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diz-se tempo, diz-se criatura

 
 
Manuel vive há muitos dias como frase de se dizer ao ouvido. Francisca conhece-o assim; gosta de passar na rua dele porque aí o relógio deixa de marcar aquilo: tempo, diz-se. Acontece aos sábados. Ficam os dois conversando muito sobre coisas de inventar. Francisca fitando céus; Manuel com olhar pregado aos chãos. Na rua onde o tempo se cala céus e chãos alteram-se junto com o artigo do diálogo. Francisca muito colada à terra; é como gosta de andar: descalça. Manuel muito colado ao assento mesmo à beira da janela sempre aberta do sótão. Pensa ele que ali é mais fácil viver como frase de se dizer ao ouvido. É, pelo menos, o que lhe dizem os olhos quando caem nos baús povoando, voando, povoando a divisão. Aconteceu no dia habitual. Manuel decidiu deixar de ser aquilo: criatura, diz-se. Esconderijo definitivo. Da boca do homem aos ouvidos de Francisca o trajecto do comunicado foi descendente como de costume, mas a velocidade não conhecera até aí tanta pressa. Fosse bala a resposta de Francisca e Manuel nem teria tido aquilo: tempo para agradecer à mulher a ajuda no remate da decisão. Francisca descolou. Virou a esquina. O tempo - o tempo? - voltou. Manuel de janela aberta à frente causando-lhe náuseas. Vómito de mundo todas as manhãs como mulher grávida de homem indesejado. Vários dias habituais se passaram sem que se multiplicassem céu e chão na rua sem relógio. Francisca precisava de sentir a terra bem pregada aos pés por culpa das horas sem tempo dos sábados. Patrulhada pelo agente da saudade foi ver se Manuel ainda era. Quando chegou a janela estava fechada.

 
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folhato
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Enviado por Tópico
eduardas
Publicado: 06/06/2010 22:43  Atualizado: 06/06/2010 22:43
Colaborador
Usuário desde: 19/10/2008
Localidade: Lisboa
Mensagens: 3731
 Re: diz-se tempo, diz-se criatura
Soberbo texto que me deixou de olhos bem abertos para fruir todo o tempo.

Parabéns!

bj
Eduarda

Enviado por Tópico
Alexis
Publicado: 06/06/2010 22:45  Atualizado: 06/06/2010 22:45
Colaborador
Usuário desde: 29/10/2008
Localidade: guimarães
Mensagens: 7254
 Re: diz-se tempo, diz-se criatura para folhato
bem-vindo ao luso.
achei o teu texto interessantíssimo.

quero ver mais.

beijo

alex

Enviado por Tópico
Margarete
Publicado: 06/06/2010 22:50  Atualizado: 06/06/2010 22:50
Colaborador
Usuário desde: 10/02/2007
Localidade: braga.
Mensagens: 1199
 diz-se tempo, diz-se criatura ao folhato
já há algum tempo que sabia da sua presença por aqui, em leituras, quase sempre oculto. gosto desta prosa, pena que não a tenha mostrado mais cedo.


um beijo,
mar.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 07/06/2010 22:27  Atualizado: 07/06/2010 22:27
 Re: diz-se tempo, diz-se criatura
Boa noite folhato. É com agrado que lhe dou as boas vindas ao luso-poemas, pois este seu primeiro texto abriu o apetite.
Excelente.

Abraço


Enviado por Tópico
babel
Publicado: 08/06/2010 23:38  Atualizado: 08/06/2010 23:38
Muito Participativo
Usuário desde: 26/11/2009
Localidade:
Mensagens: 77
 Re: diz-se tempo, diz-se criatura
Também já tinha dado pela sua presença silenciosa por aqui, folhato. O texto é muito bom, e, pelo registo mostrado, confesso, fiquei muito curioso em relação à poesia. Talvez um dia.

Enviado por Tópico
cleo
Publicado: 08/06/2010 23:53  Atualizado: 08/06/2010 23:53
Luso de Ouro
Usuário desde: 02/03/2007
Localidade: Queluz
Mensagens: 3857
 Re: diz-se tempo, diz-se criatura
Tal como os "comentadores" anteriores, também eu me deliciei com a leitura desta bela prosa

Bem vindo, sejas lá tu quem fores.
Esta casa agora também é tua.