NOVEMBRO DE 1991
Terça-feira, 05/11/91
18:28 – Espero como um condenado que espera o cumprimento de sua pena. Preparei o jantar, um arroz com carne e um escabeche misto de galinha e carne assada de porco. Dei uma gorjeta ao ilustre cidadão. Dona Vang ainda não chegou – leio o mestre conterrâneo Josué Montello, depois de tantos anos volto a encontra-lo no famoso “Cais da Sagração” que roubei da casa de Karl no tradicional passeio matutino dos domingos.
20:15 – Vang dorme suavemente depois de uma boa trepada. O emissário trouxe (não o desejado) mas trouxe o necessário. Ouço Marley no pequeno walkman que queixei de Vang. Fumo um baseado sem gosto de basy.
Penso distintamente, vejo um futuro amargo sem uma luz – apenas uma vontade, um sonho e a ultima e esperança. Escrever, eis o meu ideal – escrever apenas escrever, relatar ao mundo a existência de uma cultura em extinção, demonstrar que aqui fuma-se a melhor de todas as literaturas. Bolas para Kerouac e a sua pose de intelectual almiscarado de uma geração sem destino ou outros que são os melhores quando são todos filhos da mesma agonia. Cravo aqui o meu destemido destino não importa e nunca importam que os outros pensam sobre mim. Vivo como gosto, sou livre como um pássaro. Hoje posso dar-me o luxo de ser o que tanto sonhei. Acordo em sinfonia com a natureza, cumpro a minha tarefa de cidadão comum. Todas as manhãs caminho alegre para o atelier, juntamente com dois normais cidadãos dividimos o pão chila de todos os dias. A tarde quando menos trabalho, venho cedo para casa. Tentar compor alguma coisa. Leio os meus exercícios diários. Há os problemas financeiros, mas são o de menos – o dinheiro pesa pouco, apenas o essencial de manter-me os vícios e as vezes ao prazer.
Quarta-feira, 06.11.91
07:40 – uma divino sol a iluminar-nos nesta frondosa manhã entre zurros, chilros, cacarejos e outras peças fundamentais e essenciais para a sinfonia do amanhecer. Ainda pouco a brisa arquejou por entre as folhas do coqueiro. Van banha-se poeticamente nua no quintal, enquanto eu tributava ‘unzinho’ para clarear o enferrujado cérebro. O livro não vem, mas dentro de mim ele debate e recusa-se a sair, mas a fervura esta pronta, como se estivesse a centenas de anos. Na alvura imaculada de sua silhueta bizantina inigualável, uma cruz pende a direcionar o vento da fé que é pouca. Na rua da Palma, calçadas de paralepipedos irregulares, tal qual a vida daqueles que o pisam diariamente – tento recompor todo o traçado do meu querido bairro do Desterro. A igreja, o símbolo da fé, a praça...
Sexta-feira, 10.11.91
11:39 – Lojinha de Van
Uma manhã sadia e sem muitas esperanças, os horrores dos enjoos matutinos – esperando-a para almoçar, uma fome desgarrada e uma falsa esperança – talvez um serviço bom – mas o que desejo mesmo é escrever. Os poemas já foram escritos falta apenas a solução para edita-los. Engatilho-me num projeto foto-poesia sobre o Desterro.