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As Crianças de Natércia

 
As Crianças de Natércia
 
Olhem! – Exclamam as crianças quando entram na sala de aula e dão pela presença de uma enorme árvore de Natal que se encontra muito próxima da secretária da professora. A árvore de Natal tem uma grande quantidade de luzes coloridas e cintilantes, que iluminam um bonito presépio, deixando as crianças ainda mais contentes.
Arnaldo, um dos miúdos mais irrequietos da turma, não resiste em tocar com a sua mão direita num dos camelos de barro, que se encontram junto dos três Reis Magos. Mas não é bem sucedido. Pouco tempo depois, recebe um valente ralhe-te da professora, chamando a sua atenção para não repetir o acto, pois tivera tido imenso trabalho para dispor todas aquelas peças que compõem grande parte do presépio. Ficou aborrecido, mas lá se convenceu a acatar o pedido da professora, acabando por se dirigir em seguida para o seu lugar, enquanto o beicinho, dava mostras de querer chorar.

Terminadas as gritarias e os empurrões, foi concedido a todos, a oportunidade de ocuparem as secretárias onde gostariam de ficar. Assim algumas das crianças mais faladoras podiam satisfazer o seu desejo ao sentarem-se ao lado do seu amigo mais chegado. As crianças estavam super contentes.

Finalmente o silêncio tomou conta da sala de aula e a professora, podia fazer-se ouvir.
Estamos a poucos dias do Natal e a professora Natércia, escolheu um tema muito próprio para trabalhar com as suas crianças relacionados com a quadra que está prestes a chegar. Aos alunos é proposto elaborar um desenho, para que a professora possa saber, quais as prendas que mais gostariam de receber no dia de Natal. A resposta não se fez esperar. O entusiasmo foi imenso. Nenhuma das crianças deu pelo passar das horas. Esgotado o tempo de aula, todos os que não acabaram o seu desenho em tempo útil, puderam assim levá-lo para casa, para o terminarem.

A professora Natércia, tem á sua responsabilidade, uma turma com 12 crianças que frequentam o primeiro ciclo do ensino básico, sendo a sua maioria constituída por crianças que vêm de famílias muito pobres. Algumas delas têm graves problemas sociais e as que têm família, pouco podem fazer para ultrapassar essas dificuldades, porque não existem grandes oportunidades de emprego na região derivado ao seu fraco desenvolvimento. Mas também existem outras razões que nem o próprio desenvolvimento poderá ser o responsável. A professora Natércia, desde que se iniciou o ano lectivo guarda o segredo de duas das suas alunas. Sabe que a Eugénia e a Catarina, não tiveram a sorte de terem o acompanhamento de uma família como todas as outras crianças deste país e por esse facto, regressam logo que terminam as aulas a uma Instituição de Solidariedade Social. Os pais são muito pobres e estão á muito desempregados, não tendo forma de as poderem sustentar, pelo que é a instituição Social mais próxima da Aldeia que as acolhe durante o decorrer da semana escolar.

Na manhã seguinte, um forte nevão, apanhou toda a Aldeia desprevenida incluindo Natércia.Alguns dos preparativos para a quadra Natalícia estavam francamente comprometidos. Praticamente quase todos os caminhos estão intransitáveis. As pessoas foram aconselhadas pela junta de freguesia, a não utilizarem os caminhos habituais da Aldeia, assim como as crianças a não irem á escola e a permanecer em casa. A professora Natércia, está muito preocupada, principalmente com as raparigas que estão no Lar. Sabe que dispõe de poucos dias para poder comprar os seus presentes e poder contribuir para dar algumas alegrias neste Natal, a crianças que vivem na Instituição.
O nevão não estava nos seus planos. Tudo indicava, que iria nevar até ao Natal. Olhava por entre a vidraça, e observava a neve a cair quando lhe surgiu uma brilhante ideia:
Porque não ir ao sótão e procurar na sua antiga mala de cartão, algumas das suas coisas de criança que guardara religiosamente? Talvez lá encontrasse algo que estivesse em boas condições para oferecer.
Assim fez! Ao abrir a mala, as recordações que encontrou eram imensas. Lá estavam as suas antigas e estimadas bonecas,assim como muitas outras coisas, que qualquer criança independentemente da idade, faz questão de guardar e com o passar dos anos, nunca as vem a utilizar.

Ficou muito contente por encontrar novamente o vistoso colar de pérolas que recebera um dia de presente de sua madrinha, quando tinha talvez a idade da sua aluna Catarina.Encontrava-se impecável!
Decidiu então que esse bonito colar seria para a sua aluna Catarina, pois pelo que conhecia da menina, esta já gostava imenso de bijutarias.
Que daria então de presente a Eugénia? Começou por retirar mais algumas coisas que estavam no fundo da mala. Encontrou então uma pequena mala em verniz, que tantas vezes a acompanhava nas fotos de família.
Falava alto, como se estivesse a falar com alguém.
- Eugénia, com certeza irá gostar de receber esta bonita mala de verniz que usei, quando tinha a sua idade.
Encantada a professora, arrumou tudo o que já não lhe interessava.
Espreitou por breves instantes pela janelinha do sótão e reparou que de facto lá fora, o tempo parecia estar cada vez mais instável. O cenário mostrava espessos mantos brancos, como se enormes quantidades de espuma tivessem tomado conta das árvores e arvoredos, cobrindo já a maior parte das ruas.

Nos dias seguintes, a neve continuou a cair com mais intensidade. Em quase todas os pontos da Aldeia,só as luzes do Natal, davam alma e cor ao dia de Natal,quando vistas de qualquer ponto alto. Quase todas as casas celebravam agora a mensagem de paz e esperança.O Natal tinha chegado. A Igreja da Aldeia está a postos para receber todos os seus fiéis, assim como todos aqueles que queiram á meia-noite, privar com Deus o nascimento do seu menino. Algumas das crianças da Aldeia naquela noite, poderão concretizar alguns dos seus desejos.
Mas as crianças de Natércia, apesar de viverem na Instituição de Soladariedade Social também poderão concretizar um pequeno sonho. Nunca tiveram o carinho da verdadeira mãe, mas sempre têm alguém que lhes dedica grande parte do seu coração. A professora Natércia!

A todos aqueles que leram este meu conto, desejo-lhes um Santo e Feliz Natal, mas também gostaria de deixar um apelo, para que nunca esqueçam as crianças de Natércia.

GABRIEL REIS



 
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reisgabriel
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 15/04/2013 01:45  Atualizado: 15/04/2013 01:45
 Re: As Crianças de Natércia
Não há como não esquecer as crianças de Natércia. Irei guardá-lo por quanto tempo minha memória for sã! Abraço.