Poemas -> Minimalistas : 

o poder da coleira

 

aquele bichinho
que sai mordendo tudo
por pura satisfação

quando
se desprende
da razão


Aquela mania de escrever qualquer coisa que escorrega do pensamento.

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MarySSantos
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 01/02/2023 20:36  Atualizado: 12/02/2023 01:15
 Re: o poder da coleira




Não há poder ambição ou temor
que a cólera não possa travar,
mesmo agarrada por detrás,
na cauda ou junto ao focinho



Joel Matos



Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 01/02/2023 20:39  Atualizado: 01/02/2023 20:42
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1968
 Re: o poder da coleira
Esperem lá, é o poder da coleira, ou da cólera?...

(parte 1)
P.S.: Já agora, açaime também...



Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 11/02/2023 22:53  Atualizado: 11/02/2023 22:53
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1968
 Re: o poder da coleira
(parte 2)

Este poema parece uma conversa de café que algum amigo comenta connosco com algum azedume.
Ou amiga.
É também uma reflexão/observação, bastante sumária, mas profunda da importância daquilo a que chamamos de razão, no comportamento humano em geral.
A violência é uma perda de razão.

Com alguma facilidade, se alguém, num conflito, começar a agredir fisicamente o outro, é comum popularmente dizer que perdeu as estribeiras, ou a razão.
Ter ou não ter razão, é também uma causa perdida nesses casos de conflito. Cada um tem a sua. Com mais ou menos acerto, melhor ou pior argumento.

A razão é coisa de filósofos, pelos vistos também de poetas.
Neste poema associo a mesma à calma, à tranquilidade, à capacidade de controlar os impulsos agressivos, à assertividade (esqueçam lá isso, é um trabalho prá vida toda).

O título fala de “...poder...”. Palavra enorme e desejada.
Ele, e sobretudo ele, corrompe. Ninguém sai impune, por mais beato que se considere.
Sem querer defini-lo com demasiada exatidão, é “a capacidade de ter força”.

Neste caso acho a “...coleira...” relativamente inofensiva.
Ou seja, como metáfora é imageticamente competente, mas como tenho um gato, ter coleira não me dá um grande poder sobre ele.
A trela é um outro assunto. Poeticamente admito que é muito mais pobre, senão convenhamos: “o poder da trela” é mais simplório, talvez prosaico.
Mas é a trela que prende o bichinho ao dono, ou à barraca. A conjugação “...coleira...” e trela, é a de superior poder.

Faz sentido que na primeira estrofe o “...bichinho...” seja em minúsculas. É uma forma de o diminuir e as suas ações. Um ardil subtil. A linguagem comum, quase em calão do segundo verso mantém o diapasão e coloca a irracionalidade num patamar que se quer propositadamente baixo.

Há algo de bastante satisfatório no comportamento desumano, na selvajaria, na brutalidade.
Somos uns animais bastante complexos, todos nós.

O que nos salva, seja ela a educação judaico-cristã punitiva, ou o conceito de moral e bons-costumes, ou a cultura do certo em detrimento do errado, é a razão.

Seja ela uma coleira com nome e morada, ou com uma trela atrás...
Em relação ao uso do verbo “...desprende...” utilizado no penúltimo verso, também acho a escolha muito feliz, porque frisa o acto de prender relacionado à coleira.

Muito curto este poema, como podem ser alguns teus, mas muito cheio de significado e profundidade.

Obrigado pela leitura