https://www.poetris.com/
 
Prosas Poéticas : 

A geometria dos escombros

 
Tags:  Alepo  
 

Ensurdecedor se levanta o pó
e a cidade cega tateia em desespero.
Janelas envidraçadas se entregam
de peito aberto até que o ar
se encha de chuva
de estilhaço.
Alguns pilares resistem à vibração
do ar, como soldados suicidas,
enfrentam explosões
da temperatura hedionda
e vão trepidando e se quebrando
antes da desconstrução fatal.
Por alguns minutos, cinzas
sufocam gemidos e estes sucumbem
ao silencio.
Alguns gritos chegam com o vento;
balburdias da correria
pós conflitos
depois que a poeira senta
e a cinza se cola em alguns
bravos monumentos,
escombros revelam ao mundo
suas geometrias
e a dor calada em cada fotografia





beirando um mar infinito

 
Autor
MyrellaCasav
 
Texto
Data
Leituras
464
Favoritos
6
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
70 pontos
10
6
6
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 29/01/2017 16:03  Atualizado: 29/01/2017 17:29
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 277
 Re: A geometria dos escombros
Um poema que remete para imagens apocalípticas - sobre destruição e violência, sobre resistência e impotência.
Obrigada por dares voz às vozes silenciadas e lembrares quem te oiça desta realidade que não diz respeito apenas a Alepo mas a todo o mundo.
Apesar do poema se chamar “A geometria dos escombros” parece-me óbvio que desenvolves um paralelismo entre o espaço e quem nele vive, e é por isso que os “escombros revelam ao mundo” não só as “suas geometrias” como também “a dor calada”.

Logo no início do poema temos três sentidos em acção: audição, visão e tacto – o “ensurdecedor” para o primeiro, o “cidade cega” para o segundo e o “tacteia” para o terceiro.
São os sentidos que apreendem o que se está a passar (alterações, movimentos), daí toda a multiplicidade de palavras que complementam o “cenário” e reafirmam o que os sentidos “recebem” como “estilhaço”, “vibração”, “explosões”, “sucumbem”, “balbúrdias”, “correria”, “poeira” e “escombros”. Estas palavras põem-nos “no terreno”, obrigando-nos a encarar esta realidade e, parece-me que inevitavelmente, a imaginar-nos na mesma situação, a sentirmos empatia por quem vive em Alepo e a compreendermos que é por pura arbitrariedade que não estamos lá (afinal de contas, somos todos seres humanos e pertencemos ao mesmo espaço-Terra… poderíamos estar num outro qualquer local se os acasos que nos trouxeram ao lugar onde agora estamos tivessem sido, mesmo que apenas residualmente, diferentes).

Vendo a casa como um corpo (dica que o próprio verso nos dá dizendo “peito aberto”), a janela é essa divisão que existe entre interior e exterior, daí que o trecho:
“Janelas envidraçadas se entregam
de peito aberto até que o ar
se encha de chuva
de estilhaço.”


me remeta para algo tão intenso quanto o quadro do fuzilamento de 3 de Maio de Goya.
A casa, como lugar de suposto refúgio, é violentamente destruída. O interior, as pessoas, são arrasados pelo exterior. As “janelas envidraçadas” entregam-se perante a impotência, “de peito aberto”, e a “chuva” e o “estilhaço” entram na divisão.

Porém, há uma óbvia resistência:
“Alguns pilares resistem à vibração
do ar, como soldados suicidas,
enfrentam explosões
da temperatura hedionda
e vão trepidando e se quebrando
antes da desconstrução fatal.”


os “pilares” representam essa força, esses homens (todos os homens de Alepo), essas mulheres (todas as mulheres de Alepo), essas crianças (todas as crianças de Alepo) que se defendem, reagem e lutam contra as adversidades, mantendo as suas convicções - mesmo que para tal tenham de mudar por completo a sua vida e abandonar (fisicamente) as suas raízes.

A destruição faz com que os “gemidos” se convertam em “silêncio”, mas logo voltam os sons, sob a forma de “gritos”, porque a destruição não cessa… porque mesmo quando uma guerra finda vem sempre outra a seguir
“Por alguns minutos, cinzas
sufocam gemidos e estes sucumbem
ao silencio.
Alguns gritos chegam com o vento;
balburdias da correria
pós conflitos”


E quem são esses “bravos monumentos” senão todos esses Homens que lutam pela sobrevivência e nada fizeram para que não fossem deixados em paz?

Um poema muito bem escrito, um poema que causa muito impacto, um poema que mostra o que nem sempre queremos ver (mas temos de ver), um poema que é tão humano que nos toca de um modo profundo e inevitável.


Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 31/05/2017 15:21  Atualizado: 31/05/2017 15:21
Luso de Ouro
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade: Macapá/Amapá - BRASIL
Mensagens: 5271
 Re: A geometria dos escombros
Gosto.

Mary


Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 31/05/2017 17:17  Atualizado: 11/09/2017 18:22
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Setúbal, Portugal, Azeitão
Mensagens: 1483
 A esquadria dos ombros

A esquadria dos ombros
Impede-me que volte a cabeça
Ou que olhe pro umbigo ou
Pra ver onde foi parar o chão paralelo

É na esquadria dos ombros
Que morro asfixiado pelo fato
Que talhei pela linha do sol
Nas costas

Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 09/03/2018 09:52  Atualizado: 09/03/2018 09:52
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Setúbal-Azeitão, Portugal
Mensagens: 1467
 Re: A geometria dos escombros
Grato por ler seu generoso poema.



Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 14/03/2018 10:54  Atualizado: 14/03/2018 10:54
Colaborador
Usuário desde: 13/07/2010
Localidade:
Mensagens: 29007
 Re: A geometria dos escombros
Poema profundo que bete nos sentimentos da alma