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Crónicas : 

Quando for de novo

 

Há dias que não me apetece escrever poesia, apetece-me só escrever, solto, livre sem amarras, de rimas ou o verso certo que me agrilhoa. Há dias que o meu pensamento divaga à velocidade do punho que lhe marca o ritmo, cozo-me de dentro para fora e ostento na lapela a foto que arranco lá do fundo onde me encontro, tem vezes que nem eu próprio me reconheço na dobra da costura que fiz para mim, e com o bico da tesoura e paciência sem fim vou-me descosendo ponto por ponto soltando o pano e soprando as linhas.
Sou assim um pano onde a teia se cruza com a trama formando um fato remendado a ponto corrido, sem a beleza de um ponto cruz. Gostava de ser pano solto no mastro de um navio, nau fecunda de quilha contra a maré mas vejo-me assim a modos que um esparadrapo de juta remendada no cós em missa de domingo, queria ser linho nas mãos delicadas das tecedeiras da minha terra, sinto-me rede maltratada pelas mãos calosas do pescador.
Mas quando for seda de novo vou dar mais atenção aos bichinhos que me regurgitam num labor sem fim, pequeninos e praticamente insignificantes tecem o mais suave dos toques que o tacto almeja.
 
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jaber
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Enviado por Tópico
Alexis
Publicado: 26/03/2010 15:17  Atualizado: 26/03/2010 15:17
Colaborador
Usuário desde: 29/10/2008
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Mensagens: 7254
 Re: Quando for de novo para jaber
pois desde já te digo que o que vejo é um tecido precioso,saído das tuas mãos ágeis e bem guiadas pela tua inteligência e profunda sensibilidade.

o homem e o escritor renovam-se a cada dia que passa,mesmo que para isso tenham primeiro de mergulhar no cerne das suas memórias mais recônditas.

abraço
desta que te lê.

alex

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 26/03/2010 18:07  Atualizado: 26/03/2010 18:07
 Re: Quando for de novo
Essa é a liberdade do poeta: lindo dizer.
Abraço.
nuno