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XXI O genioso fidalgo Dom Quixote da Mancha

 
Tags:  cordel    quixote    cervantes  
 
XXI - Vigésimo primeiro episódio que trata da grande aventura
e preciosa conquista do elmo de Mambrino, com outras coisas acontecidas
ao nosso invencível cavaleiro

Cavaleiro e escudeiro
indo por um matagal
adentraram de repente
em uma zona rural
encontrando no trajeto
um extenso milharal

Quando entraram ali
procurando por atalho
avistaram de passagem
um prosaico espantalho
que era só um boneco
costurado com retalho

E Quixote o apontando
disse a seu escudeiro:
- Não podemos prosseguir
sem examinar primeiro
aquele velho estafermo
de treinar um cavaleiro

Sancho Pança intrigado
respondeu a seu patrão:
- Isto ali é um boneco
de remendo de algodão
feito só pra espantar
as aves da plantação

- Eu terei que repetir
que o seu conhecimento
sobre a lida campeira
é debalde num momento
em que o tema das armas
novamente toma acento?

- Pois ali no estafermo
que deixaram escondido
você vê um espantalho
só porque é parecido
esquecendo que no tema
sou bastante instruído

- Pois você tem o dever
uma vez que é escudeiro
de fazer adestramento
como faz um cavaleiro
ainda que não alcance
o primor de um lanceiro

- Na vara do estafermo
vou amarrar a rodela
Você monta em Rocinante
e avança contra ela
como se fosse Amadís
defendendo uma donzela

E depois que seu escudo
foi no boneco amarrado
Dom Quixote o carregou
para o amplo descampado
que pra ele era o lugar
onde tinha sido usado

Desejando só brincar
Sancho a tudo aceitou
Como se fosse lanceiro
em Rocinante montou
e a lança de taquara
no espantalho mirou

Foi ali que o escudeiro
imitando Dom Quixote
deu a carga esquecendo
já não ser um rapazote
e gritou se aprumando:
- Sou agora Lancelote!

Com a lança apontando
pra sua sorte ou azar
bem no meio do escudo
conseguiu ele acertar
e com a força do golpe
fez o boneco rodar

O espantalho girando
desferiu de supetão
uma varada em Sancho
que deixando um vergão
fez o mesmo desmontar
caindo bambo no chão

Quixote foi acudir
o escudeiro estirado
dizendo que o revide
do boneco era esperado
e ali mesmo no chão
Sancho foi elogiado

O que Sancho retrucou
tem o grau do desatino
de um longo praguejar
o qual repetir declino
pois teria que o fazer
só em verso fescenino

O leitor mais exigente
que procure nos relatos
do cronista Benengeli
uma apuração dos fatos
feita com maior rigor
em impressos correlatos

Sancho Pança pra poder
da queda ir recobrando
precisou ficar sentado
um momento descansando
e os dois aproveitaram
esse tempo conversando

Permeando a conversa
com ditados populares
coisa que o escudeiro
conhecia aos milhares
falaram de cavaleiros
e assuntos similares

Sancho Pança descobriu
que Dulcinéia, a rainha,
era Aldonza de Lourenço
com quem parentesco tinha
sendo ela a concunhada
do avô de uma vizinha

Disse ele que na vila
onde era conhecida
era simples porcariça
que só andava fedida
trabalhando na pocilga
com os porcos entretida

Dom Quixote na defesa
de Aldonza ou Dulcinéia
disse que ela seria
pra sempre a sua tetéia
comparando a sua musa
com a grácil Galatéia:

- Pois vivia numa ilha
um monarca escultor
que no seu belo jardim
trabalhava com ardor
Todo o povo conhecia
seu trabalho e valor

- A não ter uma esposa
já estava decidido
que só damas indecentes
o queriam por marido
mas tiveram todas elas
recusado seu pedido

- E fazendo a escultura
de uma linda donzela
mesmo sem ter uma dama
para ser modelo dela
percebeu que estava ali
a sua obra mais bela

- E a deusa Afrodite
adentrando seu jardim
vendo tanta perfeição
na donzela de marfim
já sabia que na ilha
não havia dama assim

- E ficando Afrodite
nesta hora comovida
desejando dar ao rei
a esposa pretendida
fez então uma mulher
da imagem esculpida

- O rei Pigmaleão
no sonho realizado
com a bela Galatéia
ditoso ficou casado
Pela sua compostura
ele foi recompensado

- Os poetas são assim
feito um Pigmaleão
Quando elegem sua musa
pra lhes dar inspiração
é a quem vão dedicar
versos cheios de paixão

- E assim vejo Aldonza
virtuosa e requintada
que tem uma louçania
só com fadas comparada
e pra mim sempre será
minha Dulcinéia amada

Essa Aldonza que conheço
apenas de ouvir falar
é a princesa perfeita
a quem sempre irei amar
e meus feitos valorosos
sempre a ela dedicar...

Sancho Pança escutando
disse que tinha 1 porém
pois mesmo a sua patroa
a quem mais queria bem
tinha suas qualidades
e seus defeitos também

- É fácil amar a princesa
que nunca lhe dá ensejos
de saber se ela existe
tal e qual os seus desejos
nem o risco de suspiros
transformados em bocejos

Sancho Pança sugeriu
a Quixote uma idéia
de irem ao povoado
conhecer a Dulcinéia
pra saber se ela seria
mesmo a sua Galatéia

Estando nestas conversas
começou um chuvisqueiro
Montado no seu jumento
apareceu um barbeiro
que distraído subia
na vereda do outeiro

Pra poder se proteger
da chuvinha que caía
o barbeiro colocou
na cabeça uma bacia
e montado num jumento
o barranco ele subia

E Quixote o avistando
disse a seu escudeiro:
- Sancho Pança, veja que
vem subindo um cavaleiro
cavalgando num corcel
que galopa bem ligeiro

Sancho Pança intrigado
disse sem acanhamento:
- Eu só vejo um cidadão
que montado num jumento
vem subindo na colina
com um trote meio lento

Mas Quixote respondeu
já montando no eqüino:
- É mais uma aventura
que nos trouxe o destino
O guerreiro na cabeça
tem o elmo de Mambrino!

Dizendo isto Quixote
seu cavalo esporeou
Na descida do outeiro
resoluto disparou
e pra cima do sujeito
com a lança avançou

Rocinante que descia
galopando no embalo
progredia na ladeira
com tropeço e resvalo
Dom Quixote confiante
foi gritando no cavalo:

- Escute o que eu digo
cavaleiro atrevido!
Me entregue o morrião
que a mim só é devido
ou vai conhecer a lança
dum guerreiro aguerrido!

Sem ao menos entender
o que estava acontecendo
o barbeiro do jumento
bem ligeiro foi descendo
e derrubando a bacia
para o mato foi correndo

Dom Quixote satisfeito
vendo a bacia no chão
disse para o escudeiro
recolher seu "morrião"
que depois de um exame
deu a dita a seu patrão

- Se um dia retornar
para minha parentela
vou limpar esta bacia
com estopa ou flanela
pois parece muito boa
de fazer a barba nela

- Pois foi o mago Frestão
que com a sua magia
fez o elmo de Mambrino
parecer uma bacia
mas é como um bacinete
que tem a sua valia...

- Acontece que isto aí
nunca foi um capacete!
Eu conheço uma bacia
e conheço um bacinete
A não ser que isto seja
talvez um bacianete!

E os dois se revezando
entre falante e ouvinte
as suas próprias idéias
defendiam sem acinte
Vamos ver como ficou
no episódio seguinte
 
Autor
CarlosAle
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