Poemas : 

Respiradouro

 
Respiradouro
 
After Anguish - Liz Gridley



os homens carregam torres
de caixas de máscaras e ventiladores e inaladores
de morfina
enquanto vejo as torres em movimento
caminho à beira-mar e olho os pés devagar
oiço as canções que o vento me sussurra ao ouvido
melodiosas e irregulares
húmidas

as ondas tropeçam umas nas outras
o areal é escuro e batido pela água azul e branca
uma espuma comprida, qual bainha de saia,
adorna o chão molhado de mãos nos bolsos,
sento-me nele
sinto as moléculas de nevoeiro orvalhado que impregnam o meu vestido

a linha do horizonte corta o céu em metades cinzentas
visto de cima, o mar tem uma colcha picada
que dança ao som do ar no tempo

chove
o céu decidiu unir-se ao mar em linhas perpendiculares
levanto-me, molhada e as torres de caixas desabaram
os homens desapareceram
à minha frente,
máscaras com morfina para que o mar sinta o sabor da vida dos homens


e sou do sítio das borboletas monarcas azuis

 
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AliceMaya
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 25/02/2024 11:52  Atualizado: 25/02/2024 11:52
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1925
 Re: Respiradouro
A escrita bem feita dispensa ilustração.
Aceito a liberdade artística e a decisão do autor de pôr videclips de música ou quadros, mas quando o poema é tão grande e cheio de camadas e interpretações parece tão desnecessário.
Dito isto, ainda vou ter de pensar nele.

Outro.

Abraço


Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 25/02/2024 17:35  Atualizado: 25/02/2024 17:35
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 591
 Re: Respiradouro para Alice Maya
Querida Alice,

Ao ler o que você escreveu, mergulhei numa exploração sensorial fascinante. Nessa jornada, senti a carga que os homens carregam, simbolizada pelas torres de caixas, numa narrativa rica de desafios.
A transição para a beira-mar é como uma respiração libertadora, oferecendo uma pausa contemplativa e uma conexão revigorante com a natureza. A descrição da praia, das ondas e da linha do horizonte trouxe-me uma sensação tangível e envolvente. Talvez porque eu seja totalmente fascinada pelo mar, e me sinta exatamente assim perante ele.
A chegada da chuva, unindo céu e mar, traz uma metamorfose visual e emocional, talvez simbolizando uma renovação ou fusão de elementos opostos.
O colapso das torres e o desaparecimento dos homens sugeriram-me uma liberação de encargos.
A inclusão das máscaras com morfina, destinadas ao mar, adiciona um toque poético único, evocando uma tentativa de compartilhar as experiências humanas com a vastidão do oceano. Achei isso genial.
Além das palavras, a escolha da ilustração contribuiu muito para a experiência visual do seu poema.
Gostei muito.

Grata pela partilha, pela jornada de reflexão sobre a condição humana e pelo respirar.

Com carinho,
Aline.



Enviado por Tópico
ZeSilveiraDoBrasil
Publicado: 25/02/2024 18:08  Atualizado: 25/02/2024 18:08
Administrador
Usuário desde: 22/11/2018
Localidade: RIO - Brasil
Mensagens: 1901
 Re: Respiradouro
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Olá Alice,
Não tanto praiano hoje, mas, 'ad eternum' um citadino beira mar, rato de praia, contemplo o seu poema como um espectador romântico, que, do alto duma falésia imaginária vê reproduzir imagens marinhas várias metamorforseando-se ao sabor ácido psicodélico da imaginação... me faz crer que muitas obras literárias, pinturas em telas, e ou gráficas partem de escritos como o seu; indescritível para um entendimento comum mas que persiste habitar a razão, ou não... Te seguindo tenho certeza que muitos caminhos vou percorrer e me surpreender....
Aquele abraço caRIOca!


Enviado por Tópico
Paulo-Galvão
Publicado: 25/02/2024 18:52  Atualizado: 25/02/2024 18:52
Usuário desde: 12/12/2011
Localidade: Lagos
Mensagens: 1176
 Re: Respiradouro
Olá Alice,

Li e reli o seu texto perturbante umas 4 vezes antes de o comentar.
Sabendo que morfina é administrada de forma paliativa aos doentes terminais, não posso deixar de sentir este poema como um desabafo, Desabafo sobre a humanidade ou "outros". A presença do mar agitado, o areal escuro são reveladores de uma inquietação ofegante, real ou imaginária.

Mas de súbito, a chuva promove uma fusão entre céu mar, entre realidade e sonho, ficam as caias a flutuar (no sonho?), lembrando que os homens desapareceram, aqueles mesmos que precisavam de paliativos, podendo agora o mar (a nossa essência?) acalmar-se.
Viajei!

Parabéns, muito criativo,
Muita poesia!

Abraço

Paulo