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Prosas Poéticas : 

Ouroboros Finita

 
• As trevas erguem-se do interior e chegam até mim, à consciência de mim, ao meu rosto, aos meus lábios, ao meu corpo tocado por esse círculo. Roçam como se atravessassem uma multidão invisível, tocam os meus olhos, a minha consciência, o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo e transformam-se em lágrimas que descem frias. Os meus lábios, sinto-os e sinto a memória das vezes que choro o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente frias.
O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que consiga imaginar o que é e as lágrimas frias que são trevas a ofuscar
os meus olhos, a minha consciência, o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo começam a ser lágrimas frias de desespero verdadeiro. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca fria, uma faca profunda, uma lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim. Não passou muito tempo desde que a manhã nasceu. Passou muito tempo desde que me deixaste sozinha entre as trevas que se confundiam com a noite. Noutras noites, olhávamos a lua. Nessa noite, não olhámos a lua. Noutras noites, olhávamos a lua e enchíamo-nos de desejos. Nessa noite, antes e depois de nos separarmos não olhámos a lua e, era essa mesma lua que existia no céu de agora. Agora, neste momento, não sei onde estás. Imagino-te a fazer tantas coisas. Imagino-te a não te lembrares de mim. Eu via os teus olhos através da noite, sabia que estavas a meu lado e sabia que nos íamos separar. Vi-te partir. Vi os teus passos a afastarem-te, meus passos a afastar-se e eu fiquei parada perante o medo. Tu afastavas-te de mim, eu afastava-me de ti, tu afastavas- te, ficavas cada vez mais distante, eu ficava cada vez mais distante de mim. Eu sabia que nunca mais irias voltar, eu iria voltar e desejei-te mais ainda. Sei onde estás, o lugar onde te imagino a fazer tantas coisas, a não te lembrares de mim e, eu a lembrar-me de ti, um lugar de trevas, o meu lugar de trevas. No céu, a lua, é a mesma que existia quando foste embora, quando caminhei pelas ruas desertas. Lembro-me da lua quando nos conhecemos e essa lua está debaixo do teu olhar e desta noite. Lembro-me da minha mão pousada sobre a tua e esse instante está debaixo da palavra solidão, debaixo da minha mão solitária. Lembro-me de tantas coisas impossíveis, as tuas costas antes do fechar da porta e o ruído do fechar da porta para nunca mais ver o teus passos a entrar e estenderem-se ao lado do meu corpo esquecido junto ao teu. Nunca mais vi a lua, e com ela, vieram as trevas que não ma deixará ver.



" An ye harm none, do what ye will "

 
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HorrorisCausa
 
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Enviado por Tópico
Conceição Bernardino
Publicado: 26/03/2010 19:20  Atualizado: 26/03/2010 19:20
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Mensagens: 3332
 Re: Ouroboros Finita
olá HC,

este texto está uma dor só, a grandeza da infinitude encontra-se com o antes e o depois do teu olhar.

beijo

Enviado por Tópico
arfemo
Publicado: 26/03/2010 21:13  Atualizado: 26/03/2010 21:13
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Mensagens: 4812
 Re: Ouroboros Finita
as trevas do interior, vistas do interior, com lampejos de sublimada dor. ensinam-nos os astros que a vida é constituída por ciclos...o resto é a boa escrita que dá prazer em ler...

beijo
arfemo

Enviado por Tópico
Betha Mendonça
Publicado: 26/03/2010 22:46  Atualizado: 26/03/2010 22:46
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Mensagens: 6741
 Re: Ouroboros Finita
No escuro interior a gente encontra respostas para muitas perguntas que no claro não se faz.Há tristeza, solidão e sonhos dentro da tua prosa que deixam leitores a autora bem próximos.
Bjins, Betha.

Enviado por Tópico
Ajota
Publicado: 27/03/2010 12:08  Atualizado: 27/03/2010 12:08
Da casa!
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 Re: Ouroboros Finita
Consegues, neste texto, fazer sentir beleza na tristeza, mas quero imaginar-Te a ver a lua e a sentir próximo a lembrança das coisas que nunca se afastam de nós.

Beijo*

Enviado por Tópico
HorrorisCausa
Publicado: 29/03/2010 22:25  Atualizado: 29/03/2010 22:25
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Localidade: Porto
Mensagens: 2699
 Re: Ouroboros Finita/Todos
muito obrigada por lerem e comentarem

beijo