alma desespera
e naufraga no Mar Alto da Paixão!
 
Horas de Pena

Carta aos Mortos

 
Carta aos Mortos
 
Cemitério de Évora,
04 de Junho de 2016 ...

... de tarde.

Vós, Mortos que aqui estais, dormidos, em repouso, em vossas camas de silencio e quietude, quanto vos invejo, quanto vos desejo, procuro e acaricio em meus sonhos mais profundos! Despertai neste momento e ouvi o que tenho para dizer!

Aqui, sentado, no cruzeiro do cemitério, miro-vos e procuro entender como será tal repouso. Estou ainda do lado oposto, do lado daqueles que vos choram, arrepiados de saudade. E como será estar do vosso lado?! Acaso querereis vós ser chorados?! Não será morrer um novo nascimento?! E quantas diferenças (tantas) há entre nascer para viver (temporariamente) e "nascer" (morte) para morrer (para sempre), ou deverei chamar-lhe (à Morte) um nascimento para a verdadeira Vida?!

As Escrituras Sagradas dizem: "Lembra-te que és pó e que ao pó hás-de tornar!" Mas e o que é a vida (no corpo) mais do que pó também? Pó vivo na realidade! Pó que fala, pó que vê, pó que ouve, pensa e escreve. Não pode o Ser humano transformar-se (com a morte) em pó, sem que o não seja, antes de o ser, em vida! Aquilo que é, já tem que ter sido antes (de modo diferente é certo), senão, não seria o que é, mas sim outra coisa. "Pó, cinza e nada", dizia Florbela Espanca! Pó que anda, cinza que ama, nada que sente!

Também vós, Mortos que aqui estais, por quem nós, vivos, tanto esperais, sois "pó, cinza e nada!" Mas sois um pó diferente. Pó que não anda, cinza que não ama, nada que não sente! Mas que já andou, já amou, já sentiu ... sois pó estático, incólume, parado. Pó caído na forma do sem forma, na quietude do silencio, em covas ou jazigos de solidão! E a nossa solidão? A solidão dos vivos que, por vezes, mais que mortos, nos parecem? Não serão tumbas os seus corpos, onde Almas que, ainda pensam, estão vazias e caladas?! Vós Mortos, ao menos, estais postos em sossego! Nós vivos, não! Há gritos que nos "rasgam" por dentro e nos ferem sem piedade.

Há entre nós (vivos e mortos) uma linha frágil, ténue, que nos une e nos separa. Mas só vós, Mortos que aqui estais, podeis romper esse silencio e falar do segredo que é a Morte. Porque Vós, já fostes vivos e agora estais Mortos, eu apenas sou um vivo, um miserável vivo, não toquei ainda esse mistério! Mas algo vos impede de falar aqui e agora!!! O que é? O que vos impede ó Mortos de falar se já falaram? Dizei-me, Francisco de Calça e Pina! Falai, vós, ó Barreiros Torres de Vaz Freire, família de Francisco Braz da Silva, família Gouvêa, Rato Santana e tantos, tantos que hoje, pó dormido, lento e arrefecido, repousa neste chão! Falai! Dizei! Rasgai esse silencio! Rompei essa linha que nos une e nos separa no alto da madrugada ...

A Morte é esposa do Tempo. O Tempo é filho da Solidão (viúva de seu esposo) que, certa vez, desposou o Mistério (agora morto), e o Mistério, nasceu um dia da Mente de Deus.

A Vida é filha "condenada" da Morte e do Tempo (mortal e imortal em simultâneo), neta da Solidão e do Mistério, criada por Deus, desde toda a Eternidade. A Morte não tem Linhagem! Por isso, a Vida e a Morte estão para sempre entrelaçadas, unidas e separadas, por um Tempo, mais curto ou mais distante, o Tempo de cada um, num processo de Solidão, interno e pessoal, vivido no Mistério, dia-a-dia, cada instante, neste Palco-de-silencio criado por Deus!

E Deus? De onde veio? Quem é? Se é humano e também morre, pode ajudar-nos nesta demanda, se o não é, não morre e, por isso, não importa, nada acrescenta a esta dissertação, pois nunca saberá o que é morrer, nunca no-la explicará em totalidade, porque nunca morreu! Mas dizeis: E Cristo?! E eu respondo com outra questão: Era Divino ou humano?! Eterno ou mortal?! Os dois?! Muito fala a Cristandade e arredores deste assunto sem nada esclarecer em concreto e profundidade! Eu sou Cristão mas deixei de ouvir as conversas arrogantes e intelectuais sem espinha dorsal, dos Teólogos deste Mundo! Fantasias atrás de fantasias que professam inenarráveis fanatismos!

Mas podeis perguntar ainda: Se Deus sabe tudo e criou a vida, não terá igualmente criado a Morte, já que, vida e Morte, são duas faces da mesma moeda?! E tendes razão. Eu acredito que Deus criou a vida e a morte mas, "aninhou-se", segundo a sua própria escolha e vontade, do lado da Vida (Eterna). Por isso, Deus, nunca morreu nem morrerá! Que sorte a sua! Ou não ...

Se para que tudo mude é preciso que algo não mude, e isso que não muda é a Vida, dizem os orientais, então, para que tudo morra será igualmente preciso que algo não morra, e isso é Deus, digo eu! No fundo Deus e a Vida são a mesma coisa!

Ainda que muito se conheça daquilo que se crie, saber-se-á em verdadeira e profunda realidade, sem nunca o ter experimentado?! Só Vós que, vivestes num corpo, agora mortos, podeis falar da Morte. Deus só pode falar-nos do processo, porque o criou, mas nunca o experimentou. Tirando Cristo, obviamente, de quem confusamente se fala! Que dizem que morreu, mas depois, afinal, não morreu, porque era Deus, e era Eterno! E muita confusão ronda ainda este Mistério (nascido certa vez da Mente de Deus como dissemos atrás!) E atenção que eu sou um crente que o professa (Cristo)! Muitas conversas põem os Teólogos, sobre a Morte, na boca de Deus. Ironias e contra-sensos! Promessas falsas que, certa vez, puseram os Mortos, acabados de morrer, perdidos, sem caminho, na presença de Yung que, os instruiu para a Luz com os Sete Sermões que lhes dedicou. Sobre a Morte, só Vós, Mortos, que já fostes vivos, como eu, podeis falar. Assim, deixemos Deus fora deste assunto. Já basta que vocês não me respondam. Não preciso de mais ninguém (Deus) para ajudar neste cáustico Mistério!

Há aqui uma paz que avassala os Corações. Porque fogem os vivos dos Mortos, se, os Mortos, mais que os vivos, estão em Paz (os seus corpos pelo menos, as suas Almas não sei, já nem sei se as há!) Paz que os vivos não encontram nem pressentem! Eles sem dor nem doenças, nós gemendo e chorando, eles vivos para sempre, nós morrendo dia-a-dia, fazendo guerras e contendas. Pobres miseráveis que somos, nós, homens mortais que, nos comportamos como Deuses!

O Sol bate nas lousas, a sombra dos ciprestes desenha métopas no chão, há flores ao vento, um cheiro a rosmaninho, alfazema e alecrim, tanta malvasia pelo ar, cheira a terra seca, é Verão. Se viemos do pó e vamos para o pó, o que somos nós mais do que pó, questionou-se, certa vez, o Padre António Vieira, na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma, no sermão que fez em Quarta-Feira de Cinzas! "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris!" (Homem, lembra-te que és pó e que ao pó hás-de tornar!) Oiço o pó de cada sepultura clamando aos gritos: *"Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este Eu, e não outro, é o que há-de morrer! Depois vem a Eternidade ..." E afinal o que temer?! A vida até ao pó ou a vida depois do pó?! Temer a vida que morre (sobre a Terra) ou a morte que dá vida (eternidade da Alma)?! Aqui, neste mundo de vivos-mortos, ao menos sabemos com o que contar, e depois, havendo eternidade, aonde iremos, como será esse mundo de Mortos-vivos?! Eis a questão que é anterior à própria humanidade e à qual nunca se deu resposta!

*"Não é terrível a morte pela vida que acaba mas pela eternidade que começa!" Mas se a Alma é eterna, tão eterna é depois do corpo morrer, como no corpo que vai morrendo, dia-a-dia, em vida ... Então não estaremos nós já na vida eterna?! Aqui e agora?! Afinal, nós não vamos para vida eterna! Nós já estamos na vida eterna! Eis a grande chave desta dissertação que, busca compreender, o intervalo entre a vida e a Morte! Afinal, esse intervalo, chama-se eternidade, e é, uma constante! A eternidade, tal como Deus, é anterior a Si mesma ... Una, Indivisa, Eterna e Incriada, os atributos da Vida, os atributos de Deus. Humor negro, contradição ou ironia do destino, vós, Mortos, já fostes como eu, vivos, mas eu, vivo, nunca fui como vós, mortos. Vós não tornareis a ser como eu, porém, eu, serei um dia como vós!

*Padre António Vieira IN Sermão de Quarta-Feira de Cinzas.

A vida nada mais é que um intervalo entre o pó de onde viemos e pó para onde vamos, logo, é igualmente um tempo de pó. Um instante diferente entre pó e pó nessa viagem circular de pó a pó! O copo que é copo, quando cai ao chão e se despedaça em mil pedaços, não deixa de ser copo. Todas as partes que o compunham estão lá, a forma, é outra, apenas. Então deixou de ser copo só por ter outra forma? Não tem utilidade, é verdade, no entanto, a matéria está lá, toda. É assim com a Morte! A pessoa que vai a sepultar é a mesma que antes acariciava seus parentes. Então deixou de ser pessoa só por estar morta?! Não tem "utilidade", é verdade, mas diferente do copo que se partiu, a pessoa que vai a sepultar, tem a mesma forma física, está inteira! Mas algo lhe falta! Então o que é? A Vida! Dizem uns! A Alma dizem outros! E o que são a vida ou a Alma?! Um suspiro? Um Espírito? O quê? O que é se não se vê? E para onde vai?...

As pessoas são muito mais do que os corpos mortos que vão a sepultar por falta de "utilidade" e que apodrecem em jazigos ou em tumbas rasteiras! Elas são aquilo que que diziam, que pensavam, que faziam, e isso, não morre nunca, nem tem como ser sepultado ... vós estais mortos mas vivos também! Porque enquanto alguém vos recordar estareis vivos ainda que estejais mortos. Porém, os que vos recordam, um dia, também morrerão, e deixará de haver quem vos lembre! E aí? Morrereis finalmente?! Não! As vossas tumbas cobertas de epitáfios de saudade estarão lá para vos testemunhar. E ainda que não haja quem vos recorde de modo natural, por vossas campas, passarão séculos e séculos de gentes que, lerão vossos nomes, gravados nas pedras que, vos pesam sobre os corpos. E estareis vivos na mesma, na boca e no pensamento de quem os vossos nomes pronunciar! "Aqui jaz fulano de tal ... quem seria?! Que história terá sido a sua?! Que bonito era! Terá morrido de quê?! ..."

E assim é! O Tempo é contra a Matéria mas a favor da consciência. Quantos mais ciclos de tempo vivermos mais decaídos ficam os nossos corpos, mas, mais madura pode ficar a nossa consciência (dependendo da forma como se vive a vida). Aqui, no cemitério, até as pedras e as inscrições, o Tempo, esposo da Morte, apagará. Mas o que dizer daqueles que, nem a Morte nem o Tempo, apagarão?! Vejam-se os grandes artistas: cantores, poetas, actores ... a Vida foi-lhes mais "mortal" do que, a Morte e o Tempo que os imortalizou! Vós, Mortos, sois o pó da Morte, mas já fostes como eu, o pó da vida! Então, não serei eu pó também, mesmo ainda antes de morrer?! Quem de vós me falará deste mistério?! Quem?! Quando?! Como?! ...

Há neste espaço um silencio aterrador. Há Sol, vento, pessoas a passar, que me olham com desprezo, indiferença e estranheza. Não entendem o que faço aqui, encostado a uma cruz, no cruzeiro de um cemitério, cheio de livros e papeis, de caneta em riste. Digo-lhes que falo convosco, ou que, tento, pelo menos?! Melhor não! Diriam: está louco! Isso que, talvez, quem me lê neste momento, independentemente do tempo que já tenha passado, diz também! E não serei eu um louco na verdade?! E o que é a verdade? Qual é a verdade? A verdade de uns é a mentira de outros. E vice versa. E tudo é relativo neste mundo de matéria. E aí onde vocês estão? Será igual? Será diferente? Não oiço nada, Só silencio, vazio e solidão ... mas estou em paz como a paz de um cemitério! Sinto-me bem entre os mortos como se fosse um deles! Talvez porque já esteja morto em vida!

Sempre me senti assim! Morto! Sem esperança! Depois de morto será diferente (espero e acredito!)! A tarde cai no horizonte, a noite aproxima-se. Dentro em breve fecharão o cemitério. Não tive resposta dos Mortos. De repente, um funcionário (parece pela roupa), aproxima-se de mim:

- Olhe, desculpe, o cemitério vai fechar. Fica ou vai?!!!

- Terei que ir, certamente, respondi. Mas sou-lhe franco, precisava ficar e até ficaria se deixasse! ...

- Como calcula não posso deixa-lo ficar. À noite, aqui, tudo é diferente! Dou-lhe mais dez minuto.! Vou ali abaixo arrumar as ferramentas...

E aquele homem desapareceu entre os ciprestes e os jazigos, como uma sombra, um de vós, morto! Arrepiei-me! De repente, fixei um ponto, uma chama, uma luz no interior de um dos jazigos que flamejava ao longe! Emudeci de espanto! Já estava de pé, pronto para sair e voltei a sentar-me, siderado. Pensei em aproximar-me mas tive receio que aquilo não fosse nada, que desaparecesse. Optei por aguardar, sentado, no mesmo sitio, junto à cruz. O entardecer desvanecia a passos largos. A noite caia rapidamente sobre o espaço. Ali, só eu, ninguém mais, já tocava o sino que anuncia o fecho do cemitério. E eu, paralisado, escrevi, ditado por uma voz que se apoderou da minha mente:

INSCRIPÇÃO AOS VIVOS:

Nós Mortos enterrados
neste chão feito de pó
já tivemos um passado
fomos vivos como vós!

Já fizemos da vaidade
certo grito moribundo
mas talvez a eternidade
seja mais que um triste mundo!

Aonde vais ó caminhante
aonde vais tão apressado
não prossigas mais avante
também tu estás condenado!

Por aí tantos passaram
foram muitos, tanta gente
só à Morte se aninharam
nenhum ficou lá para sempre!

Parece longe a vossa Morte
também a nossa parecia
num instante vai-se a sorte
e lá morrem qualquer dia!

Mas acreditem que morrer
não é tão mau como se diz
é mais simples que viver
à deriva por aí!

Nós Mortos que aqui estamos
neste pó em solidão,
por vós, vivos, esperamos,
algum dia neste chão!

dos Mortos

E a luz apagou-se! A voz calou-se! O sino também! Ainda gritei pedindo que esperasse, mas em vão, evaporou-se! E, ao fundo, surgiu entre a névoa, o "funcionário" do cemitério, com um carrinho de mão, passou por mim e disse:

- Agora tem que sair! Rapidamente! ...

Não percebi o "rapidamente", mas segui-o até à porta, por entre os túmulos. Já era noite, não tinha percebido muito bem quanto tempo tinha passado entre a primeira abordagem dele e aquela chegada! Estranhamente sentia que todo o tempo que ali tinha estado estava entre esses dois tempos. Mas era impossível!
Saí pelo portão, ouvi as grades a fechar e quando olhei para traz não vi ninguém. O portão tinha sido fechado por dentro! Loucura! Puramente loucura! Só podia! Um sonho ou fantasia! Não percebia nada do que tinha acontecido ali!

Olhei os mortos um ultimo instante, por entre as grades do portão, cobertos pela morte, e recordei aquela frase intemporal que atravessou a noite-dos-Tempos:

"SIC TRANSIT GLÓRIA MUNDI ..."

Que quer dizer, Assim Passa a Glória deste Mundo!

Na esperança de "adormecer" um dia, em Paz, nos braços da Morte, aí onde se vive a verdadeira vida, despeço-me,

ainda vivo,
Richard Mary Bay

P.S./ A Morte é a outra face da Vida ... não é o fim ... é o Principio!
 
Carta aos Mortos

Suplício

 
Suplício
 
No silencio da minha casa fria
arrasto pelo chão dor e amargura,
nas paredes só há noite, não há dia,
dor, vazio e até loucura!

No silencio da minha cama vazia
acalento o corpo em lençóis de solidão
e adormeço na brancura que jazia
nas rendas que me adornavam o coração!

E em cada madrugada sem destino
sou um quarto fechado, um grito calado
cujo o eco não se escuta no caminho!

E o que resta são lágrimas do meu olhar
derramadas num presente que é Passado
como um relógio no meu peito a palpitar!
 
Suplício

Quando o Nosso Amor

 
Quando o nosso amor já não for o que foi outrora
Lembra-te que as cinzas que de nós ficaram
São apenas, pó - silêncio, o fim de tantas horas
Que as horas da nossa história não marcaram!

Porém, verás que serei o que sempre fui pra ti!
O mesmo olhar, a mesma Alma, sempre teu,
Nada em mim mudou, além de não te ter aqui,
E de sofrer, sentindo que pra nós tudo morreu!

Adeus! Palavra que me esventra o paladar
Que me come no silêncio e na quietude,
Junto às praias do cansaço, frente ao mar ...

Tantas voltas dei ao mundo, foi em vão,
Nunca mais encontrei a tua juventude
Noutros olhos, nem o toque que tinha a tua mão.
 
Quando o Nosso Amor

Beijos de Outono

 
Beijos de Outono
 
Teus beijos, meu amor,
lembram pálidos cansaços
na solidão de tantos braços
onde grita o desamor!

Esses beijos - que pavor! ,
são os livros que eu não li
são os olhos que eu não vi
são punhais do teu amor!

Ai, teus beijos Invernosos,
marcam passos rigorosos
no silencio e na saudade!

E até nas horas de sono
os teus Beijos-de-Outono
são a minha ansiedade!

Richard Mary Bay
 
Beijos de Outono

Papoulas

 
Papoulas
 
Ai minha amada de olhos doces
que trazíeis no regaço um ramo de papoulas
e eu, lembrando os cravos que não trouxe
me aljofrei pequeno nas asas de uma rola!

Eram papoulas de um vermelho carmesim
de olhos negros mais negros do que a noite
e caminhando docemente ao toque dos clarins
pisáveis no silêncio linhagens de uma corte!

Ai, tristezas, na verdade, quem as não tem?!
Aguarelas de silêncio pintadas por ascetas
que esperam encontrar um amor que nunca vem!

Que saudades, meu amor, saudades tolas,
desse quadro pintado pelo punho dos Poetas,
quando vínheis pela rua com um ramo de Papoulas!
 
Papoulas

Vi dois Olhos

 
Vi dois Olhos
 
Ontem vi dois olhos, tristes, ofegantes,
envolvidos em silencio, noite e solidão!
Pareciam dois lamentos penetrantes
aljofrando alguém que sofre sem razão ...

Ontem vi dois olhos que num rosto sofredor
pareciam não ter esperança nem vontade de viver!
Duas pálpebras pesadas, veladas pela dor,
que pareciam sucumbir ao desejo de morrer ...

Ontem vi dois olhos que pareciam não ter Luz,
despojados de alegria, chorando por amor,
sangrando pela rua como um Cristo na Cruz!

E o porquê dessa amargura que o destino dá aos molhos?!
Tanta gente que caminha de mão dada com a dor ...
Como a loucura que encontrei na menina dos teus olhos!
 
Vi dois Olhos

Magia e Sedução

 
Magia e Sedução
 
Numa sórdida loucura em que me vejo
feita de cadeias que me prendem, num lamento
lembro com alento o gosto do teu beijo
à mesa do meu pobre e triste pensamento!

E há em mim algo de magia e sedução
há gritos de silencio e ecos de amargura
e há punhais que me ferem o coração
na procura desse tempo de ternura!

E há um bálsamo de incenso em torno a mim
há cansaços que me turvam e agonias
que são prova de que p'ra nós não há um fim!

Maldita a hora em que te vi, não sabia
que serias a razão do meu sofrer, do meu penar,
tu és a noite que chegou cegando o dia!
 
Magia e Sedução

Procuro um Coração

 
Procuro um Coração
 
E eu procuro um coração
inteiro, profundo, devotado,
que me leve o cansaço, a solidão,
que me leve o peso do passado ...

E eu procuro um coração
em ardências de chão queimado,
a minha mão na tua mão,
no meu corpo, cansado ...

E eu procuro um coração
embalado nos teus braços
e eis que esqueço a solidão
aninhado em teu regaço ...
 
Procuro um Coração

Triste que Venho

 
Triste que Venho
 
Tão triste que venho
vencido de amor ...
Porque sinto, 'inda tenho,
na boca teu sabor?!

Em que sedas te envolves,
damascos-meninos?!
Em que leito te acolhes?
Em que camas de linho?

Em que sonhos te perdes?
A que gente te dás?
De que bocas me bebes?

Que angustias te ferem?
- Quer vás onde vás -
meus olhos te seguem...
 
Triste que Venho

Por ti não Espero

 
Por ti não Espero
 
Por ti não espero és Passado,
estás distante, tristemente,
como vês eu estou mudado
não te quero novamente!

Por ti não choro ó desamor
chora tu pelo caminho,
como vês o teu amor
já não está no meu destino!

Por ti não espero, estou sozinho,
tu distante, tristemente
e eu cansado, em desalinho!

Diz adeus ao que eu te dei ...
Não te quero novamente,
adeus, mentira que eu amei!
 
Por ti não Espero

Na Morte do Poeta

 
Na Morte do Poeta
 
Na presença de um Poeta
que morreu de solidão
alguém chega e confessa:
"Ele foi minha Paixão!"

Chegou tarde tal confissão
suas cinzas vão ao rio
ninguém lhe deu o coração
e partiu cheio de frio ...

E diz ainda quem o viu
que na hora de partir
houve um nome que lhe ouviu.

Mas ninguém sabe o que sentiu,
dos seus lábios a sorrir
só disse adeus e partiu!
 
Na Morte do Poeta

Deixei de Acreditar

 
Deixei de acreditar no teu amor,
nem sei se alguma vez acreditei,
no meu peito, estranhamente, há uma dor
que ficou no lugar do que te dei!

Deixei de acreditar no teu olhar
mal vi que não me amavas como dantes
deixaste de me querer aconchegar
no leito que fez de nós amantes!

Estou só na derradeira separação,
estou só, sempre estive, não me iludo,
mas foste para mim uma linda ilusão!

Adeus é o que resta p'ra dizer.
Mas guardo no meu peito, guardo tudo,
sem nunca mais de ti querer saber!
 
Deixei de Acreditar

Opala de Silêncio

 
Opala de Silêncio
 
Na vontade de me ver, andei atrás de mim,
corri vales e montanhas, não me encontrei,
não vi nada, nada! Só meus sonhos de marfim,
constelados na dor destes versos que neguei!

Que opala de silêncio se fez quando os rasguei!
A procura foi em vão, mas nunca desisti,
nesta vida nem sempre tive o que procurei
e tantas vezes que por instantes eu morri ...

Tantas vezes que verguei ao peso do destino,
eu, meus olhos, meu corpo, uma saudade sentida
que arrastei no silêncio das mágoas do caminho!

Só me resta neste instante falar dos meus medos,
não posso mais viver assim, d'Alma perdida,
a queimar dentro de mim tantos segredos!
 
Opala de Silêncio

Richard Mary Bay
"o Último Romântico"