Crónicas : 

"O Pecado"

 
Aos olhos simples de quem displicentemente olha para eles, enxergam apenas mais um casal entre tantos que pelas calçadas da vida andam de mãos juntas. A normalidade do que os olhos enxergam não condiz com a situação intensa e tensa daquela relação, as adversidades, os contratempos em tempos e, sobretudo os ensaios de repulsa, fazem daquele casal o símbolo do "pecado".
A criança de outrora que fora ninada e mimada por inúmeras vezes, não constitui-se mais assim. Hoje uma mulher linda e encantadora. A menina cresceu e naturalmente despertou e desperta paixões.
O homem bondoso e carinhoso dos ninos e mimos, hoje é o amante perfeito para àquela que anseia pela felicidade e, quando trata-se dessa busca, por vezes não conseguimos sucesso, então ao senti-la próxima naturalmente nos agarramos à possibilidade e as consequências que venham, pois para ser feliz é necessário encarar e superar as adversidades.
O sangue do sangue. A sobrinha querida de ontem, o tio amado, o amor chegou tomou-lhes de maneira veemente. As bocas se beijam, os corpos tremem, as línguas gemem e eles entregam-se em um ato de amor incondicional. O que dizer, o que pensar, como reagir diante do incesto aparente e real. Será possível tal acontecimento, por que, para que, como, onde, quando? São inúmeras as perguntas e tão poucas as possíveis respostas.
O tio e a sobrinha não mais dispensam a benção, beijam-se como namorados, que são, mantém a relação oculta, ainda oculta, afinal o incesto é "pecado mortal".
O amor não é pecado. A razão não quer, a emoção não obedece. Quando o amor nos toca, quando este sentimento avassalador nos toma, os limites não existem mais, os códigos de conduta caem por terra e o que vale mesmo são as batidas dos corações apaixonados que nem se perguntam o porque e ou para que. O tio e a sobrinha em seu ato incestuoso de amor, carregam consigo o peso da diferença, sofrem a amargura do destino sacana que os fizeram apaixonar-se.
E agora? Afagar ou apedrejar?
Apedrejem o Gênesis da criação de Eva e Adão, pois somos todos frutos de relações incestuosas, afinal a nossa descendência vem do Edem.
Afaguem as filhas de Ló, que no auge da embriaguês do pai e, de maneira sábia, mantiveram relações sexuais para a prole continuar. Estamos aqui.
Que as saúvas do "Cem Anos de Solidão" não carregam o fruto dessa relação, afinal de tempos em tempos haveremos de vivenciar o amor e a paixão acontecer entre aqueles que não têm permissão e, de tempos em tempos nos perguntaremos se isso é pecado ou não?

 
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Sóstenes10
 
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