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ensaio mudo da palavra [1 de 4]

 
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não tirem o vento às gaivotas - sampaio rego sou eu


1.

no cimo da minha igreja os sinos batem a repique. assim se junta gente em falatório. aos meus olhos muita. aos meus ouvidos – as vozes passeiam em círculo. os pés. alinhados pelas conversas. arrastam-se – as conversas são feitas de palavras – quem pode confiar nas palavras que caem de bocas agitadas pelo ir e vir de um sino que nunca saiu do alto daquela torre – há uma multidão anunciada desde o dia em que o padre da paróquia lançou a água benta na primeira pedra – multidão palavra – na multidão há sempre o ruído das palavras. muitas. as mais incautas perdem-se no ar como balões. empurradas pelo som dos sinos. sobem ao céu. para sempre. outras. procuram ouvidos que não encontram – os corpos estão em festa – é a vida. desesperadas caem por terra. moribundas. cansadas da procura. calam-se – há palavras que não nasceram para serem ouvidas – silêncio – rente aos pés. esquecidas pelos corpos em festa contínua. desistem dos sons – calcadas pelo desprezo. serão chão de terra batida – os foguetes estoiram. os corpos dançam. a multidão eufórica abraça-se em palavras-gesto. sem boca. sem lábio. sem som. sem uma única corda vocal – e aquele silêncio-ruído continua abafado pelo toque da banda de música. quarenta músicos. quarenta instrumentos e nestes uns pratos redondos em ouro polido que quando batem um contra o outro. anunciam tempestade – o mau tempo não desmoraliza o homem de bigode que. de batuta na mão. comanda os quarenta músicos e os quarenta instrumentos de fazer música. sem uma única palavra – talvez os quarenta instrumentos toquem por medo à batuta-vara – no compasso da música. aprontada pelos instrumentos. os sorrisos dos quarenta músicos sobem e descem nas pautas de claves de sol ao ritmo da batuta – as palavras-gesto que ninguém ouve insistem em confundir o ruído – palavra. palavra-gesto ou gesto-palavra. tudo serve para construir silêncio nas multidões. nas cidades. nos amigos e até servem os propósitos dos inimigos. estes. já há muito tempo deixaram de se falar – silêncio. tudo se resume ao silêncio das palavras – se escrevo falo para mim. as palavras nascem-me no corpo. ouço-as. como nascente de água. pura. tudo o que é novo é puro. o pecado precisa de tempo para corromper o silêncio – toda a palavra é limpa ao nascer. só na boca ganha som. só ao vento é defeito – como pássaro parte em busca do ouvido. talvez abrigo. talvez acolhimento. amigo. prostituta. bondade. amparo – não entendo nada de palavras – tenho dias em que sou mudo. e como nos filmes mudos só o gesto do corpo. do olhar. do piano que não se vê e corre atrás das personagem em gritos que imagino – como é fácil contrafazer o som dos lábios – palavra. gostava de ser palavra para sempre. mesmo que fosse só em lábios contrafeitos – sou mudo há tanto tempo. à boca as palavras cansadas reclamam descanso – preciso de mergulhar a palavra-corpo numa banheira de água quente. bem quente. um gel de banho com aroma a pinheiro bravo – tonifico o corpo e a palavra-corpo – só o desprendimento traz silêncio –
 
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sampaiorego
 
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